Os ricos são diferentes: eles têm mau gosto

Guy Trebay

Alguém tem melhor mau gosto que os membros da classe alta americana, um grupo que Paul Fussell certa vez categorizou como "os impossíveis do topo"? Os clichês visuais desse grupo são tema de lendas (e peças de A.R. Gurney). Suas casas são recheadas de retratos de ancestrais cor de molho ferrugem, tapetes Tabriz esgarçados de tia Millicent, porcelana chinesa consertada com Cola Louca e estofados cujas molas são uma emboscada para o traseiro incauto.

Em uma era de excessos bilionários, representantes do Dinheiro Antigo parecem cada vez mais raros, assim como ter uma visão de suas vidas e hábitats excêntricos. Por coincidência, esta foi uma temporada especialmente rica em oportunidades para se admirar os costumes em extinção do gênero aristocrata. Primeiro foi uma enxurrada de elogios póstumos em revistas de decoração a C.Z. Guest, a socialite nascida em Boston cuja propriedade em Long Island era uma antologia de adorados clichês de classe, desde carpetes com estampa de onça, para disfarçar as marcas das patas enlameadas dos cachorros, até as orquídeas de estufa que ela gostava de exibir em vasos plásticos.

Depois a Sotheby's leiloou os objetos de Greentree, a propriedade de John Hay Whitney em North Shore, no início deste mês. Na época, a maioria das pessoas se concentrou no recorde de US$ 104,1 milhões que um comprador anônimo pagou pelo Picasso da Fase Rosa de Whitney. Mas para estudantes de história social a verdadeira preciosidade foi o catálogo do leilão que vendeu os pertences da casa.

Com fotografias de ambientes que poderiam ser os cenários de "A História da Filadélfia", o catálogo documenta um dos poucos mundos que permaneceram fora do alcance das câmeras. A arte que havia em Greentree era incomparável.

Mas, de acordo com sua classe, os Whitney não exibiam seus Van Gogh com refletores dirigidos e solenidade de mausoléu. Eles os tratavam como decoração, nem mais nem menos importante que os cofrinhos para moedas, chifres para pólvora esculpidos e cães de Staffordshire colocados sobre todas as superfícies. Longe de receber qualquer status especial, o Picasso ficava pendurado discretamente em uma sala de estar repleta de quinquilharias, que parecia uma casa de bonecas forrada de chintz de uma criança realmente estranha. É preciso apertar os olhos para perceber que ele está lá.

Mas a melhor visão do gosto excêntrico da classe alta talvez seja a que está hoje na Christie's, que inicia na próxima quinta-feira um leilão de três dias do espólio de Doris Duke. E quem foi Doris Duke?, alguns poderão perguntar. Nascida em 22 de novembro de 1912 em Nova York, filha única de James Buchanan Duke, que fundou a American Tobacco Co. e a Universidade Duke, Doris herdou uma imensa fortuna quando seu pai morreu em 1925. Doris tinha 12 anos na época e ficou presa para sempre ao rótulo de "a menina mais rica do mundo".

A saga de Doris Duke sempre tendeu a se desenrolar como um drama moral ao som de violinos, do tipo que exige que os ricos morram sozinhos e arrasados pelas drogas, ou pelo menos na penúria. Mas se os detalhes da morte de Duke em 1993 certamente foram horríveis (drogada e enganada por sicofantas, pelo menos foi o que disseram reportagens na época), as afirmações gerais de seus obituaristas de que a riqueza não pôde comprar a felicidade hoje parecem dignas de risos.

Segundo amigos dela, Doris Duke foi muito feliz. E qualquer delícia que não pudesse obter de outro modo ela comprava. Durante uma longa vida, Duke adquiriu dois maridos (o socialite James Cromwell e o playboy Porfirio Rubirosa) e uma série impressionante de amantes, pelo menos cinco casas e coisas para enchê-las vindas de todo o mundo.

"Ela gostava de coisas muito finas, e estava disposta a pagar por isso", disse Hutton Wilkinson, um designer que colaborou com o decorador de Los Angeles Tony Duquette, o célebre proponente do capricho barroco na arrumação da casa de Duke na Califórnia, Falcon Lair [Ninho do Falcão].

"Ela gostava de coisas que pudesse pintar e colar conchas por cima. Coisas orientais que às vezes não eram tão maravilhosas", disse Wilkinson. Ele explicou que Duke tinha um termo para esses objetos: chamava-os de "diversão chinesa".

Existe farta diversão chinesa no leilão da Christie's e abundantes caprichos, juntamente com coisas opulentas como o espelho Badminton, um exemplo virtuosístico da arte do entalhe, originalmente feito para o duque de Beaufort, para o Quarto Chinês de sua propriedade inglesa, Badminton House. A Christie's disse que numa estimativa modesta ele será vendido por US$ 250 mil a US$ 400 mil.

