EUA se perguntam como reduzir as mortes de jovens no trânsito

Jenny Deam
The Denver Post
Em Parker, Colorado

Apenas algumas horas após a morte de Michael Budge e Sean Student, ambos de 17 anos, em um violento acidente automobilístico, Caitlin Trent, uma adolescente de 15 anos, da cidade de Parker, falava ao telefone com uma amiga sobre os dois garotos que ambas conheciam.

Elas falaram sobre detalhes relativos ao acidente: o carro, dirigido por Todd Stansfield, de 16 anos, estava a quase 150 km/h em um trecho montanhoso de estrada, onde a velocidade máxima permitida era de 56 Km/h.

Como os dois foram estúpidos em correr tal risco, comentaram as garotas. Mas tarde, naquela noite, em uma conversa na Internet, Caitlin se recorda de que a amiga confessou meio timidamente que dias depois do acidente, quando saiu com o namorado, o carro em que estavam foi parar em uma vala à beira da estrada.

Eles estavam "à deriva", que na gíria dos adolescentes norte-americanos significa acelerar o carro a toda velocidade e fazer manobras bruscas. O objetivo é fazer com que o carro se equilibre sobre apenas duas rodas.

"O que é que vocês tinham na cabeça? Depois de tudo o que aconteceu?", indagou furiosa Caitlin.

"Não sei", respondeu a amiga. "Foi uma doideira de momento".

Quando tragédias acontecem, como a batida de 18 de junho que custou a vida de três adolescentes queridos em Parker, assim como a do homem de 77 anos que dirigia o outro carro, a maioria das pessoas acredita que o fato vá marcar profundamente os outros adolescentes.

Porém, menos de 24 horas após as mortes, autoridades do Condado de Douglas anunciaram ter parado um motorista de 16 anos, próximo ao local do acidente fatal, dirigindo a 97 km/h.

Será que existe algo capaz de abalar a crença dos adolescentes de que são invencíveis? "Hoje todos estão falando sobre o que aconteceu", diz Ryan Bohnenkamp, um adolescente de 15 anos que estuda na Escola de Segundo Grau Ponderosa, a mesma que freqüentavam os garotos mortos no desastre. "Mas o fato provavelmente não afetará as pessoas na estrada. Provavelmente afetará mais os pais do que os jovens".

Após acidentes terríveis como este, pais, educadores e autoridades policiais prometem encontrar formas de impedir que os adolescentes morram no trânsito.

Nos últimos anos, as exigências para a obtenção da carteira de habilitação ficaram mais rígidas em todos os Estados. Na semana passada, no Colorado, a lei foi modificada para exigir que adolescentes andem com uma permissão para aprender a dirigir por pelo menos um ano. Os adolescentes podem obter uma permissão aos 15 anos, caso se matriculem em uma auto-escola; aos 15 anos e meio, se fizerem curso de direção defensiva; e aos 16, se não fizerem curso algum.

Automóveis envolvidos em acidentes são exibidos em escolas de segundo grau. Contratos envolvendo a promessa de comportamento seguro ao volante são firmados entre os adolescentes e os seus pais. Até mesmo adesivos com números telefônicos para ligações gratuitas são fornecidos para que aqueles que testemunhem loucuras de motoristas possam denunciar os adolescentes irresponsáveis aos seus pais.

"Posso afirmar que o que não funciona é a educação", diz Susan Ferguson, vice-presidente de pesquisas do Instituto de Seguros para a Segurança nas Estradas.

"Não é que os adolescentes não saibam quais são os riscos. Eles sabem. Sabem que o que estão fazendo é incauto e perigoso", diz ela. "Mas tudo tem a ver com o momento. Correr riscos. A exuberância da juventude".

Em 2002, 5.933 adolescentes morreram em desastres automobilísticos, a principal causa de morte de jovens entre 16 e 19 anos nos Estados Unidos. Embora o número total de mortes de adolescentes tenha caído 40% com relação ao recorde de 9.940 fatalidades registradas em 1979, os números estão subindo. Ninguém parece saber se esse novo incremento é apenas uma flutuação estatística ou se ele sinaliza uma tendência.

O índice de mortes em 2002 (o último ano para o qual há estatísticas disponíveis) foi 6% mais alto que em 2001. Aos 16 anos, um motorista corre um risco quase três vezes maior de se envolver em um acidente do que aos 18 ou 19 anos.

Dois em cada três adolescentes mortos em desastres são do sexo masculino e cerca de dois terços das mortes ocorrem quando um outro adolescente está ao volante. Mais da metade ocorre entre a sexta-feira e o domingo.

Para reduzir as mortes de adolescentes no trânsito, Ferguson defende que seja estabelecido um limite para a quantidade de jovens nos automóveis. As estatísticas demonstram que quanto maior o número de passageiros no veículo, maior a chance de que um acidente aconteça.

Um motorista de 16 anos dirigindo sozinho tem 1,5 mais chance de se acidentar do que um outro de 30 anos. Já quando há três passageiros no carro, esse risco passa a ser seis vezes maior, segundo o estudo.

Quando há mais pessoas no carro, aumentam as distrações e as pressões por parte dos colegas. Ligações telefônicas, música, conversas e incitações para que o motorista dirija mais rápido são fatores que conspiram contra a inexperiência.

Em 1997, a Califórnia se tornou o primeiro Estado a limitar legalmente o número de passageiros permitidos em automóveis dirigidos por motoristas adolescentes. Atualmente cerca de metade dos Estados do país implementa alguma restrição quanto ao número de passageiros. No Colorado, a única exigência é que haja um número suficiente de cintos de segurança para todos os ocupantes do veículo.

Na noite de um sábado recente, Sean Porter, de 16 anos, dirigia sozinho. Normalmente ele estaria trazendo todo mundo de volta para casa após uma sessão de cinema. Desde 18 de junho, os pais de Porter estabeleceram novas regras para o jovem motorista: ele só pode andar desacompanhado no carro.

"Quando estamos em um carro com outros adolescentes é preciso demonstrar que não temos medo da direção perigosa", afirma Caitlin Trent, que passou no seu exame para conseguir uma carteira de aprendiz.

Essa é uma atitude difícil de ser combatida, admite Mark Stolberg, gerente da MasterDrive, uma escola da cidade de Centennial que promete um curso de direção com "imersão total".

Na sua auto-escola, onde o curso custa mais de US$ 700, os adolescentes sentam-se ao volante já no primeiro dia, antes mesmo de receberem instruções em sala de aula.

"Não é algo que tenha necessariamente a ver com habilidade e conhecimento e sim com tomada de decisões", diz Stolberg. "Os nossos alunos precisam manobrar em pista escorregadia e aprendem como evitar instantaneamente uma batida".

Eles são treinados também em direção defensiva. O ódio ao volante e os congestionamentos não vão desaparecer, portanto os novos motoristas precisam aprender a lidar com esses problemas.

Jule Trent, a mãe de Caitlin, tenta adivinhar quais dos amigos das suas filhas dirige de forma prudente. Mas ela diz que o que mais a apavora é o fato de o último acidente não ter causado impacto em alguns dos adolescentes.

"A gente acha que eles vão ligar as coisas", diz ela. "Mas, por algum motivo, não o fazem. É algo que simplesmente não ocorre". Na estrada Inspirational Drive, na zona rural do Condado de Douglas, onde as colinas parecem tobogãs, uma capela foi construída à margem do asfalto.

Quatro cruzes foram cravadas no solo. Sobre a grama estão ursinhos de pelúcia, desbotados pelas recentes chuvas, e bolas de beisebol autografadas. Pedaços de automóvel ainda podem ser vistos na valeta à margem da rodovia. Uma faixa de asfalto queimado marca o local onde o carro dos adolescentes pegou fogo.

Uma caixa de metal se transformou em um painel de recados para os mortos: "Tony, obrigado por ter sido um amigo tão legal. Vou sentir saudade", diz uma nota para Tony Majestic, de 16 anos, um dos passageiros do automóvel. Adolescentes parecem não se impressionar com as perdas de seus amigos íntimos Danilo Fonseca

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