Lutadora deixa de lado o medo - e o sigilo - para competir

Brian Ettkin
Albany Times Union/The New York Times News Service

Colonie, Nova York - Kristie Marano percorreu um caminho longo, e por vezes assustador, para chegar ao pré-olímpico norte-americano de luta livre.

Como a número um na categoria até 60 quilos, Marano, 25, vai lutar com a vencedora da eliminatória do dia anterior, em um campeonato em que será escolhida a melhor de três séries. A vencedora representará os Estados Unidos nos Jogos Olímpicos de Atenas de 2004, onde a luta livre feminina fará a sua estréia em agosto, com quatro categorias de peso.

Ela ganhou mais medalhas internacionais de luta livre do que qualquer outra mulher. Por sete vezes competiu em campeonatos mundiais, tendo conquistado medalhas em todas essas ocasiões. Kristie levou a medalha de ouro duas vezes, incluindo no campeonato do ano passado. E ela não irá fraquejar desta vez, caso o passado sirva como um indicador do presente.

"Esse é o ponto mais forte de Kristie", diz Terry Steiner, treinador da equipe nacional de luta livre dos Estados Unidos. "Ela é uma competidora, e ponto."

Não é que ela não tema o fracasso.

O que ocorre é que ela o enfrenta, como ocorreu minutos antes da sua primeira luta no campeonato mundial de 2002, na Grécia, quando Steiner viu Kristie ter uma crise de choro no salão de treinamento.

"Eu fiquei me perguntando como essa moça iria levantar do tatame e competir", conta Steiner. "Mas aquilo era toda a emoção e o medo sendo liberados. Quando ela entrou no ringue para competir, era uma pessoa totalmente diferente. Havia lágrimas nos seus olhos, mas ela prosseguiu".

Durante a maior parte da sua vida, Kristie superou o medo, já que se espera dos membros da sua família que sejam mais duros que casco de tartaruga. O seu pai serviu na Força Aérea e competiu na luta livre e no judô, assim como faria mais tarde a filha.

Mas Kristie se transformou em uma espécie de especialista no medo, e também na arte de guardar um segredo. Em 15 de abril de 1998, Kristie, à época com 19 anos, foi até o banheiro da casa em que morava com a família, pouco depois das 5h, tomou um banho morno e deu à luz uma menina de 2,9 quilos enquanto os pais dormiam.

A gravidez fora um segredo absoluto. Ela acabara de retornar dos Jogos Nacionais Universitários, em Chicago, onde ganhou a medalha de ouro.

Os seus pais a apoiaram firmemente. Ela temeu desapontá-los, de forma que nada fez após ter confirmado a gravidez. Kristie conta que até o nascimento da criança acreditou que estava grávida de apenas três ou quatro meses, já que não sentiu náuseas e ganhou apenas 5,5 quilos.

"Ela escondeu o fato por muito tempo", conta a sua mãe, Nancy Stenglein. "Kristie não pensou sobre o assunto. Ela agiu como se acreditasse que, caso enfiasse na cabeça que não estava grávida, não haveria gravidez. Ou, colocando de outra forma, decidiu que, como não sabia como lidar com a situação, não lidaria com ela."

Atualmente Nancy diz que desconfiou que a filha estava grávida, mas nada disse. "Agi dessa forma porque nós costumamos esperar que os nossos filhos venham até nós com os seus problemas", explica Nancy. Ela não disse nada ao marido, Conrad, que afirma que não tinha a menor idéia do que estava ocorrendo. Assim, os dois se viram no quarto de Kristie, onde presenciaram a verdade emergir tão nua quanto a criança recém-nascida com que se defrontaram.

Os Stenglein não gritaram nem choraram. Após se recuperarem do choque, a sua principal preocupação foi levar Kristie e o bebê a um hospital.

"O meu problema foi que achei que estava desapontando as pessoas, mas isso não deveria ter me impedido de lhes ter contado a verdade", disse Kristie. "A gente não sabe o que vai acontecer depois... Fiquei realmente aliviada. Não foi tão ruim assim."

Ela reconhece que o seu comportamento foi "estúpido" e que eles tiveram sorte. Não é necessário que se seja um médico para saber que uma chave de pernas aplicada no abdômen por uma adversária de luta não é exatamente o tratamento mais seguro para uma gestante. Não houve vitaminas pré-natais, consultas com obstetras ou ultra-sonografias. Tampouco houve problemas.

"Creio que tinha tantas outras coisas nas quais me concentrar que deixei de lado a questão da gravidez", conta Kristie. "Creio que a negação do fato falou mais alto. Não sei ao certo. É algo nebuloso, que parece ter ocorrido há muito tempo. Havia muitas alternativas para lidar com o problema."

O episódio ocorreu há seis anos e Kristie ainda sente desconforto ao discutir os eventos relacionados ao nascimento do bebê. Ela costuma responder às perguntas da seguinte forma: "Não sei o que estava fazendo", ou "Não sei em que estava pensando".

Quando o bebê nasceu, os Stenglein e Kristie saíram para jantar com Chad Marano e os seus pais.

Entre os tópicos discutidos estava o nome do bebê. Kristie gostou do nome Mikayla, mas foi voto vencido. Eles acabaram se decidindo por Kayla.

Dez dias após o parto, Kristie ganhou uma medalha de ouro no campeonato nacional, em Orlando, Flórida. O seu médico disse que ela poderia lutar, mas aconselhou que parasse caso sentisse câimbras, e foi isso que ela fez na segunda luta.

Mas ela continuou lutando. Kristie diz que foi um dos seus melhores campeonatos.

Kristie e Marano casaram-se em 19 de junho de 1999, mas se separaram 16 meses depois. Kristie e Kayla, de 6 anos, moram em Colorado Springs, Colorado, onde Kristie é atleta residente, integrante do Centro de Treinamento Olímpico dos Estados Unidos.

Sabendo o quanto seria difícil para a filha treinar para as Olimpíadas e cuidar de Kayla ao mesmo tempo, Conrad se mudou para Colorado Springs, no outono passado, para ajudá-la.

Kayla, que está na escola, assiste freqüentemente aos treinamentos e lutas da mãe, e passa instruções a respeito de imobilizações e golpes que acha que Kristie deve aplicar. Enquanto que Kristie se comporta timidamente na companhia de desconhecidos, Kayla é tão desinibida quanto um DJ. Em determinado Natal, Kayla foi até uma máquina de karaokê, agarrou o microfone e dançou iluminada por luzes estroboscópicas.

Essa é Kayla, que um dia saberá que já foi o segredo mais bem guardado da mamãe. Kristie Marano percorreu um caminho longo, talvez assustador, até o pré-olímpico Danilo Fonseca

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