Redes de TV dos EUA planejam lançar séries novas o ano inteiro

Scott Robson

Os espectadores de televisão em horário nobre estão dispostos a suportar muita coisa. E daí que a realidade é encenada e editada em seu benefício? Não há problema. Eventos ao vivo projetados em suas telas planas com atraso de 5 segundos? Ótimo. E durante décadas eles concordaram até com um "ano" que começava em setembro e durava apenas 35 semanas.

Enquanto as redes mantiveram esse calendário inflexível, os espectadores lutaram para digerir uma enxurrada de mais de cem programas novos e repetidos a cada outono (e alguns mais a cada inverno, para substituir as ofertas de outono que morreram jovens), depois suportavam uma série de reprises e perdedores no verão.

Nos últimos anos, a introdução de novos programas-realidade no verão ajudou no problema de banquete-ou-jejum, mas apenas ligeiramente. Este verão, porém, duas das principais redes estão reorganizando drasticamente seus calendários, e outras poderão acompanhá-las.

A Fox, a mais jovem das grandes redes e um constante espinho no flanco das Três Grandes originais (NBC, CBS e ABC), está liderando o ataque. Em vez de lançar seu novo pacote no outono, a Fox vai abrir sua temporada de televisão em 8 de junho, mudando sua programação para o formato de ano inteiro. A rede - que não é estranha a hipérbols - diz que a decisão de começar novas séries e reprises de outras durante todo o ano é o início de uma revolução na televisão.

"Os espectadores foram treinados durante 50 anos para entender que as redes oferecem programação descartável no verão, mas então programas como 'American Idol' e 'Who Wants to Be a Millionaire' estrearam no verão e o público os adotou", diz a presidente de entretenimento da Fox, Gail Berman. "Lançamos 'The O.C.' em agosto do ano passado como experiência para ver se haveria energia suficiente para apoiar um programa de verão, e conseguimos acumular um pouco antes de ele sair do ar para a temporada de beisebol em setembro. Aprendemos alguma coisa com isso".

A NBC também está entrando no negócio do ano completo. A rede precisa de alguma coisa além de "The Apprentice", o reality show cujo vencedor ganha um emprego milionário em uma empresa de Donald Trump. A NBC tem de manter o pessoal de 18 a 49 anos que gasta à vontade e é cobiçado pelos anunciantes, que costumavam sintonizar as bem sucedidas (e encerradas) sitcoms "Friends" and "Frasier".

A rede está antecipando o início de seu calendário de verão em quase um mês. O início no final de agosto, o primeiro passo de seu novo plano de 52 semanas, vem imediatamente depois da transmissão das Olimpíadas de verão.

"As redes não estão mais colocando placas 'Fui pescar' em sua programação de verão", diz o presidente de entretenimento da NBC, Jeff Zucker. "Há novas regras. Você não precisa lançar programas em setembro. Não há uma meia-estação e uma estação de verão. Há apenas uma estação, que dura o ano inteiro. Haverá mais opções, mais oportunidades e o espectador é o grande vencedor. Todo mundo está adotando o calendário de 52 semanas."

Bem, nem todo mundo. Pelo menos ainda não. Os executivos da CBS, por exemplo, disseram várias vezes que estão mantendo a programação. É claro, como a rede mais assistida nos três dos últimos quatro anos, eles têm menos incentivos para mudar. Enquanto isso, a ABC, em dificuldades, foi uma das primeiras redes a discutir abertamente a mudança para o ano completo, mas alterações administrativas recentes prejudicaram esses planos - pelo menos por enquanto. A única concessão da rede à idéia de 52 semanas é a decisão de deixar "Aliás" até janeiro, quando voltará com 20 novos episódios consecutivos.

Apesar da retórica de "eu vi o futuro" da Fox e da NBC, é claro que suas iniciativas de um ano não são uma certeza. Sejam quais forem as desvantagens do antigo sistema, ele se tornou uma parte do biorritmo cultural americano. A audiência de televisão despenca durante o verão. E depois de quase meio século de condicionamento os espectadores consideram os novos programas um ritual de outono, assim como as abóboras e os novos cadernos de espiral. Eles podem ser reorientados para o novo modelo de programação com rapidez suficiente para manter os novos programas vivos? E, sem um conjunto completo de estréias de alto perfil neste outono, a Fox e a NBC poderão se sentir um pouco vazias em comparação com a CBS e a ABC?

