Como advogado, John Kerry sempre teve os olhos em um objetivo maior

Mike Williams
Cox News Service

O ano era 1972, e de repente John Kerry estava numa espécie de impasse. Tinha 28 anos e um currículo já impressionante: formado em Yale, oficial da marinha três vezes ferido e condecorado pela atuação no Vietnã, crítico vigoroso da guerra, com um depoimento no Congresso em 1971 que havia lhe projetado em todo o país.

Mas agora havia também um ponto negativo: uma derrota eleitoral. Sempre um ser politicamente ambicioso, Kerry saiu direto de seu papel na militância antiguerra para uma campanha por uma vaga no Congresso, disputando num distrito de Massachusetts. Perdeu, contra todas as expectativas.

A próxima etapa na carreira cumpriu a trajetória de tantos políticos em formação: a escola de direito. Mas, após se formar no Boston College Law School, em vez de abrir um escritório próprio ou de trabalhar na defensoria pública, Kerry partiu para a acusação- se tornou um promotor. Isso deu um toque de "manutenção da lei e da ordem" ao seu currículo, que hoje em dia seu comitê de campanha aproveita para usar contra os conservadores que o acusam de ser um típico liberal.

"Sempre tive a mente de um promotor, a propensão para ser um promotor", disse Kerry ao jornalista Jeffrey Toobin, que compôs um extenso perfil dele para a prestigiosa revista "New Yorker". "Sempre foi o que eu quis fazer, mesmo nos tempos da escola. Havia uma norma em Massachusetts que permitia aos estudantes de direito o exercício da promotoria diante de júris com seis pessoas, e eu tive uma experiência inacreditável antes mesmo de me formar."

A escolha profissional ficou bem de acordo com o que parece ser um tom constante na biografia de Kerry. Foi uma escolha séria, direta e ambiciosa de alguém determinado a cumprir carreira no serviço público e a trabalhar dentro do sistema, mesmo quando se opõe a ele, como aconteceu na época da guerra do Vietnã.

Mas a vida pregressa também revela outras características de Kerry, e algumas servem de alvo para os críticos. Sua formação privilegiada e as conexões políticas abriram portas, enquanto a ambição e as qualidades de liderança o fizeram se projetar, algumas vezes passando por cima de outros com maior experiência. Kerry sempre teve um gosto pela publicidade, que alguns consideram como uma tendência exagerada à autopromoção.

E sempre existiu o desejo -que confessava desde os tempos do ensino médio- de concorrer a um cargo público.

Um administrador no estilo "rolo compressor", Kerry tinha 32 anos quando terminou a escola de direito e foi contratado para o escritório da Procuradoria do condado de Middlesex. Quem o empregou foi John Droney, um político bem experiente que trabalhara nas campanhas de John F. Kennedy.

Kerry tinha suas próprias conexões com os Kennedys. Chegou a namorar uma meio-irmã de Jacqueline Kennedy, no segundo grau e na universidade. Kerry conheceu o carismático jovem presidente em reuniões de família, sem nunca esconder sua profunda admiração por Kennedy.

Mas ostentar a força das conexões com os Kennedys no escritório de Droney foi algo que provocou polêmicas. Em questão de meses, Droney nomeou Kerry como seu primeiro-assistente e depois administrador-geral da Procuradoria. Foi uma decisão que levantou sobrancelhas e despertou fagulhas de inveja na repartição.

"John tinha lá os seus críticos", segundo Peter Agnes, que trabalhava com Droney na época e que agora é juiz na Corte Superior de Massachusetts. "Mas o mundo da lei é uma meritocracia. O que faz a diferença é a maneira como você atua. Havia ciúmes e ressentimentos com a perspectiva de um mero recém-graduado ser nomeado primeiro-assistente. Mas John conquistou muitas pessoas porque era um homem de ação".

De acordo com colegas promotores da época, Kerry era uma espécie de rolo compressor. Acumulou a incumbência de reorganizar e expandir a Procuradoria, servir de porta-voz para Droney - que sofria da doença de Lou Gherig (espécie de esclerose) -e ainda arranjava tempo para atuar como promotor em alguns casos bem destacados.

"Ele chegava lá às 7 da manhã e trabalhava até tarde da noite", disse William Codhina, outro ex-promotor daquele escritório e que agora trabalha para a firma de advocacia Nixon, Peabody. "Havia muito o que fazer."

Quando Kerry chegou, era um escritório à moda antiga, que ele logo tratou de modernizar. Como o dinheiro federal começava a entrar com maior intensidade para ajudar o cumprimento da lei, ele contratou um procurador que ajudou a obter mais fundos federais para empregar novos promotores e dar partida a novos programas.

A equipe frutificou, de uma dúzia para cerca de cem funcionários, com um número significativo de mulheres entre os novos contratados. Kerry abriu um escritório para ajuda às vítimas e priorizou o trabalho da promotoria, de forma que os criminosos mais perigosos fossem levados à julgamento mais rapidamente. E também criou equipes especiais para combater o crime organizado e incêndios premeditados.

Por aqueles anos, ele se orgulha da provisão de 11.000 casos, embora o jornal "The Boston Globe" tenha informado que esse total chegava a apenas 7.250 casos.

