Taj Mahal: o glorioso sobrevivente

Amy Waldman

A mais famosa narrativa em torno do Taj Mahal, a transcendente atração turística da Índia, é a história de amor que levou a sua construção: a morte da rainha Mumtaz, no parto de seu 14º filho; o pesar de seu marido imperador, Shah Jahan; e sua promessa de construir o maior monumento ao amor do mundo.

No entanto, com mais de 350 anos, o Taj gerou muitas outras histórias, inclusive do relacionamento complicado da Índia com o monumento e com os imperadores islâmicos que o construíram, além muitos dos tesouros arquitetônicos do país.

É também a narrativa de um monumento sobrevivente, que foi saqueado, quase desmantelado e erodido pela poluição. Ao ler sua história, é de espantar que ainda esteja de pé.

Depois há as narrativas dos turistas. O Taj foi tão elogiado em todos os tempos que uma visita parece fadada ao desapontamento. Mas não é. A brancura da tumba, sua simetria, suas curvas, sua escala majestosa e detalhe impressionante são irreais.

Infelizmente, a chegada até lá é um pouco real demais. O Taj fica em Agra, uma cidade superpopulada, que há muito ultrapassou sua infra-estrutura. Depois de três viagens ao Taj, com diferentes amigos, passei a odiar o calor, os vendedores, o caos de seu entorno -sempre prometendo que aquela será a última visita. Depois, quando vejo o domo etéreo pelo portão que assegura o dramatismo da entrada, não posso esperar até a volta.

O Taj é uma dessas raras criações que funcionam de longe e de perto, como um todo e em partes, e de formas totalmente diferentes. Já recebeu críticas ("Parece encobrir milhares de pecados", escreveu Aldous Huxley), mas foram poucas.

A tumba fica entre o rio e o céu, e o tom de seu mármore muda com a luz do dia. O formato perfeito do domo é refletido na longa piscina retangular a sua frente. A natureza quase feminina das curvas do prédio contrabalança com a formalidade mais severa de seus planos. O mármore branco contrasta belamente com o vermelho dos dois prédios que ladeiam a tumba -a mesquita e seu "jawab", ou resposta - e o verde dos jardins.

O interior é totalmente diferente, decorado com flores detalhadas e a delicadeza do trabalho no mármore que cerca a tumba da rainha, que parece rendado. Do lado de fora, os jardins -a assinatura mogul- foram significativamente alterados, mas são mantidos com respeito. Você pode, e deve, caminhar em torno da tumba, para apreciar a construção e sua relação com o rio e também os visitantes -as famílias indianas, amantes e turistas que vêm em peso ver o grande tesouro do país.

O Taj Mahal tornou-se o símbolo mais identificável da Índia, atraindo 2,2 milhões de turistas por ano. Pessoas apaixonadas vão visitá-lo, apesar de não ser uma experiência particularmente romântica. No entanto, em uma era obcecada com o extremismo islâmico, vale a pena ver uma manifestação de outro lado da civilização islâmica.

Aqueles que falam sobre a glória perdida do Islã e de como a perda ajudou a alimentar a ira muçulmana podem encontrar essa glória no Taj e em seu casamento de arquitetura, estilo e engenharia. É um dos exemplos mais espetaculares do mundo de arte islâmica, apesar de combinada com influências persas, indianas e da Ásia Central. Representa o apogeu de um império que, apesar de nem sempre benevolente, deu à Índia grande parte de sua fundação administrativa e estrutura modernas.

Shah Jaha -"Imperador do Mundo"- foi um dos imperadores muçulmanos que governaram a Índia do século 16 ao 18. Sua civilização envolvia crueldade e justiça, excesso e refinamento. Os imperadores eram grandes patronos das artes e artesãos, estudantes de ciências, arquitetura e paisagismo.

O Taj é um assombro, no bom sentido, já que grande parte do que o torna incrível é invisível. O domo em duas camadas. A arte dos calígrafos de aumentar gradualmente o tamanho das letras das escrituras do Alcorão no exterior, para que pareçam uniformes. Os tubos engenhosos no subsolo, que forneciam água aos canais do "charbagh", ou jardim quadrado.

Mas a Índia é uma nação de maioria hindu. Até as eleições da semana passada, era controlada por nacionalistas hindus, cujo bode expiatório são os invasores muçulmanos que construíram o Taj. Os moguls eram conquistadores que saqueavam, brutalizavam corpos e mentes e os monumentos da Índia hindu. Mas eles também deram ao país muitas de suas belas construções e jardins, que estão quase casualmente espalhados por Déli, Agra e Fatepur Sikri, a fabulosa cidade abandonada construída por Akbar.

