Qualificação para ser psicanalista vira batalha na Inglaterra

D.D. Guttenplan
Em Londres

Quem é o dono da psicanálise? Essa questão está no centro da mais recente batalha travada aqui, no contexto das Guerras Freudianas, o embate épico (ou como o próprio pai da psicanálise teria dito, interminável) pelo legado de Sigmund Freud, psicoterapeuta pioneiro, cartógrafo do inconsciente e ex-morador de Hampstead, a área arborizada no noroeste de Londres, onde a concentração de divãs de terapeutas por quilômetro quadrado pode ser ainda maior que a de Upper West Side, na ilha de Manhattan.

No final do ano passado, um novo grupo que se denomina Conselho de Psicanálise enviou uma carta solicitando aos psicoterapeutas britânicos que atendessem a determinadas qualificações para terem direito a fazer parte do "registro de praticantes" da organização. A Sociedade Psicanalítica Britânica, o quartel-general da análise freudiana clássica, respondeu com uma declaração acusando membros do conselho de "iludirem a população quanto ao seu treinamento e qualificações".

A partir daí, a briga começou para valer. Um dos fundadores do conselho - que é uma organização profissional, e não uma instituição de treinamento - respondeu com uma carta descrevendo a ação da sociedade como sendo "uma resposta fóbica ao crescimento, conforme simbolizado no mito edipiano". Um opositor do conselho, por outro lado, chamou o novo grupo de "uma organização de imitadores e embusteiros".

Mais recentemente, o site da sociedade na Internet incluiu uma carta de repúdio à instituição adversária, descrevendo o conselho como um dispositivo criado para permitir que os terapeutas "se passem por psicanalistas treinados perante a população". Segundo a lei britânica, o fato de alguém "se passar por alguma coisa" se constitui em uma forma de fraude. Portanto, o texto equivaleu a uma declaração de guerra.

Susie Orbach, terapeuta famosa, integrante ativa do conselho e autora do best-seller "Fat is a Feminist Issue" ("A Gordura é uma Questão Feminina") e outros livros, diz que disputa já teve um "efeito negativo" sobre a vida intelectual britânica. Para ela, o argumento da sociedade de que o título de psicanalista "não se refere àquilo que o profissional faz, mas ao que ele foi treinado para fazer", é uma restrição disparatada e espúria que se tentou impor à área.

"Eu faço o trabalho", afirma ela. "As minhas contribuições são contribuições à psicanálise, a sua teoria e à prática clínica, e não a outro campo".

Aparentemente, essa seria uma briga paroquial em torno de rótulos e credenciais, uma tempestade em uma xícara vienense de chá - ou, na pior das hipóteses, uma querela profissional. Mas não é necessário sondar muito profundamente os protagonistas para descobrir que o que se presencia também é uma batalha em torno da natureza da terapia em si - o que ela é, o que faz e como funciona. E se torna rapidamente nítido que, além de controvérsia intelectual, trata-se também de uma luta feroz por dinheiro, poder e prestígio. Afinal de contas, os sujeitos envolvidos são profissionais do ego.

A raiz dessa batalha é, de certa forma, algo peculiar ao Reino Unido. Ao contrário da psicoterapia norte-americana, que é regulamentada pelos Estados (sendo que alguns, incluindo Nova York, a partir do ano que vem, credenciam os psicanalistas como uma categoria separada), a psicoterapia britânica é completamente regulamentada pelo governo. Além disso, até recentemente, se exigia da maior parte dos psicanalistas nos Estados Unidos um diploma em medicina.

Os analistas britânicos, no entanto, assim como outros da Europa, seguem o ponto de vista expresso por Freud no seu ensaio "Sobre a Análise Leiga", e nunca exigiram treinamento em medicina ou estudos de psicologia em nível de graduação. E devido ao fato de quase toda a psicoterapia no Reino Unido funcionar fora do âmbito do Serviço Nacional de Saúde, o governo continua adotando uma postura neutra. Legalmente, qualquer pessoa suficientemente ousada pode se denominar psicanalista no Reino Unido. Mesmo assim, as discussões e efeitos da polêmica provavelmente vão reverberar em ambos os lados do Oceano Atlântico.

"O mesmo conflito existe nos Estados Unidos", afirma Jaine Darwin, presidente da divisão de psicanálise da Associação Psicológica Americana. "Aqui ocorrem as mesmas discussões quanto aos padrões exigidos para a profissão", acrescentou, referindo-se ao licenciamento, exigências de treinamento e registro governamental.

Algumas dessas batalhas vêm sendo travadas há anos. Em 1989, a Associação Psicanalítica Americana - que exigia que os seus membros fossem formados em medicina - concordou em chegar a um acordo referente a um processo antitruste movido contra ela, permitindo que psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e outros profissionais que trabalham na área de saúde mental passassem por treinamento em análise.

Essa abertura para o mundo externo, apesar de cercada de rancores, provavelmente salvou a psicanálise norte-americana da extinção. (No Reino Unido, os membros da Sociedade Psicanalítica Britânica têm, em média, 65 anos de idade).

Porém, o fluxo de novos analistas gerou uma nova categoria de problemas. Os novos candidatos concordaram com o tradicional regime de treinamento: um trabalho pessoal de análise quatro ou cinco vezes por semana, durante vários anos, e um certo número de sessões de análise supervisionadas para treinamento, em que o candidato atende aos pacientes, também quatro ou cinco vezes por semana, sob supervisão.

Mas houve quem quisesse saber o que haveria de tão mágico nessas quatro sessões por semana? Por que não três ou duas sessões semanais? Haveria uma diferença real entre psicoterapia analítica e psicanálise?

Essas e outras perguntas estão sendo formuladas atualmente no Reino Unido. Segundo Joseph Schwartz, aquilo que começou como "uma simples disputa jurisdicional - como uma briga entre sindicatos rivais" -, tem o potencial para se transformar em algo bem mais interessante. Norte- americano radicado na Grã-Bretanha e autor do livro "Cassandra's Daughter: A History of Psychoanalysis" ("A Filha de Cassandra: Uma História da Psicanálise"), Schwartz é físico formado em Berkeley, assim como terapeuta registrado junto ao Conselho de Psicanálise.

Desde aquele dia em 1911, quando Alfred Adler e seus seguidores deixaram a Sociedade Psicanalítica de Viena, a história da psicanálise tem sido famosa pelas divisões. Ainda assim, todos os psicanalistas compartilham de certas convicções: a importância do inconsciente, por exemplo. E o próprio legado de Freud é um ponto central. O fato de o pai da psicanálise ter-se sentido maltratado pelos acadêmicos vienenses é um dos motivos pelos quais o treinamento psicanalítico ainda é feito majoritariamente em instituições privadas, ao invés de em departamentos universitários.

Modeladas em parte pelas suas histórias divergentes e em parte pelas culturas nacionais diferentes, as psicanálises britânica e norte-americana se tornaram instituições bastante diferentes.

No Reino Unido, o encorajamento à análise leiga e a influência de figuras de Bloomsbury, como Virginia Woolf, que publicou os escritos de Freud em inglês, e cujo irmão, Adrian Stephen, recebeu treinamento psicanalítico, conferiram à psicanálise um sabor literário distinto. A refugiada húngara Melanie Klein, com a sua ênfase nas experiências internas, na inveja e na agressão, tornou-se figura dominante na psicanálise britânica de pós-guerra.

Durante o mesmo período nos Estados Unidos, a vasta maioria dos psicanalistas era também formada por médicos. Uma conseqüência disso foi que a prática psicanalítica nos Estados Unidos se desenrolou muito mais em ambientes institucionais, como hospitais ou asilos. Uma outra conseqüência foi a perda gradual do prestígio da psicanálise, à medida que a psiquiatria, com o seu arsenal crescente de drogas antidepressivas e antipsicóticas, se voltava para a farmacologia e deixava de lado a cura pela conversa.

Ambos os lados da batalha atual travada no Reino Unido colocam a prática clínica no coração da psicanálise. Aqui as diferenças são tão políticas quanto teóricas. Os analistas de hoje já estão livres para minimizar a importância conferida por Freud ao instinto.

Embora a exigência de sessões analíticas quatro ou cinco vezes por semana garanta um trabalho estável para os candidatos a analista em treinamento, esses aspirantes terão que competir para conseguir pacientes em um mundo encantado com as soluções rápidas, quer tenham elas saído de uma garrafa ou da clínica de um terapeuta comportamental, e onde a superioridade da psicanálise - que já foi comumente descrita como "o padrão-ouro" da terapia - não é mais tida como verdade inquestionável.

Julia Fabricius, próxima presidente da Sociedade Psicanalítica Britânica, diz: "A psicanálise como uma disciplina acadêmica está aberta a todos". Mas ela defende as qualificações exigidas pela sociedade. Julia acrescenta que não vê os psicoterapeutas que não são analistas como "cidadãos de segunda categoria".

Robert Maxwell Young, psicoterapeuta com formação psicanalítica na Grã-Bretanha, e formado em Yale, além de ex-historiador da ciência da Universidade de Cambridge, está fora dos dois campos. Embora observe que foi detentor da primeira cadeira de estudos psicanalíticos na Europa, na Universidade de Sheffield, na Inglaterra, ele não é membro da sociedade. E não deseja ingressar no conselho. "Não freqüento festas para as quais não fui convidado", diz ele, referindo-se às exigências do conselho para o reconhecimento do título de psicanalista. "Mesmo assim, tenho pesadelos devido ao fato de não ter permissão para freqüentar as reuniões psicanalíticas", confessa.

O que confere ainda mais urgência à polêmica quanto ao Conselho de Psicanálise é a impressão de que, nos próximos anos, a psicanálise no Reino Unido será regulamentada. Listas e diretrizes serão elaboradas. E os campos de batalha estão sendo formados para decidir quem vai determinar essas diretrizes e manter as listas. Polêmica sobre os atributos profissionais estende discussão à natureza da psicanálise Danilo Fonseca

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