Mamãe e papai, vocês são tão legais!

Anna Bahney

Amy Goldstein recebeu os membros de seu clube literário com cumprimentos calorosos à porta de sua casa em Greenwich, Connecticut, numa manhã de domingo. Beliscando bolachas com salada de pepino, as dez mulheres discutiram "The Namesake", de Jhumpa Lahiri, com a camaradagem e os acessos de riso típicos de uma irmandade universitária.

Mas a metade dessas mulheres ainda está no colégio. A outra metade são suas mães. Nos últimos seis anos as adolescentes e mães se reúnem mensalmente para discutir livros, educação de filhos e amadurecimento.

Enquanto nenhuma das meninas usa na escola uma camiseta "Clube Literário Mães e Filhas", Amy, 15, disse que o grupo é algo que ela ralmente aprecia. Ela admira a abertura, a inteligência e o humor de sua mãe, Ellen Keats. Digamos que Amy acha sua mãe "legal". "Dou o maior valor para as opiniões dela", disse Amy. "Muitas opiniões da minha mãe eu percebo que também são as minhas."

Amy não é a única adolescente do grupo que é fã da mãe. O pedido de Jessica Ortwein para seu 16º aniversário foi passar um dia num spa com a mãe. Elizabeth Brody, 16, gosta de ir a shows de artistas como Paul McCartney e Simon & Garfunkel com sua mãe, e é ela quem está ressuscitando Joni Mitchell para escutar no carro.

Molly Novatt, 15, e sua irmã Sarah, 17, se juntam à mãe, Priscilla Natkins, para ver televisão nas noites de segunda-feira e assistir ao drama adolescente "Everwood". As duas e a mãe compartilham algumas roupas, como uma saia preta Theory. Lianna Lipton, 15, falou por todas as adolescentes: "Acho muito mais bacana ser amiga da mãe".

Esses são os filhos de Stepford, ou são o motivo mais forte para se tirar do vocabulário o termo "rebeldia adolescente"? Onde está a rebeldia?

A travessia da adolescência nem sempre é cor-de-rosa para essas mães e filhas, mas há um espírito adolescente positivo em suas vidas que não se parece em nada com o desafeto da Geração X.

E, ao contrário do abismo que separava os pais da geração "baby boom" de seus pais, os gostos desses adolescentes por roupas, música e muitas opiniões políticas e sociais combinam perfeitamente com os de seus pais. Eles fazem parte de uma geração de 9 a 19 anos que tem papai e mamãe como modelos.

"Na história das pesquisas, nunca vimos jovens e adolescentes se entenderem tanto com os pais", disse William Strauss, autor com Neil Howe de "Millennials Rising: The Next Great Generation" (Vintage, 2000) [A Ascensão dos Milenares: A Próxima Grande Geração], sobre os que nasceram depois de 1982. "A geração 'baby boom' é uma turma terrível", acrescentou Strauss, "e há muitas coisas que eles não fazem bem, mas poderíamos dizer que fizeram um bom trabalho com seus filhos."

Strauss, 57, não ficou totalmente surpreso quando sua filha Victoria, depois de se formar na Universidade James Madison no ano passado, anunciou que queria entrar para o negócio da família. Strauss escreve livros e ajuda a dirigir o grupo de comédia Capitol Steps. "Tenho uma pequena e estranha indústria aqui", ele disse. Hoje com 23 anos, Victoria voltou para casa num subúrbio de Washington e trabalha com Strauss em vários projetos.

Estudos mostraram que o relacionamento dos adolescentes com seus pais melhorou constantemente desde o início dos anos 70. Em 1983, cerca de 75% dos adolescentes diziam que "não tinham problemas sérios" com os pais, contra cerca de 50% em 1974, segundo a pesquisa Mentalidade da Juventude Americana realizada pela Associação Nacional de Diretores de Escola Secundária e a Associação Horatio Alger de Americanos Ilustres, um grupo educacional. Em 1996, a pesquisa revelou que 94% dos adolescentes estavam "muito contentes" ou "razoavelmente contentes" com suas mães, e 81% estavam contentes com seus pais.