Alguns nacionalistas hindus ardentes ignoram esse fato; outros o negam. Em nossa biblioteca, recentemente, encontrei um pequeno volume chamado "The Taj Mahal Is a Temple Palace" (o Taj Mahal é um templo palácio), por P.N. Oak, em 1974. O livro era aclamado como "uma descoberta que marcou a era e provou que todos os historiadores e histórias estavam errados". Ele argumenta que o Taj foi "construído por um rei Rajput poderoso, antes dos muçulmanos". Construído "por hindus, para hindus".

A maior parte dos historiadores, é claro, discorda. Está claro que o Taj foi construído por Shah Jahan, filho de Jahangir, imperador mogul. Shah Jahan aparentemente escolhera como esposa Arjumand Banu, rebatizada Mumtaz Mahal -"a escolhida do palácio", em um bazar de damas nobres. Com o tempo, sua fama foi sendo inflada a um ponto quase impossível, de mulher bela, virtuosa e brava. Apesar de evidências históricas vagas, sabe-se que Mumtaz Mahal acompanhou o marido à guerra e deu-lhe 14 filhos. O último parto tomou-lhe a vida, aos 39. Na morte, tornou-se a musa de seu marido viúvo.

Como a maior parte dos grandes monumentos, o Taj é um testamento aos excessos da época. Os moguls eram dados a coleções absurdas e demonstrações de riqueza. Assim, 20.000 operários (Kipling escreveu sobre o "sofrimento dos trabalhadores que morreram na construção -usados como gado") trabalharam 22 anos para realizar o sonho de Shah Jahan, com jóias, materiais e artistas importados da China, Bagdá, Afeganistão e outros lugares.

Mas sua história também é sobre a luta entre a tolerância e o extremismo dentro do islã, que continua até hoje. Shah Jahan foi preso por seu filho Aurangzeb, que o sucedeu e não aprovava a libertinagem de seu pai. Descartando a relativa tolerância dos pais, Aurangzeb fez um governo ao estilo Taleban, tentando impor um islamismo literal e perseguindo e penalizando hindus e outros.

Shah Jahan tinha buscado perfeita simetria no Taj e colocou a tumba de Mumtaz (na verdade, um cenotáfio de mármore; seu corpo está enterrado abaixo) bem no meio, dando uma visão perfeitamente geométrica da entrada. Aurangzeb estragou a simetria, colocando a tumba de seu pai lá dentro também.

Alguns dizem que Aurangzeb colocou a tumba do pai no Taj por se sentir culpado pela forma como o tinha tratado. Na minha última viagem, o guia disse que Aurangzeb procurou arruinar a simetria deliberadamente porque, segundo o islamismo, a simetria deve ser reservada a Deus. "Era muçulmano fanático", disse o guia, um brahmin hindu. Se esse detalhe particular é verdadeiro ou não, o fanatismo de Aurangzeb, por fim, levou ao declínio do império mogul, gerando revoltas entre diferentes grupos.

Aurangzeb, entretanto, preservou a tumba do Taj como lugar sagrado e, por anos, o Alcorão era continuamente lido ali pelos mulás. Esse costume terminou com o declínio do império mogul e o início do império britânico.

Os ingleses, junto com os Jats, uma casta do norte da Índia, roubaram os tapetes suntuosos, jóias, portas de prata e tapeçarias que adornavam o Taj. Lord William Bentinck, o primeiro governador geral da Índia, chegou a pensar em desmantelar o Taj e vender seu mármore. Em meados do século 19, de acordo com D.N. Dube e Shalini Saran, em "Taj Mahal", um pequeno guia publicado pela Roli Books International em 1985, o Taj tinha se tornado um "destino de prazer", com ingleses dançando nos terraços, e a mesquita e seu "jawab" alugados para luas-de-mel.

Lord Curzon, que fez mais do que qualquer inglês para preservar o Taj e outros monumentos, observou que os turistas vinham fazer piqueniques armados de martelos, para melhor extrair fragmentos de ágata e cornalina das flores. Ele consertou as construções, restaurou os jardins, apesar de acrescentar um toque britânico, e colocou os canais para funcionar novamente.

