Após fusão com Disney, rede ABC cai em decadência

Alessandra Stanley

A maldição de Tutankamon é fácil de identificar. Assim como o mau-olhado que paira sobre os Red Sox em outubro. É difícil localizar exatamente quando a ABC se tornou uma rede amaldiçoada - há muitos fracassos para se escolher.

Nos últimos três anos a ABC vem perdendo centenas de milhões de dólares por ano, e nesta temporada a rede mais uma vez deixou de encontrar um grande sucesso para reverter seu declínio. Isso levou a Walt Disney Co. a substituir o presidente da divisão de entretenimento, Lloyd Braun, e sua diretora, Susan Lyne, elevando para 13 o número de altos executivos que entraram e saíram nos últimos sete anos.

Esse remanejamento ocorreu exatamente quando a ABC estava se preparando para apresentar aos anunciantes sua nova temporada de outono, em 18 de maio. E a Disney ficou encurralada mais uma vez na semana passada, ao se recusar a distribuir "Fahrenheit 11/9", um documentário do premiado cineasta Michael Moore, que seria extremamente crítico a George W. Bush.

Todos os passos em falso parecem levar ao Reino Mágico e ao estilo de microadministração de seu líder, Michael D. Eisner. E os camundongos estão ficando impacientes: em março, investidores descontentes obrigaram o conselho da Disney a destituir Eisner da presidência. Ele teve uma folga no mês passado quando a Comcast Corp., maior operadora de cabo do país, desistiu de sua proposta de aquisição por US$ 54,1 bilhões, mas Eisner continua enfrentando uma rebelião de acionistas e a malícia de seus colegas no mundo da mídia e do entretenimento.

A nuvem negra sobre a ABC começou a surgir por volta de 2000. "Who Wants to Be a Millionaire" ("quem quer virar milionário" - programa que inspirou Sílvio Santos a fazer o "Show do Milhão") havia aparecido no ano anterior como o primeiro grande sucesso da rede em muito tempo.

Mas, em vez de desenvolver outros programas que aproveitassem esse momento, os executivos da Disney insistiram em simplesmente transmitir "Millionaire" quatro noites por semana. O plano rapidamente fez o programa despencar.

Nos bastidores, os problemas de programação da rede haviam começado muito antes. Os chefes da ABC recusaram "Survivor" três vezes, mesmo que na terceira tenha sido oferecido à rede por sua companhia irmã no império Disney, Touchstone Productions. O programa se tornou um mega-sucesso numa rede concorrente, a CBS.

Mas o erro fatal - a primeira rachadura na porta da cripta, a venda de Babe Ruth - foi certamente o momento em que a ABC atraiu Jamie Tarses da NBC. Foi um momento de pânico e arrogância: a ABC continuava se mantendo com programas simples para a classe trabalhadora como "Home Improvement", "Roseanne" e "NYPD Blue". Mas a rede NBC tinha sucessos jovens e modernos como "Mad About You" e "Friends", que foram desenvolvidos pelo jovem e moderno Tarses.

Isso trouxe uma grande audiência e a aclamação da crítica para a NBC. Orientada por Eisner e o novo presidente da Disney, Michael Ovitz, a ABC decidiu mudar de imagem. Mas não foi apenas uma reforma; foi mais como um roubo de identidade no estilo "Mulher Solteira Procura".

Estranhamente, talvez, numa era em que os "nichos" nos canais a cabo e de satélite são contados às centenas, as principais redes abertas ainda têm identidades diferentes. Geralmente elas refletem seus executivos mais influentes. A NBC, lar de "Friends" e "Frasier", ainda é a mesma rede que Brandon Tartikoff moldou no início dos anos 80 com programas urbanos como "Cheers", "Family Ties" e "Miami Vice".

Em seu cerne, a ABC ainda é a rede de Aaron Spelling, empresário cujos sucessos, como "As Panteras", "Dinastia" e "Barco do Amor", tinham um glamour e uma sofisticação de história em quadrinhos. A CBS foi e é a rede mais salutar - rotariana.

A Fox é Bart Simpson, com seu sucesso cru e divertido. A elegante e sofisticada NBC é uma divulgadora de filmes. E apesar de toda a cirurgia plástica dos últimos anos a America's Broadcast Network, como se chama hoje, continua sendo uma garçonete de festa. (As redes têm até tipos físicos: a NBC é obviamente uma morena de pernas compridas; a ABC, uma loura tingida.)

Desde os dias de glória de Spelling, uma simplicidade bem-intencionada percorre os programas mais notáveis da rede. "Roseanne" era mais cáustico e político que a maioria dos seriados da ABC, mas tinha a vulgaridade subjacente da rede. (Roseanne Barr e seus redatores eram assumida e alegremente vulgares e de classe baixa, enquanto "Melrose Place" ou "Ilha da Fantasia" eram isso e mais ingênuos.) Ainda hoje, "The Bachelor" e "Extreme Make-Over" - os raros sucessos na linhagem da ABC- são fusões spellingnescas de fantasia e glamour barato.