Em 1997 o estudo sobre mentalidade tornou-se a pesquisa Situação da Juventude em Nosso País, realizada anualmente. Os últimos dados sugerem que a admiração dos filhos pelos pais, embora medida diferentemente, continua muito alta. Quando estudantes de 13 a 19 anos foram solicitados no ano passado a indicar seu modelo, a maior parte - 44% - escolheu um membro da família (predominantemente a mãe ou o pai), contra 42% em 2002. A porcentagem de adolescentes que admiravam mais um amigo ou uma celebridade decaiu.

Os adolescentes "estão em busca de estrutura e segurança - você não pode confiar no governo, na religião, nas empresas - e eles querem alguém para seguir", disse Jane Buckingham, presidente da Youth Intelligence, uma empresa de consultoria e pesquisa de mercado. "Enquanto antes era 'rebele-se contra seus pais', porque todo mundo sabia as regras e os regulamentos, hoje é 'confie nos seus pais', porque ninguém sabe quais são as regras e os regulamentos."

O dr. Frank Furstenberg, professor de sociologia na Universidade da Pensilvânia e diretor de um grupo de pesquisa que analisa as transições para a idade adulta, comentou que o adolescente hoje é menos independente emocionalmente que no passado.

"A adolescência é mais jovem em certo sentido, porque o início da idade adulta foi ampliado", ele disse. "Ter 15 anos hoje é muito diferente de 50 anos atrás, quando 15 era a idade para se tornar um jovem adulto." Se hoje 20 equivale a 15, então 15 representa 12.

É claro que há adolescentes que não se dão bem com os pais. E o pai ou a mãe que se esforça muito para ser amigo de um adolescente sempre foi uma figura ridícula - veja a mãe interpretada por Amy Poehler em "Mean Girls", que usa um abrigo de corrida cor-de-rosa enquanto brinca de anfitriã em uma "happy hour" para as amigas de sua filha.

Além dos personagens padronizados nos filmes de adolescente, a cultura pop tem muitos modelos de celebridades que tornaram "bacana" admirar os próprios pais. A cantora ganhadora do Prêmio Grammy Beyonce Knowles, que tem 22 anos, pediu a sua mãe, Tina Knowles, para desenhar as roupas de seu grupo, Destiny's Child. Na semana passada as duas anunciaram um contrato com uma empresa de Nova York para colaborar numa coleção de roupas.

Alexis Tabak, 15, se relaciona com sua mãe como uma musa da moda. Em um dia de compras num sábado em Manhattan, Alexis pediu a aprovação da mãe, Susan Tabak, 48, antes de escolher uma calça Hardtail cor-de-rosa. Susan Tabak é uma "personal shopper" [compradora pessoal] que leva suas clientes a Paris. "Por causa de sua profissão ela realmente entende de compras e moda, e isso a torna muito divertida", disse Alexis.

Thomas Mara, 18, e seu pai, Jeff, 49, também ficam à vontade percorrendo as lojas no shopping center perto de sua casa em Rockville Centre, Nova York, escolhendo roupas para a viagem de formatura de Thomas à Flórida. Nos fins de semana os dois podem ser vistos trabalhando juntos no motor de um Mustang 2001 vermelho.

Eles não compartilham as opiniões políticas: Thomas votaria para a reeleição do presidente Bush, enquanto Mara tende para os democratas, e eles têm opiniões divergentes sobre a guerra no Iraque. Mas não travam uma guerra pessoal à mesa de jantar, como a geração anterior. Thomas disse que eles têm discussões respeitosas sobre os fatos da atualidade.

O cânion que se abriu entre as gerações nas décadas de 50 e 60 por causa do rock'n'roll, do Vietnã e da revolução sexual, e de certa maneira se estendeu pelos anos 80, reforçou a idéia de que os adolescentes são rebeldes por natureza.