Apesar dessa discrepância, os colegas dizem que realmente Kerry trabalhava com muito empenho e que trouxe inovações impactantes ao escritório.

"Ele tomou algumas decisões muito arrojadas quando às operações do dia-a-dia na repartição", disse John Markey, outro ex-colega que agora trabalha num escritório próprio. "Ele era um cara carismático, um líder. Gostava dele, mas, como todo mundo, ele tinha alguns que eram amigos e outros que não eram. Mas acho que ele ganhou a admiração e o respeito da maioria porque não fugia da luta".

"John Kerry ao Vivo"
Embora seu trabalho principal tenha sido na administração legal, Kerry também atacava no tribunal, "e não fugia dos casos mais difíceis", garante o ex-promotor Codhina.

Kerry foi o promotor contra Howie Winter, um mafioso que atuava nos jogos de azar e que foi condenado a 20 anos de prisão.

Mas, para muitos dos ex-colegas, o caso mais notável foi o de George Edgerly, que havia escapado de uma acusação de assassinato mas que depois se viu envolvido num caso de estupro.

Kerry assumiu o caso, apesar dos receios de vários colegas. A vítima do estupro era uma prostituta que havia tentado extorquir dinheiro de Edgerly.

"Era o típico caso extremamente delicado", relembrou Markey . "As pessoas disseram ao John para não pega-lo, mas ele assumiu a promotoria no tribunal e venceu. Eu lembro que depois fomos ao pub Barrister, e todos deram parabéns ao Kerry".

Peter Agnes, que agora soma 15 anos de experiência observando advogados em seu trabalho como juiz, também ficou impressionado.

"Ele realmente tinha uma presença forte. John surpreendeu muita gente com a sua postura e o seu conhecimento da lei. Ele verdadeiramente tinha o dom da boa atuação num tribunal."

Esse perfil tão destacado não passou desapercebido. Seu desembaraço diante das câmeras e a boa disposição para aparecer diante da imprensa fez com que um jornalista de Boston o apelidasse de "John Kerry ao Vivo."

Com todo esse sucesso, a carreira de Kerry como promotor foi relativamente curta. Em 1978, Droney enfrentou um difícil adversário democrata, ao tentar a reeleição para a Procuradoria. Abatido pela doença, com a voz trôpega, Droney contou com Kerry para representá-lo na campanha. E o veterano conseguiu ganhar, por pouco.

Durante a campanha para eleição do procurador, um juiz da Corte Superior notificou Kerry por uma propaganda política que violava uma lei de sigilo imposta num caso de assassinato. Kerry admitiu que ajudou a fazer a propaganda, mas o juiz se absteve de impor qualquer penalidade.

Escritório particular
Depois de alguns meses da vitória de Droney, Kerry se afastou da repartição, abrindo um escritório com outro ex-promotor.

Kerry alega aos repórteres que ele na época queria uma nova experiência, e que Droney, animado com a reeleição, tomou novo fôlego para cuidar mais diretamente da Procuradoria . Kerry teria sentido que os objetivos estavam cumpridos, e de que era hora de mudanças.

Seu período como advogado autônomo também foi curto. Sua firma se especializou em erros médicos e mortes que poderiam ter sido evitadas, e ele acabou trabalhando pouco em defesa criminal.

Um caso de repercussão foi quando ele representou pacientes que contrataram transplantes de cabelo, mas que tiveram implantadas apenas fibras de carbono em suas cabeças. A equipe de Kerry ganhou o primeiro caso e a empresa de transplantes de cabelo acabou fazendo acordos para os casos subseqüentes.

Kerry também foi indicado oficialmente para defender uma pessoa no tribunal, mas resolveu desistir. "Eu percebi que não queria o rapaz solto nas ruas", Kerry contou ao jornalista Toobin, da New Yorker. "Um advogado tem que forçar uma certa barra para defender alguém como aquele rapaz, e querê-lo em liberdade. Eu sei que nosso sistema diz que qualquer um tem direito a um representante, mas eu simplesmente não consegui aceitar aquele caso."

O caso de maior repercussão da firma de Kerry foi quando eles conseguiram um novo julgamento e depois até a libertação de George Reissfelder, um bandido "pé-de-chinelo" envolvido num caso de assalto e assassinato, e que chegou a cumprir 15 anos por uma morte que não cometeu.

Anos depois, Kerry admitia que Reissfelder não era nenhum anjinho, mas dizia que o caso mostrava que o sistema comete erros que devem ser corrigidos.

Reissfelder foi libertado em 1982, na época em que Kerry concorria como vice-governador de Massachusetts. Ele foi fotografado com o prisioneiro libertado apenas semanas antes da eleição, num timing bem apropriado.

Kerry ganhou a disputa, encerrando de vez sua carreira como advogado. Dois anos depois, se lançou para o senado.

E nenhum dos colegas de Kerry do tempo em que ele era promotor, está surpreso em vê-lo concorrendo à presidência.

"Ele não falava que iria concorrer a cargos eletivos, mas sempre senti que a política estava no sangue dele", segundo Codhina, que tem participado ativamente de todas as campanhas de Kerry. "Ele se importava com os assuntos, e pensava sobre eles num nível tão profundo, como eu nunca vi antes, em qualquer outra pessoa." Eleições EUA 2004

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