Com Tarses, porém, a ABC se vestiu de sofisticação urbana. Em três anos tumultuosos, ela conseguiu alguns programas de sucesso, incluindo "The Practice" e "Dharma and Greg", mas houve muito mais fracassos, desde "It's Like, You Know", um seriado parecido com "Friends" passado em Los Angeles, até "Madigan Men", uma série cômica sobre um pai solteiro irlandês e seu filho adolescente, estrelada por Gabriel Byrne.

Apesar do esforço para parecer moderna, a ABC ficou atrás da NBC e da Fox na classificação dos espectadores jovens adultos. Desde 1996, a ABC desenvolveu mais de cem programas; a maioria fracassou tristemente e nenhum se transformou em um mega-sucesso como "CSI - Crime Scene Investigation", série policial que se tornou o programa mais visto dos EUA desde 2003. "CSI" é da CBS.

No caminho houve alguns tropeços muito públicos e deliciosamente embaraçosos. Em 1997, a ABC revelou uma reformulação de US$ 40 milhões: um novo esquema de cores - amarelo - e uma campanha publicitária de US$ 40 milhões de auto-ódio ("Você poderia estar lendo uma revista, escutando uma sinfonia, visitando um museu ou mesmo fazendo ginástica. Mas não está. Você está assistindo TV" e "Você pode falar com sua mulher quando quiser".)

Três anos atrás, Braun e Lyne tentaram desviar a rede da tendência NBC para suas raízes naturais, tingidas. A rede chegou a reviver o velho logotipo "TGIF" [Thank God It's Friday - Graças a Deus é sexta-feira] para as noites de sexta. "Hope and Faith", o seriado estrelado por Kelly Ripa como um astro de novela desempregado e sua irmã suburbana muito chata, tem alguns dos principais elementos da ABC: louras sexy e humor primário. Mas não se saiu tão bem quanto os programas menos elaborados da rede, como"According to Jim" e "My Wife and Kids" (no ar no Brasil no canal pago Sony).

A ABC também tem "Less Than Perfect", estrelado por Sara Rue como a gordinha simpática secretária de um âncora de rede narcisista (Eric Roberts). É bastante engraçado, mas parece errado na ABC - nada é mais herético para a spellingnidade do que a auto-ironia. Seu esforço para ser sofisticado faz "Less Than Perfect" parecer ainda mais decrépito, uma versão pálida de seriados de jornalistas como "Anything but Love", que era estrelado por Jamie Lee Curtis e Richard Lewis, ou o programa de Brooke Shields, "Suddenly Susan".

A ABC sempre foi mais aventureira no que se refere a dramas, desde "NYPD Blue" (Nova York Contra o Crime), que continua no ar mas precisando muito de uma aposentadoria, até "The Practice" (O Desafio) - ambas no ar no Brasil pela Fox.

Este último, porém, não é um reflexo da ABC; é totalmente a personalidade de seu criador, David E. Kelley, que apesar de alguns fracassos recentes continua em posição de ignorar os conselhos e os bilhetes dos executivos da rede.

No caso dele, pelo menos, é uma pena. A frugalidade da ABC obrigou Kelley a demitir metade do elenco original para cortar gastos; ele trouxe James Spader como o brilhante e sedutoramente vulgar Alan Shore e tornou o programa duas vezes melhor.

Mas nos últimos episódios Kelley acrescentou uma subtrama de briga envolvendo Rebecca de Mornay e Alan Shore - basicamente transformando "The Practice" em um "Ally McBeal" sem gracinhas. Uma nova versão do programa, estrelada por Spader e William Shatner (também um acréscimo de final de temporada), provavelmente estará na programação de outono.

Robert A. Iger, o presidente da Disney, foi criticado por especialistas da indústria por microadministração e intromissão, mas no caso de "The Practice" ele exercitou muito mais sua contenção.

De modo geral, os sucessos modestos que a ABC conquistou, com seriados pouco imaginativos como "According to Jim" e "My Wife and Kids" ou com seus programas-realidade spellingnescos, foram atropelados por fenômenos em outras redes como "American Idol", na Fox, e "The Apprentice", da NBC. A ABC não conseguiu acertar o tipo de grande sucesso que poderia mudar seu rumo - até a audiência de "The Bachelor" despencou. A rede continua em sólido quarto lugar, atrás da Fox.

A má sorte - ou destino - teve sua parte. "8 Simple Rules" era um programa clássico para a ABC: uma recriação da fórmula "Three's Company" - duas garotas e um sujeito atrapalhado morando juntos -, remodelada para o retorno da ABC à programação no horário familiar com um pai (John Ritter) e duas filhas. Foi muito bem até que seu astro morreu em setembro. O programa voltou depois de uma pausa respeitosa, mas nunca recuperou o pique.

