"Six Feet Under" mantém mescla inconfundível de humor e drama

Melanie McFarland

Quando o luto domina a programação, a televisão costuma murchar completamente. Inclusive quando as TVs de notícias 24 horas nos inundam com trombetas e réquiens, como vimos nessa semana de funeral (em que os EUA se despedem do ex-presidente Ronald Reagan).

Ou então vai ver que é o poder da morte que sucumbe diante do clamor da vida real. E o pior é que isso pode ser desagradável, como mostram os "papa-defuntos" estridentes do novo reality show "Family Plots", do canal A&E.

Vai ver que é por isso que os espectadores fiéis à série "A Sete Palmos"
("Six Feet Under", já exibida no Brasil pela HBO, Warner Channel e pelo SBT) sempre aguardam com prazer uma nova temporada. Porque, com todo o desajuste, a bagunça e a depravação que imperam na casa funerária dos Fisher & Diaz, cada episódio te traz a sensação de que a vida é coisa para ser apreciada com carinho. Claro que ela também é marcada pela inevitabilidade e, por que não, pela banalidade da vida, só isso.

Mas uma série de surpresas e sustos ao longo do caminho obscurecem todo esse conceito de que a vida é um presente. Foi o que aconteceu com Nate Fisher (Peter Krause) na última temporada, depois que sua mulher Lisa (Lili Taylor) sumiu e logo depois apareceu morta.

A estréia da quarta temporada nos EUA, domingo passado (06/06), às 9h na HBO americana, tratou do conflito entre a vida pública e o luto seco e particular, especialmente quando Nate mede forças com a família de Lisa sobre o destino dos restos mortais da falecida.

E mesmo que a cena final do episódio não seja antológica, seu elemento trágico é visceral o bastante para manter a atenção do público por 12 episódios. É bom que seja assim, para que "A Sete Palmos" se liberte de vez da sua problemática terceira temporada. Neste perído a série carregou a mão no desespero em detrimento do humor, provocando muitas queixas entre os fãs.

Foi quando cada integrante da família Fisher teve que atravessar um inferno particular para alcançar a evolução. Simultaneamente vimos a lenta agonia do relacionamento homossexual de David (Michael C. Hall) e Keith (Mathew St. Patrick), o casamento desapaixonado de Nate e Lisa, e também o sofrimento de Claire (Lauren Ambrose) com mais um namorado-roubada, e mais aborto- tudo isso pesou no estômago.

Mais cansativo ainda foi o destaque dado à tensa Lisa na vida de Nate, relegando Brenda (Rachel Griffiths) a um papel secundário. Nem mesmo o alto astral de Ruth (Frances Conroy) foi o bastante para amenizar o panorama.

Então se alegrem, porque os próximos episódios da nova temporada mostram que "A Sete Palmos" voltou a encontrar seu bom caminho. As mortes que sempre abrem cada episódio são novamente monólogos bem humorados, em vez de meras introduções às histórias. O episódio que os americanos verão semana que vem é especialmente hilário, embora os mortos não assombrem mais os Fishers como antigamente. Sem falar que personagens conhecidos, e deliciosamente insanos, aparecem nas situações mais surpreendentes.

O curioso é que o criador da série, Alan Ball (o roteirista que concebeu nada menos que "Beleza Americana"), e mais os roteiristas e diretores atingem os objetivos voltando aos assuntos que dominaram na primeira temporada - a vida e o dia-a-dia, como acontecem depois que um ente querido desaparece. Alguns deles não podem voltar, é claro.

Rico (Freddy Rodriguez), por exemplo, é um outro homem em relação àquele jovem pai entusiasmado que conhecemos, e o caso fútil dele com uma garota stripper continua a afetá-lo. Ruth ainda está às voltas com o novo casamento, com George (James Cromwell), um relacionamento que em breve se tornará um tanto desagradável.

Algumas coisas mudaram pouco ao longo das quarto temporadas. Claire ainda está empacada em sua pose cool e nihilista. Só que, nesta temporada, quem lhe encanta é uma artista performática inquieta e audaciosa ( participação especial de Mena Suvari).

David e Keith continuam instáveis, sendo que o novo trabalho de Keith como segurança de uma pop star mimada ( vivida por Michelle Trachtenberg) traz novo fôlego e uma certa inversão de papéis.

Ainda há a temática da evolução e da auto-superação, e nesse ponto Nate cumpre uma dolorosa travessia. A tristeza pela perda de Lisa é ainda pior do que o sentimento pela morte do pai, o patriarca Nathaniel Richard Jenkins). Nate só veio a lamentar a morte do pai depois de constatar que deveria tê-lo conhecido melhor. Lisa morreu justamente quando Nate percebeu que a amava. Agora a vida dele está em suspenso e, ao contrário de antes, Brenda (Rachel Griffiths) poderá não estar por perto para lhe confortar.

As "viradas" na história são todas boas e certas, mas ainda melhor é saber que "A Sete Palmos" redescobriu o jeito de celebrar a vida e o dia-a-dia no meio da tristeza e da morte, ,mesmo quando a história fica meio bagunçada.

Esse sempre foi o motivo da alegria de assistir à série, aquele calorzinho silencioso que você sente quando rolam os créditos no final, acompanhado da ansiedade de saber que ainda faltam sete dias para o próximo episódio. Tudo isso comprova que estamos diante de uma grande narrativa e que, felizmente, o programa reencontrou seu veio emocional, mais uma vez. Pena que o resto da televisão não possa viver o luto de maneira tão apaixonante. 4ª temporada da série, que fala sobre a vida, a morte e o cotidiano, estréia nos EUA Marcelo Godoy

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