"Não assisti a nenhum episódio de 'Friends' e não me arrependo"

Harry Rosenfeld

A cultura americana perderá uma de suas atrações mais populares quando o episódio final de "Friends" for exibido nas telas de TV na quinta-feira (06/05).

Eu estou me sentindo privado, mas não da forma que os múltiplos milhões de fãs que tornaram a série um dos maiores sucessos de audiência e financeiros se sentirão.

Em vez disso, meu sentimento de perda vem da percepção de que novamente um fenômeno da vida contemporânea, que teve impacto sobre o país, veio e foi sem que eu o compartilhasse. Eu não assisti a nenhum episódio do começo até o fim.

Ao longo dos anos, eu vi trechos em casa enquanto zapeava pelos canais em busca de algo que valesse a pena. "Friends" não se enquadrava.

O máximo que assisti foi quando me tornei parte de uma audiência cativa na academia de ginástica, onde as reprises passavam em três monitores de TV. Caminhando determinadamente na esteira, desesperado por distração, eu vi demais de muito pouco.

O que me afastou rapidamente não foi o desdém pela geração, mas o uso incessante de claques gravadas que contrastavam demais e realçavam a banalidade e insipidez do diálogo, ao mesmo tempo que expunha a pobre variedade de emoções que os roteiros exigiam dos seis jovens atores.

Isto demonstra o quão pouco eu sei. Eu li nos jornais que cada um recebia um milhão de dólares -não por ano, nem mesmo por mês, mas por cada episódio.

Não é a primeira vez que perco algo pelo que muitos outros se interessam. Eu me lembro de um concerto há 15 anos ou mais, de um sujeito de sobrenome Manilow, diante de um público extremamente entusiasmado. Minha esposa, com quem passei tantos anos em um relacionamento estreito e amigável, surpreendentemente passou a cantar as letras juntamente com outros membros da platéia.

Eu perguntei como ela conhecia as letras, onde e quando ela poderia tê-las aprendido. Ela respondeu que nossas três filhas eram grandes fãs de Manilow e tocavam suas músicas o tempo todo. Onde eu estava quando isto ocorreu? Em outro lugar, é claro, provavelmente nos "campos" de escravos remunerados das redações, escalando o pau-de-sebo da carreira enquanto tentava ganhar uma vida capaz de fornecer tais extras como gravações de artistas que nunca conheceria.

Eu não alego que isto seja necessariamente um álibi válido para tudo, apenas uma explicação. E já que estou reclamando, eu não deixarei de lado o impacto do telefone celular sobre a vida contemporânea. Não há dúvida que os celulares e os telefones sem fio aumentaram amplamente a mobilidade em casa e fora dela. Nós podemos entrar em contato com alguém onde quer que estejamos, independente do que estivermos fazendo.

Na minha infância, quando nem celulares nem telefones sem fio existiam, eu lembro da minha mãe falando diariamente pelo que pareciam horas intermináveis com suas amigas. As mulheres sem dúvida são muito superiores em comunicação; nós todos sabemos disto.

Agora a tecnologia deu novo poder e ampliou a arte. Tanto que encontro a mesma esposa da referência anterior ao telefone, o tempo todo. Ela freqüentemente está discursando longamente com amigas que verá pessoalmente em poucos instantes, me levando a perguntar sobre o que conversarão quando se encontrarem.

Assim, me vi forçado a falar com ela enquanto ela estava ao telefone, para seu desagrado. Eu não o fiz por ser rude, mas por necessidade, sendo obrigado a interromper antes do pôr-do-sol. Eu fui instruído a nunca fazer isto novamente. Eu fiquei amarrado, até me lembrar do quanto minha esposa gosta da função de ligação em espera de nosso telefone móvel.

Ela nunca deixa de responder uma nova chamada adicional, evidentemente adorando apertar botões em meio a duas conversas. Minha solução era óbvia. Eu simplesmente telefonei para ela no celular, seguro de que ela responderia alegremente minha chamada. Ah, o progresso é maravilhoso. Só lamento não compartilhar euforia coletiva que o final da série traz, diz articulista George El Khouri Andolfato

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