Mais que má sorte, porém, a ABC tem demonstrado uma incrível capacidade para tomar más decisões. Cada rede tem exceções notáveis em sua personalidade: a NBC tem "Fear Factor", um programa que certamente pertence à Fox. A CBS, apesar de toda a dignidade madura, tem "Big Brother", um programa que caberia melhor na MTV.

De modo semelhante, a ABC convenceu Jon Stewart a deixar "Comedy Central" no ano passado e tornar-se o anfitrião de seu recém-criado programa de entrevistas "12:05"; no último minuto, os executivos da rede mudaram de idéia e pegaram Jimmy Kimmel, cujo humor amplo e alegremente não intelectual se encaixa mais naturalmente na ABC. Mas Jon Stewart é o comediante que qualquer rede adoraria ter.

Nesta temporada a ABC também apostou fortemente em "Kingdom Hospital", de Stephen King. Mas essa série de terror de fraca audiência só assustou os acionistas da Disney.

Depois há "The Apprentice". O produtor do programa, Mark Burnett, foi primeiro à ABC com uma proposta para criar um programa-realidade ao redor da personalidade de Donald Trump. A ABC, que parece ter de confirmar cada decisão com os chefões na Disney, hesitou, protelou e perdeu o programa para a NBC, onde ele veio a ser um dos espetáculos de maior audiência do ano.

O erro é ainda mais surpreendente porque "The Apprentice" se encaixaria naturalmente no perfil da ABC. Donald Trump é spellingnesco, para dizer o mínimo, e a escolha dos concorrentes muito boa - quase todas as mulheres eram improvavelmente belas e à vontade em saias muito curtas.

Hoje a divisão de entretenimento está nas mãos de Stephen McPherson, que já chefiou o estúdio de televisão Touchstone, também de propriedade da Disney, e Anne Sweeney, que foi chefe da divisão de cabo da ABC. McPherson e Sweeney estão ocupados revendo a lista de pilotos da ABC, tentando escolher programas que possam restaurar a fé abalada dos anunciantes.

"Wife Swap", cópia de um programa-realidade britânico em que famílias em lados opostos da escala econômica trocam de mães, é uma das opções-realidade mais promissoras da rede. A ABC não se mostrou muito adepta em dar humor a seus programas-realidade ("Extreme Makeover" é ainda mais sentimental que "Queen for a Day"), mas a vulgaridade - e a tensão de classes - podem parecer muito familiares para os espectadores.

Outro programa-realidade que está marcado para ir ao ar neste verão é um derivado de "Apprentice" intitulado provisoriamente "The Benefactor". Mark Cuban, dono do time de basquete Dallas Mavericks, deverá pagar US$ 1 milhão de seu próprio bolso ao vencedor de uma competição que o próprio Cuban pretende organizar. Esse tipo de programação copiada cheira a desespero, e não a Aaron Spelling.

A ABC também está considerando "Lost", um drama feito por J.J. Abrams, criador de "Alias", em que sobreviventes de um acidente de avião formam uma nova sociedade numa ilha deserta e vivem aventuras no estilo "Arquivo X". Isso pode funcionar, assim como "Desperate Housewives", uma comédia sobre sexo em um bairro suburbano.

Talvez a medida mais estranha da ABC seja sua decisão de assinar um contrato com a Pepsi em setembro para mais uma prestação de "Play for a Billion", um programa-jogo que esteve na WB no ano passado com o antigo astro da ABC, Drew Carey, como anfitrião, e que teve no máximo classificações médias.

A ABC decidiu elencar Damon Wayans, o astro de "My Wife and Kids", como o anfitrião do programa e parece sentir que os laços entre a Pepsi e seus principais seriados compensam a humilhação de pegar os restos da WB.

A ABC sempre parece um passo atrás do gosto popular. No mês passado, "Nick & Jessica Variety Hour", um especial do tipo Sonny e Cher estrelado pelo casal em lua-de-mel da MTV Jessica Simpson e Nick Lachey, foi um derivado de um esquete de "Saturday Night Live" na NBC.

Ele teve uma audiência apenas respeitável, mas a ABC ficou tão grata aos jovens espectadores que está planejando uma série cômica em que Simpson faz Jessica Sampson, uma excêntrica telejornalista, assim como um especial de Natal estrelado por Simpson e Lachey. (A menos que este ano o Natal aconteça em julho, os dois terão desgastado sua boa recepção muito antes do fim do ano.)

A ABC recuperou sua identidade, mas não a antiga coragem: a confiança ousada que mostrava nos anos 70 com programas como "Happy Days" e "Mod Squad", ou a ousadia que nos anos 80 trouxe "Dinastia" e "Who's the Boss?" Antes que alguém tenha uma chance de recapturar aquela antiga glória, porém, a ABC precisa se livrar da maldição. E isso poderá exigir rituais como a demissão de executivos até o topo da cadeia de comando da Disney. Emissora perde o posto de terceira maior dos EUA e não é capaz de produzir sucessos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos