Michael Moore segue trilha de Mel Gibson

Greg Hernandez e Valerie Kuklenski
Los Angeles Daily News
Em Burbank (Califórnia)

O documentário de Michael Moore "Fahrenheit 9/11" ainda não estreou, mas já está gerando controvérsia -e grande quantidade de publicidade gratuita, como aconteceu com "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson.

A Walt Disney Co. proibiu sua subsidiária Miramax Filmes de distribuir "Fahrenheit", alegando que era um filme muito partidarista em um ano de eleição. Aparentemente, o filme faz duras críticas à forma como o presidente George W. Bush lidou com os ataques terroristas de Nova York e Washington, em 2001.

Moore diz que a Disney e o diretor executivo Michael D. Eisner rejeitaram o filme para não colocar em risco os alívios fiscais que a empresa recebe em seus parques temáticos na Flórida, onde o irmão do presidente, Jeb Bush, é governador. Eisner chamou as alegações de Moore de ridículas e de "truque de propaganda". Bush também negou as acusações.

Especialistas da indústria de cinema acreditam que a confusão serve de marketing gratuito para o filme, enquanto é um golpe nas relações públicas da Disney.

"Acredito firmemente que, quanto maior a controvérsia e a atenção da mídia ao filme, mais o público vai querer vê-lo. Apesar de serem filmes diferentes, há similaridades com relação à 'Paixão de Cristo': é outro filme com assunto controverso e de um diretor de qualidade, que já agradou antes", disse o especialista em bilheterias Gitesh Pandya, editor de do site BoxOfficeGuru.com.

Um especialista sugeriu que a decisão da Disney era mais por aparência do que por princípio. "Se a Miramax, que atualmente tem o direito sobre o filme, o revender, ainda lucrará com a distribuição, só que não tanto", disse ele. "Então, se a preocupação da Disney era de fazer dinheiro com o filme, vai fazer de qualquer forma."

A empresa provavelmente terá retorno considerável sobre seu investimento, ou seja, grande parte do orçamento de US$ 6 milhões (em torno de R$ 18 milhões) do documentário.

Mas o conselho da Disney rejeitou o filme na semana passada, com base em sua premissa e na fama de Moore de indiscreto provocador político e social.

Executivos da Disney não quiseram comentar a decisão do conselho. Uma pessoa inteirada do assunto disse, na sexta-feira, que Eisner não quis ver o filme, que foi vendido no exterior apenas pela sinopse.

Bob e Harvey Weinstein, diretores da Miramax, têm o direito de recorrer a um arbitrador, mas a fonte não acha que o farão.

A Disney indicou durante o último ano que não queria que a Miramax distribuísse o filme. Uma cláusula em seu acordo com a Miramax permite que a Disney proíba a distribuição de um filme que não seja de seu "melhor interesse".

"Em maio de 2003, a Walt Disney Company comunicou à Miramax e aos representantes do Sr. Moore que não ia permitir a distribuição do filme. Contrariamente as suas afirmativas, o Sr. Moore teve e continua a ter todas as oportunidades para encontrar outro distribuidor ou distribuir o filme ele mesmo", disse a porta-voz da Disney, Zenia Mucha, na semana passada.

"A Paixão de Cristo" enfrentou problema similar de distribuição. Nenhum dos grandes estúdios quis distribuir o filme, por causa de sua retórica política e religiosa.

A Newmarket Films, que lançou "A Paixão" em fevereiro, foi esperta. O filme deve ultrapassar a marca de US$ 370 milhões (em torno de R$ 1,1 bilhão) em arrecadação neste final de semana.

Acredita-se que uma empresa como a Newmarket ou a Lion's Gate Films -que não são afiliadas a grandes estúdios- comprará os direitos de "Fahrenheit", apesar de nenhum acordo ter sido anunciado até o final da última sexta-feira (07/05).

"Estamos considerando nossas opções e buscando o melhor distribuidor para o filme", disse Matthew Hiltzik, vice-presidente de comunicações da Miramax.

Miramax e Moore esperam que "Fahrenheit 9/11" esteja nos cinemas até o início de julho e pronto para lançamento em DVD antes das eleições presidenciais de 2 de novembro. O filme estreará no festival de Cannes nesta semana.

"O documentário será visto. Só não vai ser distribuído pela Disney ou suas empresas", disse o especialista em bilheterias Paul Dergarabedian, presidente da Exhibitor Relations Co.

O analista da mídia David Joyce disse que duas coisas são certas sobre a controvérsia de "Fahrenheit": "É má propaganda para a Disney e boa para Michael Moore e seu filme". É também mais um desastre de relações públicas para a Disney, depois de alguns tumultos recentes: houve a tentativa de aquisição à revelia, pela Comcast Corp; houve a revolta de acionistas que resultou na destituição de Eisner como diretor do conselho; houve a demissão dos dois principais executivos da ABC, rede de televisão da Disney. Isso tudo sem contar uma série de fracassos de bilheteria, inclusive o caro "O Álamo", "Nem que a Vaca Tussa" e "Mar de Fogo".

"A Disney está realmente apanhando de todas as direções, e esse episódio é como sal nas feridas", disse Joyce, analista da Guzman and Company, de Miami.

Moore não esconde seu desdém pelas políticas de Bush em seus livros campeões de vendas "Uma Nação de Idiotas" e "Cara, Cadê o Meu País?". Seu discurso, quando recebeu o Oscar de melhor documentário em 2002 por "Tiros em Columbine", também foi contra Bush e atraiu aplausos e vaias do público no teatro Kodak.

Moore não respondeu aos pedidos por uma entrevista. Na semana passada, ele apareceu no programa da Rádio Pública Nacional "All Things Considered". Quando alegaram que divulgar a questão de distribuição logo antes de o filme competir em Cannes poderia ser um truque de publicidade, ele respondeu: "Vocês me ligaram. Eu não liguei para vocês". Documentário "Fahreinheit 9/11" é assunto antes de estrear, como "A Paixão de Cristo" Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos