Casal gay condenado diz ter orgulho da luta contra homofobia

Patty Reinert
Em Houston (Texas)

Há quase seis anos, a polícia invadiu o apartamento de John Lawrence e prendeu-o por fazer sexo com outro homem. Ele se lembra dos policiais do condado de Harris o terem jogado no sofá, quebrando os pássaros de porcelana que ganhara de sua mãe. Lembra-se do caminho humilhante até a delegacia, de algemas e cuecas.

As sessões de fotografia, de retirada das digitais, o sanduíche que comeu na prisão, as calças que outro preso lhe emprestou para ir para casa, o motorista que o levou, apesar de não ter dinheiro.

Lembra-se também da ligação que fez para seu pai idoso, para contar-lhe o acontecido. "Eu estava um pouco preocupado. Não sabia como ia lidar com isso", lembra-se Lawrence, 60. "Então, liguei para meu pai e ele disse: 'Você vai encontrar um bom advogado'".

Faz quase um ano que a Suprema Corte dos EUA usou o caso de John Lawrence e Tyron Garner para eliminar leis contra sodomia do país, determinando por 6 votos a 3 que o governo não deve dar palpite em quem as pessoas levam para a cama.

Em entrevista exclusiva ao Houston Chronicle, na sexta-feira (23/04), a
primeira desde o início do caso, Lawrence e Garner disseram que estão orgulhosos por terem ajudado a derrubar uma lei injusta. Eles ficaram assombrados com o apoio que receberam e estão felizes com o fim do
processo.

"Senti-me justiçado, depois de ter sido maltratado pelo Estado do Texas", disse Lawrence, no escritório do advogado Mitchell Katine, com Garner. "Sinto-me vingado".

A determinação histórica, de junho do ano passado, mudou dramaticamente a forma que gays e lésbicas são tratados por lei. Também reforçou as diferenças no atual debate nacional sobre os direitos dos homossexuais, se devem ser iguais aos dos heterossexuais no que se refere ao emprego, moradia, serviço militar, casamento e adoção.

No ano passado, milhares de casais de gays e lésbicas, que já vinham lutando pelo direito de casar antes da decisão de "Lawrence", fizeram fila diante dos tribunais para tirar a licença.

Seus oponentes, entretanto, estão pressionando em contrário, em órgãos do governo, púlpitos, cortes, no Capitólio e na Casa Branca. O presidente Bush declarou que vai apoiar uma emenda constitucional que preservará o casamento como direito estritamente heterossexual. O senador John Cornyn, Republicano do Texas, a está formulando.

Analisando sua contribuição ao debate, Lawrence, técnico de medicina, disse não ter arrependimentos. "Faria tudo de novo? Sim", disse ele. "Quando alguém é injustiçado e não se defende, pode ser injustiçado novamente." Garner, 36, que vende churrascos na rua, concordou. "Valeu a pena", disse ele.

No dia 17 de setembro de 1998, Garner e seu namorado, Robert Royce Eubanks, estavam jantando e bebendo margaridas em um restaurante mexicano com seu amigo Lawrence. Os três tinham passado a tarde levando a nova mobília de Lawrence para seu apartamento e planejavam levar a mobília velha para o apartamento de Eubanks na manhã seguinte.

Entretanto, de volta ao apartamento depois do jantar, Eubanks e Garner brigaram. Eubanks disse que ia comprar refrigerante e saiu irritado. Em vez disso, foi a um telefone público e chamou a polícia, dizendo que tinha um homem armado no apartamento de Lawrence.

"Acho que ele estava com ciúmes", disse Garner.

A polícia encontrou a porta do apartamento aberta. Dois policiais entraram, seguidos de Eubanks e descobriram Lawrence e Garner fazendo sexo. Eles disseram não entender por que estavam sendo presos. Passaram a noite na cadeia.

"As acusações se fundamentaram na Lei de Conduta Homossexual do Texas, de 1973, a qual classificou o comportamento como má conduta de classe C. Mas eu não vou perdoá-lo", disse Lawrance na semana passada. "Eubanks nunca se desculpou", completou.

A única desculpa que Lawrence jamais recebeu foi da parte da deputada Sheila Jackson Lee, Democrata do Texas, que se aproximou dele e de Katine, no jantar em que estavam sendo homenageados.

"Ela disse: 'Sinto muito por você ter passado por tudo isso'", disse Lawrence. "Virei-me para Mitchell e disse: 'Essa é a primeira vez que ouço isso.'"

Após sua prisão em 1998, Lawrence e Garner voltaram para suas vidas. Mas Lawrence estava revoltado.

Quando Katine, sócio da firma de advocacia Williams, Birnberg & Andersen de Houston e o Fundo de Educação e Defesa Legal Lambda de Nova York ofereceram seus serviços de graça, ele decidiu lutar. Garner relutou, mas concordou.

"Não achava que íamos vencer", disse Garner. E apesar de seus amigos e familiares saberem que era gay, ele disse: "Não gostei de ser exposto na televisão. Foi degradante."

Eles apelaram à Corte Criminal do Condado de Harris e foram multados em US$ 200 (cerca de R$ 600) cada. Então, levaram o caso a um tribunal de recursos do Estado, ganharam e perderam novamente. Em 2002, quatro anos depois do início do caso, eles apelaram à mais alta corte do país.

Lawrence, que trabalha de noite, colocou o despertador para 9h do dia da deliberação. Ele ligou a CNN e ouviu o anúncio: "Pulei da cama e gritei: 'Obrigado, Deus!'", contou. O telefone começou a tocar com os parentes, colegas e amigos. Seu pai não viveu o suficiente para celebrar.

Katine, enquanto isso, soube da notícia por sua mãe, que ligou da Flórida. Ele avisou Garner. "Chamei meu irmão, e celebramos com champanhe", disse Garner.

À noite, centenas de pessoas reuniram-se em um comício na prefeitura. Katine, que passou anos protegendo seus clientes da mídia, apresentou-os à multidão. As pessoas fizeram fila para conhecê-los.

Hoje, Lawrence e Garner continuam amigos e namoram outras pessoas. Nenhum dos dois era ativista antes do caso e continuam não sendo. Eles não gostam de Bush. Ambos defendem o direito dos homossexuais de se casarem, mas não estão interessados nisso.

"Sou solteiro e adoro", disse Lawrence. Garner fica tocado com as pessoas que o reconhecem na rua, e Lawrence adora contar a história de dois seguranças enormes, que trabalhavam em uma boate gay, que se aproximaram dele e lhe deram um abraço.

Os dois riem da idéia de ganhar dinheiro com um livro ou da venda da história para a televisão e evitam comparações que alguns fizeram com Jane Roe e os direitos ao aborto e Rosa Parks, ícone de direitos civis.

"Realmente, não quero ser herói", disse Garner. "Mas quero dizer aos outros homossexuais: 'Sejam vocês mesmos e não tenham medo.'" Se os livros de história lembrarem-se deles, disse Lawrence: "Espero que nos lembrem como pessoas que defenderam seus direitos". Setença favorável à dupla pôs fim à legislação anti-gay dos Estados Unidos Deborah Weinberg

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