"Pensar fora do esquema e romper as regras estúpidas da televisão é a única maneira de ter sucesso", diz Mark Burnett, que como criador do "Survivor" da CBS (que estreou no verão, aliás) e "Apprentice" da NBC, sabe algo sobre as recompensas de uma programação arriscada.

Sua última oferta é um "drama-realidade" chamado "The Casino", que estréia na Fox neste verão. A série acompanha os novos proprietários e o funcionamento interno do famoso hotel e cassino Golden Nugget em Las Vegas, e servirá de âncora para o novo pique da rede.

Ele será acompanhado dos dramas "The Jury" (dos criadores de "Oz", Tom Fontana e Barry Levinson) e "The North Shore" (um "The O.C"., passado num "resort" no Havaí), assim como as novelas cômicas "Method and Red" (os rappers Method Man e Redman fazem astros do hip-hop que se mudam para um bairro aristocrático) e "Quintuplets" (apresentando o retorno à rede de Andy Richter, desta vez como o pai de cinco adolescentes). Além disso, o público verá a ressurreição da carreira de Paris Hilton, também conhecida como "The Simple Life 2: Road Trip", e novos episódios dos seriados cômicos "The Bernie Mac Show" e "Oliver Beene".

A maioria das forças criativas no ramo de televisão - produtores e autores - acredita nas possibilidades de um calendário para o ano todo. Um dos motivos é que ele reduz a intensa competição sazonal por talentos, liberando bons atores e diretores. E a esperança é que ao começar em datas variadas, em vez de todos ao mesmo tempo, os novos programas terão mais tempo para encontrar um público.

"Eu faço pressão e rezo por isso há dez anos", diz Tom Fontana, produtor de dramas peso-pesado como "Homicide: Life on the Street" da NBC e "Oz" da HBO, que já viu os dois lados da divisão televisão aberta-cabo. "Para mim o conceito de temporada piloto é um anacronismo inventado muito tempo atrás em uma galáxia muito distante. Ele não ajuda as redes, os estúdios, o pessoal da criação, os anunciantes ou os espectadores."

Os executivos das redes - mesmo aqueles que não trabalham para a Fox e a NBC - também têm falado sobre o novo modelo de programação. Durante vários anos ele sugeriram que havia necessidade de grandes mudanças para conter a fuga de espectadores, que a cada verão recorrem às redes a cabo e depois voltam em números cada vez menores no outono.

Os executivos também estão frustrados pela enorme quantidade de dinheiro e esforço despendida no desenvolvimento de nova programação a cada ano, e a pequena porcentagem desses programas que se tornam sucessos. Mesmo os anunciantes, para os quais o modelo original centrado no outono foi desenvolvido na década de 50 (para coincidir com o lançamento de novos carros, entre outros produtos), manifestaram interesse em um conteúdo mais forte durante o ano todo. Isso vale especialmente para os estúdios de cinema, que vivem e morrem pelos retornos das bilheterias de verão, e portanto precisam saber que seus comerciais estão atingindo o público mais amplo possível nessa estação.

A mudança para a televisão de ano completo poderá ser considerada pela indústria uma espécie de iniciativa de serviço ao consumidor, uma tentativa de atender às necessidades do público em vez de tradições arbitrárias e ossificadas. Brian Lowry, um colunista de televisão da revista "Variety", diz: "Há muito valor em dizer 'Você não é escravo do nosso calendário, vamos atender ao seu'".

Dito isso, é improvável que tão cedo na transição essa programação de ano todo represente uma carga extra de programas entrando nas salas de estar americanas. Executivos da indústria dizem que esperam apenas um punhado de séries adicionais produzidas por ano. Com o preço por episódio de dramas adaptados superando os US$ 2 milhões, as redes estão relutantes em comprar muito até saber melhor como funciona o novo mercado.

