Congresso dos EUA quer proibir consumo de carne de cavalo

Judy Holland
Em Washington

Os aficionados do Kentucky Derby e outros fãs de cavalos estão reunindo apoio no Congresso para deter o abate de cavalos americanos para abastecer a culinária do Japão, Bélgica e França.

Os americanos têm um amor especial pelo animal que transportou os pioneiros para o oeste selvagem, os soldados nas batalhas e os jóqueis na história do turfe, e estão achando extremamente desagradável a idéia de filé de cavalo grelhado, "cheval tartar" e "sushi" eqüino.

Quando você observar um puro-sangue em disparada pela pista, lembre-se de que "o vencedor poderá virar uma iguaria para um francês", disse o deputado republicano John Sweeney, de Nova York, presidente do Comitê do Cavalo no Congresso, que reuniu 209 patrocinadores em um projeto de lei para proibir o abate ou a exportação de cavalos americanos para consumo humano.

"Nós consideramos os cavalos como atletas e artistas", disse Sweeney. "A psique americana está chocada com a idéia de tratar de modo tão desumano uma parte importante de nossa cultura."

O senador republicano John Ensign, de Nevada, que é veterinário, apresentou uma lei semelhante no Senado na semana passada. Ele chamou de "bárbaro" o abate para consumo humano de quase 50 mil dos 7 milhões de cavalos do país no ano passado.

Para atrair atenção para a questão eqüina, Sweeney e a atriz Bo Derek, um símbolo sexual americano que cavalgou para a fama no filme "Mulher Nota 10", percorreram os corredores do Capitólio na semana passada e pretendem fazer o mesmo esta semana. Outros legisladores que participam do lobby são o ator Tony Curtis e sua mulher, Jill, que fundaram uma fazenda- refúgio para cavalos em Las Vegas.

Derek, uma fã de cavalgadas, disse que ficou "chocada ao saber que os cavalos estão sendo abatidos não para países que passam fome, mas para refeições de gourmets". "Estamos dando a esses animais magníficos uma morte hedionda", disse Curtis. "Não teríamos descoberto a América sem os cavalos."

Soldados americanos e alguns civis comeram carne de cavalo durante a Segunda Guerra Mundial, quando a carne bovina era escassa, mas hoje virtualmente toda a carne eqüina americana é exportada para a Europa, principalmente para Bélgica, França e Suíça, além de Rússia e México.

Os Estados Unidos exportaram 11.940 toneladas de carne eqüina em 2001, representando US$ 41 milhões em vendas, segundo a Federação de Exportadores de Carne dos Estados Unidos. Cerca de 50 mil cavalos são abatidos para consumo por ano no país, segundo a Coalizão Nacional de Proteção aos Cavalos, que representa grupos do setor eqüestre, organizações humanitárias e veterinários.

Enquanto 20 anos atrás existia no país uma dúzia de abatedouros eqüinos, hoje há apenas dois no Texas: a empresa Dallas Crown, em Kaufman, e a Beltex Corp., em Fort Worth. Outra fábrica de carne de cavalo, a Cavel International, está sendo construída em DeKalb, Illinois, o que levou a questão para a Assembléia estadual.

O Texas proibiu o abate de cavalos para consumo humano em 1949, mas a lei nunca foi aplicada. Em 2002, o então secretário de Justiça do Estado, John Cornyn, hoje senador republicano, emitiu uma opinião dizendo que a lei de 1949 proibindo a venda, posse e transferência de carne eqüina para consumo humano continua vigente. O condado de Tarrant, no Texas, abriu um processo num tribunal federal para fechar os abatedouros.

John Linebarger, um advogado que representa os dois abatedouros do Texas, disse que muitos cavalos são abandonados e vendidos às fábricas por US$ 300 a US$ 400 em média. "Algumas pessoas deixariam esses animais morrerem nos campos e apodrecerem", disse Linebarger.

Ele acrescentou que a carne de cavalo é muito magra e tem menos colesterol e gordura que a de galinha, por isso muitos médicos japoneses e europeus a recomendam para seus pacientes. "Os cavalos não são criados como item alimentar, por isso não são cheios de hormônios e substâncias químicas", disse Linebarger.

Oliver Kemseke, um belga que possui o Dallas Crown há dez anos, comenta que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos fiscaliza sua fábrica para garantir que os cavalos sejam tratados de forma humana. Ele disse que a repulsa americana contra a carne eqüina é apenas um choque cultural. "Acontece que na Europa temos mais uma opção nos supermercados", ele disse.

A Associação Nacional de Abatedouros de Gado, que representa cerca de 30 mil criadores, é contrária à proibição da carne de cavalo, dizendo que prejudicaria os pecuaristas, deixando para eles o custo de cuidar de animais indesejados. "O que um criador vai fazer quando chegar a hora de vender seus cavalos?", disse Bryan Dierlam, diretor-jurídico da associação.

A Associação Médica Veterinária Americana também se opõe à lei porque não tem verbas para cuidar dos cavalos indesejados, que de outro modo seriam abatidos. Gail Golab, uma veterinária e porta-voz da associação, disse que o alimento e a água para um cavalo custam cerca de US$ 5 por dia. "Isso não tem a ver com o consumo de carne de cavalo - tem a ver com o bem-estar do animal", disse Golab.

Mas Chris Heyde, diretor-executivo da Coalizão Nacional de Proteção aos Cavalos, disse que há muitas alternativas preferíveis para os animais, como dá-los para refúgios eqüinos, escolas de equitação e programas de terapia ou até para a eutanásia.

Os defensores do cavalo entraram em ação depois que Ferdinand, o campeão do Kentucky Derby de 1986, foi enviado para o Japão para servir como reprodutor, mas acabou sendo abatido para alimentação quando se mostrou um garanhão inadequado e seus filhos não venceram provas.

Howard Keck Jr., de Los Angeles, cujo pai foi proprietário e criador de Ferdinand, disse que tentou recomprar o cavalo dos japoneses para colocá-lo em um pasto, mas descobriu que havia sido abatido para alimentação.

"Fiquei chocado porque neste país nossa cultura é diferente, damos grande valor a esses tesouros aposentados", disse Keck em entrevista por telefone. Depois disso ele trouxe de volta duas filhas de Ferdinand.

A notícia da morte de Ferdinand provocou investigações no setor de abate de cavalos, disse o deputado republicano Edward Whitfield, do Kentucky, um pioneiro nessa legislação. Whitfield disse que cavalos, éguas e potros estão sendo transportados em condições inadequadas, sem descanso ou água durante 28 horas, o tempo máximo permitido pela lei federal. Os cavalos não deveriam viajar dessa maneira mais que seis ou sete horas, segundo ele.

"Estão chegando nas fábricas seriamente feridos e às vezes mortos", disse Whitfield. "O processo é muito cruel, especialmente quando você considera que o cavalo nunca participou da cadeia alimentar nos Estados Unidos."

A Califórnia aprovou em 1998 um projeto proibindo o abate de cavalos para consumo humano. A atividade é legal em Arizona, Flórida, Geórgia, Minnesota, Nova Jersey, Ohio e Virgínia. Razões culturais são apontadas para justificar veto ao consumo e à exportação Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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