É fácil se revoltar com o tratamento britânico do Taj, mas os indianos não fizeram muito melhor. Com o crescimento de Agra, pouco esforço foi feito para proteger o Taj da poluição, que começou a descolorar o mármore branco. No final dos anos 90, com o futuro do monumento em grande risco, a Suprema Corte determinou a transferência de algumas fábricas.

Hoje, só podem chegar perto do Taj veículos elétricos ou triciclos. Em uma pareceria público-privada entre o governo e o grupo Taj de hotéis, um grande esforço de conservação está em curso. Lentamente, devido à interminável burocracia, um grupo de especialistas mundiais pesquisou e documentou o monumento, durante mais de dois anos. Em breve, serão iniciados os trabalhos de fato. Primeiro serão aprimoradas as instalações dos visitantes -banheiros, água potável e etc.- e a segurança será tornada menos impertinente.

Depois, serão abordadas questões como a melhoria do fluxo de visitantes pelo local e restauração dos jardins ao seu estado original ou preservação dos gramados instalados por Curzon.

Um esforço persistente de conservação parece essencial, dadas as ameaças contínuas ao monumento. Houve um escândalo quando o governo de Uttar Pradesh, Estado do Taj, permitiu a construção de um "Corredor de Herança do Taj", que incluía um shopping center entre o Taj e o Forte de Agra, sem pedir permissão do governo central. O projeto foi derrubado em meio a temores que poderia prejudicar os monumentos, sem mencionar sua vista, e o ex-ministro do Estado, Mayawati, está sendo investigado por corrupção conectada ao projeto.

Por enquanto, o Taj resiste, sua elegância contrastando com as favelas que abrigam quase a metade dos 1,5 milhão de habitantes de Agra.

Nas palavras da publicação indiana Outlook Traveller, "Independentemente do crédito que a cidade recebe por ter o monumento mais celebrado do país, perde pelo fato do turista sair dele na sujeira."

Pode-se evitar parte do desconforto pegando uma excursão de ônibus com ar-condicionado, como eu fiz com minha amiga Christine, recentemente. A maior parte das excursões também pára na tumba de Akbar e no Forte de Agra, ambos definitivamente valem a visita. O ônibus de excursão protege o turista de grande parte dos vendedores, mas é caro e está sujeito ao humor do guia; o nosso, nos apressou pelo Forte de Agra, do século 16, depois nos forçou a ficar indefinidamente em uma loja de suvenires.

Para melhor controlar seu tempo, você pode pegar o trem para Agra ou dirigir 200 km a partir de Déli. De qualquer forma, terá que deixar o carro ou táxi a uma distância determinada e contratar um riquixá ou veículo elétrico (ou andar) até o monumento. A maior parte dos transportes levá-lo-á até o portão oeste ou leste, onde se compra a entrada. Mas, se puder, entre pelo portão sul -a entrada é mais dramática, na qual você sai de uma cidade medieval para um jardim do paraíso.

Como estrangeiro, é preciso pagar US$ 16 (cerca de R$ 48) para receber um "passe de um dia", para visitar todos os monumentos -o Forte de Agra e outros- mesmo que não seja esse o plano. Apesar do nome, não é bem um "passe" livre. Mesmo com o passe, é preciso pagar taxas adicionais nos outros monumentos.

A chegada ao Taj pode deixar o turista um pouco irritado. É preciso deixar os aparelhos eletrônicos do lado de fora, muitas vezes com extorcionistas que querem ser pagos, passar por múltiplas revistas por seguranças e vencer inúmeros guias, aprovados pelo governo, querendo vender seus serviços. Na saída, os vendedores atacam.

O Taj, o Forte de Agra e Fatepur Sirki ficam em Uttar Pradesh, um dos Estados mais pobres e populosos da Índia. O desemprego é extremamente alto e não se pode culpar os moradores por verem os monumentos e os turistas estrangeiros como uma forma de ganhar dinheiro. O desespero, algumas vezes, pode parecer agressivo.

Talvez não haja uma metáfora mais brutal e surreal do que se a estrada entre o Taj e o Fatepur Sikri: ela é cercada por homens que exploram ursos bailarinos. Quando os carros se aproximam, os pequenos ursos são forçados a ficar em duas patas, na esperança de extrair algumas rúpias dos motoristas.

Mas, talvez, certa dificuldade em visitar o Taj acrescente ao seu efeito. De alguma forma, depois de navegar pelo caos, sua beleza fica ainda mais incrível, talvez mais inesperada, quando aparece no campo de visão, uma imagem serena e perfeita o suficiente para ser guardada na retina. Deborah Weinberg

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