Também não espere que "ER", "Os Simpsons" ou qualquer outro programa, adaptado ou não, produza 52 novos episódios por ano. Para o elenco e a equipe, fazer um programa de TV geralmente significa acordar antes do amanhecer e ir embora à noite, cinco ou seis dias por semana, durante meses a fio. De alguma forma em algum lugar essas pessoas precisam descansar.

Enquanto isso, os frenesis às vezes enlouquecedores conhecidos como "sweeps" - os períodos em novembro, fevereiro, maio e julho em que as redes têm sua audiência avaliada e se definem as taxas de publicidade - continuarão. Mas durante quanto tempo ninguém sabe. "Os 'sweeps', as temporadas e todas essas idéias tradicionais estão em vias de desaparecer", diz Berman da Fox. "Não vão sumir no ano que vem ou no próximo, mas mais cedo ou mais tarde tudo isso será modificado."

Então, por enquanto, mais ou menos o mesmo número de novos programas será espalhado por períodos diferentes do ano - em "temporadas" mais curtas e em doses variadas. A Fox vai lançar programas novos e reprises em junho e julho e depois da temporada de beisebol, em novembro e janeiro.

Lançamentos em setembro e outubro são improváveis, porque a rede cobre a Liga Principal de Beisebol. As eliminatórias e o Campeonato Mundial têm sido sucessos de audiência, mas uma maldição para os programadores da Fox, que são obrigados a estrear programas em novembro, depois de todas as outras redes.

Durante o verão, cada episódio de novos programas da Fox será transmitido duas vezes por semana, com uma estréia seguida de uma reprise algumas noites depois. A NBC pretende usar uma técnica semelhante, a partir de agosto. Repetições instantâneas são um truque de programação conhecido por muitos espectadores de cabo, graças a canais como HBO, que retransmite programas como "Deadwood" e "Os Sopranos" diversas vezes por semana.

Para as emissoras, a idéia é usar as repetições para formar um público. Também é uma maneira mais rápida de as redes recuperarem seus investimentos. A maioria das séries adaptadas, por exemplo, só se torna rentável depois de sua segunda exibição. Se temporadas de reprise se tornarem coisa do passado, aquelas exibições extra têm de entrar em algum lugar.

Enquanto isso, a NBC também vai experimentar manipular séries novas e reprises ao redor de diversos horários e datas iniciais. Apostando na flexibilidade e confiabilidade da programação durante todo o ano, a rede encomendou 12 novos programas para o próximo ano, mas somente cinco, incluindo "Joey", o derivado de "Friends", vai estrear no outono.

As outras estréias em agosto são "Father of the Pride" (uma comédia com a voz de John Goodman sobre leões amestrados em Las Vegas, baseada no número "Siegfried and Roy"); "LAX", um drama de aeroporto com Heather Locklear como um guru da segurança); "Hawaii" (outro programa de policial passado no paraíso); e "Medical Investigation" (um drama médico-policial baseado em casos realmente pesquisados pelos Institutos Nacionais de Saúde).

Programas que estão sendo retidos para estrear mais tarde incluem a última extensão da franquia "Law & Order: Trial by Jury" (apresentando um membro do elenco original, Jerry Orbach); um programa-realidade de boxe, "The Contender", criado por Mark Burnett; e a série limitada "Revelations" (estrelada por Bill Pullman como um cientista que tenta evitar o apocalipse), que ocupará o horário de "Thq West Wing" no meio da temporada.

O calendário de emissões poderá ficar ainda mais fluido no futuro. "Se somos uma rede de 52 semanas, devemos lançar programas o ano todo", diz Preston Beckman, vice-presidente executivo de planejamento de programas da Fox. "O segredo é ter programas em ciclos diferentes para que o calendário sempre pareça novo. Esse é o primeiro passo de se dizer que não existe mais algo chamado temporada de TV."

É claro que alguns elementos do jogo nunca vão mudar. "É ótimo que eles estejam indo contra a sabedoria convencional das redes abertas, e temos o benefício adicional de que o programa irá ao ar duas vezes por semana", diz Fontana, de "The Jury". "Mas se conseguirmos uma audiência de 0,01 saberemos que a juíza Paris Hilton estará sentada no banco na próxima semana", ele disse, rindo. Maioria dos programas poderá ser vista pelo público brasileiro nos canais pagos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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