Há conjuntos de móveis imponentes do século 18. Há objetos de origem real duvidosa. Há remanescentes de uma adega de vinhos montada antes de 1936 e acumulada em tal quantidade que Duke nunca conseguiu esgotá-la. Há uma coleção de jóias que segundo alguns especialistas é o pretexto para o leilão, cujo beneficiário é uma entidade filantrópica bilionária criada pelo testamento de Duke, que não deixou herdeiros diretos.

Mas o mais interessante lá é uma visão de cápsula do tempo de um modo de vida opulento, excêntrico e em vias de desaparecimento, repleto de tapetes do Turquistão comidos por traças, tapeçarias manchadas por cachorros, coleções de rochas e também espécimes dos gostos católicos dos ricos, desenvolvidos em casas onde a mobília era movida, repintada, re-estofada, mas nunca descartada. Vistos em conjunto nas salas de exposição da Christie's no Rockefeller Center, os despojos parecem a evidência fóssil de uma classe depositada em camadas sedimentares ao longo de eras que poderiam ser chamadas de Luís tardio, mezo-orientalista e protomoderna.

"Doris Duke tinha muita confiança no que aprovava ou detestava", disse Nelson W. Aldrich, autor de "Old Money: The Mythology of Wealth in America" [Dinheiro Antigo: a Mitologia da Riqueza na América] (Allworth Press, 1996).

Ela era igualmente confiante sobre o que comprava, disse Stephen Lash, presidente da Christie's nos Estados Unidos. "Não temos aquelas grandes casas de campo inglesas com gerações de pertences acumulados, onde você pode observar um estilo de vida e uma história social", disse Lash na semana passada, enquanto conduzia este repórter pelas galerias decoradas para parecer quartos de Falcon Lair ou das Fazendas Duke em Nova Jersey ou de Shangri La, a casa de Duke em Oahu (Havaí). "Ela era muito orientada pela tradição da família", acrescentou Lash.

Antes de Ralph Lauren fazer fortuna comercializando os gostos dos mais ricos que ele, a classe alta americana era uma fonte certeria de prazer voyeurista e informação social. Histórias sobre os super-ricos, seus esportes, suas uniões, seus costumes e rituais, assim como seus hábitos extravagantes, alimentavam uma pequena indústria editorial. C.Z. Guest certa vez brincou que Lauren deveria lhe pagar royalties. E não há dúvida de que hoje a versão Lauren do mundo de Guest pode ser comprada em qualquer shopping center.

Mas o original, muitas vezes imitado, não pode ser reproduzido, em parte por ser tão inerentemente peculiar e organicamente estranho. No nível de riqueza de Doris Duke, a aspiração provavelmente não influía muito em como alguém escolhia interpretar a tradição ou aparelhar uma casa ou uma vida.

"Não havia conformidade burguesa", disse Amy Fine Collins, uma correspondente especial de "Vanity Fair". "Havia várias Doris Duke, na verdade", acrescentou Collins. "Havia a 'aristo-burguesa' cujo gosto era correto e seguro de modo geral. E havia a boêmia bizarra das fantasias transgressoras que você vê no Havaí e em Falcon Lair."

A essência do gosto de Duke é que "ele não se limitava pelas regras habituais de decoro", disse Collins. "É essa intersecção onde o escalão mais alto e o mais baixo se encontram." Doris Duke decorava do mesmo modo que convivia socialmente, preferindo a companhia de empregados à dos aristocratas, como havia feito a rainha Vitória.

Ela comprou coisas das propriedades de lorde Acton; de sua sogra, a socialite Eva Stotesbury; de William Randolph Hearst; de Imelda Marcos; e de Mallett, o renomado comerciante inglês de móveis do século 18 e 19. Mas não hesitava em comprar uma pechincha na loja de departamentos Gimbels.

A mesma mulher que encomendou painéis de mármore esculpidos na Índia e incrustou lápis-lazúli em um banheiro gostava de "ficar conversando conosco quando estávamos colando e costurando coisas", disse Wilkinson, referindo-se ao ateliê de Duquette em Los Angeles. "Ela fazia o que queria", ele acrescentou. "Você poderia dizer azul ou cor-de-rosa, e ela o acatava até certo ponto."

Em Falcon Lair, Duke criou uma sala ao redor de um espelho veneziano do século 18, disse Wilkinson. "Então, no instante em que a sala ficou pronta e maravilhosa, ela levou o espelho para Nova Jersey. Essa é a prerrogativa dos super-ricos, fazer o que querem", ele disse.

Simon Teakle, chefe do departamento de joalheria da Christie's, explicou que Duke "basicamente não precisava provar nada a ninguém". Nem você precisaria, se tivesse na gaveta da penteadeira um diamante Tifanny de 20 quilates (lote 110, avaliado em US$ 800 mil a US$ 1,2 milhão). Extravagância despreocupada prova que o dinheiro pode trazer felicidade. Ou não? Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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