Afonso Cuaron apresenta um Harry Potter mais enxuto e sombrio em "Prisioneiro de Azkaban"

Glenn Whipp

Os fãs de "Harry Potter" nunca tiveram problemas com as adaptações para o cinema dos mega-sucessos de Rowling. Nós adultos é que ficamos ansiosos na cadeira. "Harry Potter e a Pedra Filosofal" e "Harry Potter e a Câmera Secreta", de Chris Columbus, foram literais demais, óbvios demais e -acima de tudo- longos demais para quem não é fã.

E não pense que os produtores não tinham consciência disso. "Os adultos absolutamente nos odiaram. Éramos fãs dos livros, particularmente o Chris. Ele gostava tanto dos livros que queria incluir o máximo possível das histórias nos filmes. Então ficaram muito longos. Eu sempre tentava encurtá-los, mas Chris me pedia para colocar as coisas de volta. Ele queria dar tudo a todos. Era uma questão que sempre debatíamos. Quanto é demais?", disse o roteirista Steve Kloves, que adaptou os primeiros quatro livros de Rowling para a tela.

Por isso Alfonso Cuaron era o homem certo para dirigir a terceira parte da série, "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban". Cuaron não tinha lido nenhum dos livros de Rowling ou visto os dois outros filmes. Simplesmente não lhe interessavam. De fato, saindo do sucesso de crítica de "E Sua Mãe Também", Cuaron não se sentiu em nada prestigiado quando a Warner Bros enviou-lhe o roteiro de "Azkaban", de Kloves, para consideração. O pacote foi parar em uma pilha. "Por que eu ia querer fazer um filme de continuação?" pensou. (Quando finalmente leu o trabalho de Kloves, mudou de idéia.)

Essa capacidade de se distanciar do fenômeno de "Harry Potter" permitiu a Cuaron fazer um filme que continua fiel ao espírito dos trabalhos de Rowling, sem ser escravizado por ele. Apesar de "Azkaban" ser o mais longo dos três livros que chegaram à tela, é o menor filme, com 20 minutos a menos (e, graças ao movimento de câmera de Cuaron, parece ainda mais rápido) do que a "Câmara Secreta".

"Alfonso nos liberou do texto", diz Kloves. "É uma visão realmente agressiva do material, que exige mais do público. É realmente feito para conhecedores. Fazemos perguntas e, em vez de respondê-las imediatamente, demoramos uns 20 a 30 minutos. Você tem que prestar atenção. E o preço da entrada inclui a familiaridade. Eu não podia ficar explicando quem é Dumbledore ou simplesmente ia enlouquecer."

Cuaron diz: "A questão foi eliminar redundâncias. Decidimos deixar o tema bem claro e cortar tudo que não colaborava com ele."

O tema, como diz Cuaron, é o de identidade, especificamente a busca de Harry Potter pela sua. Em "Azkaban", Harry está sendo caçado por Sirius Black (Gary Oldman), que foi condenado por assassinato e, aparentemente, entregou os falecidos pais do jovem mago para o senhor do mal, Voldermort. Harry precisa não só lidar com o espectro de Sirius, mas também com os Dementadores, que aspiram a alma, e com seus sonhos assombrados sobre seus queridos pais.

É coisa bem pesada. Até mesmo a obrigatória partida de Quadribol ocorre durante uma tempestade de trovões. "É a história de um menino de 13 anos que está encontrando sua própria identidade e aprendendo a aceitar a energia do pai dentro dele", diz Cuaron. "Essa idade é miserável. Eu me lembro. Não é uma época feliz. Você está entendendo que o monstro não está debaixo da cama, mas dentro de você. Eventualmente, você aprende que o que também está em você é a habilidade de destruir o monstro."

O que torna "Azkaban" um "Potter" melhor é que seus três principais atores-mirins -Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint- aprenderam a atuar. Poderíamos chamar de treinamento no serviço. Depois de dois filmes, os garotos ganharam confiança e, principalmente, o desejo de realmente explorar seus papéis.

"Você vê o primeiro filme, e é todo cortado, porque eles não sabiam falar mais uma ou duas frases sem olhar para a câmera", diz o produtor da série David Heyman. "Chris (Columbus) os treinou. Agora, são capazes de fazer cenas inteiras em uma tomada. Não havia chance de fazer isso antes, nem no último filme."

Em outras palavras, os meninos estão crescendo. Isso certamente é o que se entende quando centenas de meninas ficam gritando na entrada da Radio City Music Hall, como na semana passada, para a estréia do filme. A cada movimento de Grint e particularmente de Radcliffe, elas guinchavam. (Radcliffe: "Elas gritam muito bem.")

Durante a filmagem, quando Cuaron precisou que Radcliffe fizesse um olhar de espanto, ele levou seu jovem ator a um canto e disse: "Finja que você está vendo Cameron Diaz de tanga". (Cuaron: "Funcionou. Vou deixar o público adivinhar qual foi a cena. Não quero que todo mundo fique imaginando Cameron Diaz de tanga.")

Apesar de Cuaron dizer que "Potter" foi a única coisa inteligente que fez na vida, ele não quis assumir o próximo filme, "Harry Potter e o Cálice de Fogo". O filme começou a ser filmado no mês passado, com direção de Mike Newell (de "Quatro Casamentos e um Funeral").

Não foi por falta de convite. Cuaron foi convidado -há mais de um ano. Além disso, ele adora o "Cálice", chamando-o de seu livro favorito. No entanto, disse que simplesmente não se via como um Peter Jackson ("Senhor dos Anéis"), aquela espécie de diretor que se sacrifica durante anos, correndo, trabalhando em filmes gigantescos e trabalhosos.

"Fazer um filme de 'Harry Potter' é como ser convidado para dirigir o melhor carro da Terra, poderoso, luxuoso, com o melhor som e qualquer música que você quiser", diz Cuaron. "Sua tarefa é ir de Los Angeles a Nova York e todas estradas estarão liberadas para você. Só tem um problema: Não tem parada para ir ao banheiro, para comer, não tem parada nenhuma."

Então, quando Cuaron vai ao banheiro?

"Quando terminar de promover o filme, daqui a um mês", responde, rindo calorosamente. "Estou com enormes olheiras." Diretor mexicano imprime um ritmo ágil à saga do pequeno mago que lota os cinemas Deborah Weinberg

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