Parceiro promíscuo aumenta incidência de HIV em negras

James T. Campbell
Em Houston (Texas)

Eles têm esposas, namoradas, filhos e netos. São pais, avôs, irmãos e tios. São heterossexuais, ou dizem ser. Mas têm sexo com homens e podem criar vítimas.

Eles chamam isso de estar "down low", um eufemismo usado para identificar homens negros que têm sexo com homens, mas não se consideram homossexuais ou bissexuais. Eu chamo esse comportamento de alarmantemente irresponsável. Os praticantes do "DL" dizem que é um mecanismo protetor para protegê-los do desdém da sociedade. Eu digo que é fatalmente enganoso e tem uma lista crescente de vítimas.

Para o homem, a prática não tem a ver com amor, relacionamentos ou se sentir à vontade em um mundo ou em outro. É apenas um prazer hedonista. O sujeito é heterossexual 23 horas por dia, mas sai de seu armário confortável na 24ª hora e busca as sombras de banheiros, carros, livrarias, casas de banho, parques e, segundo um ativista de Aids em Houston, um cemitério local. Para eles, isso não é promiscuidade; é a vida.

Esse tipo de comportamento tem um preço alto: o rápido aumento de índices de infecção por HIV entre mulheres negras e as conseqüentes implicações de saúde pública.

Considere que 61% de todas as novas infecções por HIV em Houston ocorrem na comunidade negra. Mulheres negras representam quase 75% das infecções femininas por HIV no condado de Houston-Harris. E quase metade -43%- de todas as mulheres com HIV em Houston são heterossexuais e negras. Essas estatísticas cruéis refletem o que acontece nas outras cidades.

Até recentemente, os praticantes de DL eram um assunto escondido na comunidade negra. As mulheres começaram a comentar sobre esse fenômeno depois que o escritor E. Lynn Harris expôs o assunto em seu livro independente de 1999, "Invisible Life" (vida invisível). Depois, a Oprah dedicou um programa à questão e tornou a prática um assunto de conversa nacional.

Talvez isso faça disparar o alarme necessário para tirar a comunidade heterossexual negra, particularmente as mulheres, de sua indiferença infantil e perigosa ao HIV.

O programa da Oprah apresentou uma discussão cândida com J. L. King, que se disse um DL. Possivelmente criou espanto entre os brancos e temor entre as mulheres negras, que ficaram se perguntando se o jogo de pôquer de seus maridos era uma artimanha usada para terem a liberdade para um caso perigoso.

King escreveu um novo livro excitante "On The Down Low: A Journey Into the Lives of Straight Black Men Who Sleep with Men" ('down low': uma viagem pelas vidas de homens negros heterossexuais que dormem com homens). Por 25 anos, King levou uma vida dupla. Oito deles, com mulher e filhos. Ele veio a público depois de perceber um aumento nas taxas de infecção por HIV entre as mulheres negras.

Apesar de King ter exposto o comportamento DL, mulheres negras como Dena Gray são vítimas inconscientes de seus irmãos enrustidos. Gray, mulher atraente e inteligente com um estilo franco, namorou três homens HIV positivos entre 1989 e 1991. Só que eles não a informaram desse importante detalhe.

Seu exame de sangue em 1991 confirmou que um dos homens a havia infectado. Dois já morreram, e o que ainda vive jura que se infectou por sexo heterossexual. Os três já tinham cumprido pena na prisão e tinham histórico de uso de drogas.

Gray, mãe de uma menina de 8 anos, HIV negativa, trabalha no escritório de Ada Edwards, da Assembléia Legislativa de Houston, como educadora em Aids. Apesar de ter sido possivelmente infectada por um homem "DL", Gray não gosta do termo e acredita que existem razões mais complexas para o aumento das infecções de HIV entre mulheres negras.

"Quando você diz 'DL' acho que limita a exploração do que verdadeiramente está acontecendo nas vidas de muitas dessas pessoas", explicou. "Você tem que contar os homens que contraíram a doença por uso de drogas e os que foram presos (e contraíram o vírus)."

No fim, disse Gray, são as mulheres negras que precisam de força e educação para evitar o HIV e assim diminuir os índices de infecção entre suas irmãs.

"Queremos colocar toda a responsabilidade nos homens, mas dessa forma não levamos informações a todos que estão no relacionamento sexual, inclusive as mulheres. Temos que nos perguntar qual é a dinâmica que nos leva a essa escolha (pelo sexo não protegido)", disse Gray.

"O que acontece que nos impede de falar clara e abertamente aos nossos parceiros sobre nosso relacionamento sexual? Por que não nos sentimos à vontade para falar de HIV ou de doenças sexualmente transmissíveis ou sobre a possibilidade de gravidez ou algo assim? Será que estamos em uma situação em que precisamos de dinheiro ou apoio, e o sexo se torna um pagamento por isso?"

Tudo isso é verdade. Mas como as mulheres podem, de fato, se armar contra o HIV, se seus próprios maridos e namorados -homens com quem compartilham sua vida mais íntima- conscientemente as colocam em risco por meio de uma desonestidade sexual fundamental? Homens que fazem sexo inseguro entre si e transmitem vírus a mulheres e namoradas Deborah Weinberg

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