Mas o sociólogo Furstenberg disse que não há nada pré-programado sobre a rebeldia adolescente. "O pensamento de que os adolescentes se rebelam porque querem mais autonomia e afastar-se das famílias é uma idéia muito bem desenvolvida na sociedade americana", ele disse. Mas esse fenômeno é pelo menos em parte um produto da cultura americana, e não inato. "O modo como pensamos nisso pode mudar", ele disse.

Hoje, grande parte do que se considera o gosto moderno é reciclado dos últimos 30 anos. Os adolescentes que adoram o rock de garagem dos Strokes são atraídos pelas antigas coleções de discos de Blondie e Lou Reed de seus pais, e as calças de cintura baixa que eles compram na Gap poderiam ter saído dos armários dos pais.

Paradas diante do Carnegie Hall antes de um concerto de Jewel no mês passado, Sara Jacobson, 13, e sua mãe, Linda, 38, usavam jaquetas de couro preto iguais e muito delineador nos olhos. O show foi idéia da mãe de Sara, assim como o de AC/DC que elas assistiram dois anos atrás com o pai de Sara, mas a menina também gosta da música.

Solicitada recentemente a escrever uma redação para a escola sobre seu herói, Sara escreveu sobre a mãe. "Como passamos ótimos momentos juntas", ela disse, "como ela não é perfeita, mas ninguém é. Ela é realmente uma boa mãe e eu não a trocaria." Foi a redação mais longa da classe. "Eu tinha muita coisa a dizer", disse Sara. No show de AC/DC, "todo mundo me dizia: 'Seus pais são muito legais'", ela contou.

A idéia de que um adolescente considere a mãe ou o pai bacanas deixa muitos pais desconfiados, assim como vários especialistas em desenvolvimento de adolescentes.

"Nenhum garoto de 14 anos acha seus pais 'legais'", afirmou o dr. Michael Thompson, um psicólogo clínico infantil de Arlington, Massachusetts, e autor de "Raising Cain" (Ballantine, 1999) [Criando Caim]. "'Legal' é um atributo que se concede ao grupo de pares." Ele acrescentou: "Do ponto de vista do desenvolvimento, é estranho quando um jovem de 12 ou 13 anos diz isso".

Thompson disse que é totalmente a favor de os pais passarem mais tempo com os filhos, mas advertiu que os que se esforçam para ser considerados legais pelos adolescentes não estão cumprindo seu papel. "Você é o pai; você é o chão embaixo deles, a moldura ao seu redor", ele disse. "Você é o banco, a polícia. Mas não o melhor amigo."

Os pais de mentalidade aberta e flexível geralmente recebem as melhores notas dos especialistas. Até de especialistas adolescentes, como Natalie Fuller, que escreveu "Promise You Won't Freak Out: A Teenager Tells Her Mother the Truth About Boys, Booze, Body Piercing, and Other Touchy Topics (and Mom Responds)" [Prometa que não vai pirar: uma adolescente conta a sua mãe a verdade sobre meninos, bebida, piercing e outros temas delicados (e mamãe responde)]. O livro foi escrito junto com sua mãe, Doris A. Fuller, dois anos atrás, quando Natalie tinha 16.

Antes do livro, Natalie e a mãe "não eram tão chegadas", disse a garota, acrescentando: "Eu não me sentia à vontade para conversar sobre tudo com ela".

A garota burlou as regras e finalmente se meteu numa confusão envolvendo uma estrada interestadual, um Mazda branco, um garoto que seus pais não conheciam e bebida alcoólica. Isso aconteceu depois de Fuller ter imposto o que Natalie chamou de "carceragem".

Foi então que Natalie sugeriu que escrevessem um livro juntas. Ele foi publicado este mês pela Berkley Publishing Group. "Hoje somos realmente boas amigas", disse Natalie. "Nos divertimos indo às palestras e respondendo às perguntas sobre o que passamos."

É um bom livro para o Clube Literário Mães e Filhas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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