Como ser educado numa sociedade dominada pela grosseria

Felix Carroll
Albany Times Union
EWm Albany, Nova York

Com uma freqüência excessiva, Priscilla Vargas costuma deparar-se com a situação seguinte: lutando na calçada para embarcar no ônibus, ela tenta controlar as sacolas de compras com os pés, enquanto segura o seu bebê numa cadeirinha de mão. Enquanto isso, nenhum dos passageiros em volta dela se oferece para ajudá-la, e nenhuma pessoa sequer lhe oferece um lugar para que ela possa sentar.

"Eles preferem me ver sofrer, e nenhum deles é capaz de dizer: 'Com licença, senhora, posso ajudá-la?'", conta Priscilla, moradora de Albany, capital do Estado de Nova York. "É uma tristeza. A vida não é mais o que ela era anos atrás, quando as pessoas se mostravam atenciosas e gentis com você. Agora, nós precisamos lidar com toda essa indiferença..."

Os próprios fundadores da nação preconizaram que a civilidade fosse incluída como um dos seus valores fundamentais. Mas muitos constatam que este fundamento vem sendo corroído por um meio ambiente no qual predomina a acrimônia nas relações entre as pessoas.

Judith Martin, a colunista e escritora que escreve sob o pseudônimo de Miss Manners (Miss Boas Maneiras), classifica o estado atual dos relacionamentos sociais como uma "crise de grosseria", na qual muitas pessoas "deixaram de se sentir comprometidas pelas regras que preconizam ser atencioso e respeitoso com os outros".

Aqui vão alguns exemplos que ilustram de forma gritante essa situação:

  • No mês passado, o vice-presidente Dick Cheney proferiu o insulto "f...", dirigindo-se ao senador democrata Patrick Leahy, na tribuna do Senado, e nem sequer se retratou ou pediu desculpas (ele deve ter-se esquecido da recomendação de Thomas Jefferson (1743-1826, um escritor político, jurista, que foi o terceiro presidente dos Estados Unidos) de praticar a "polidez", mesmo que ela não passe de um "bom humor artificial", no dia-a-dia).

  • Em novembro passado, os fregueses de um shopping na Flórida pisotearam uma mulher, deixando-a inconsciente na calçada. Todos eles estavam dominados pela ânsia de chegar entre os primeiros a uma liquidação do Wal-Mart (no caso, o apelo do filósofo inglês John Locke em defesa da "boa vontade geral e do respeito por todas as pessoas" deve ter fugido de suas mentes).

  • E dois homens foram presos durante uma partida de baseball com o time dos White Sox de Chicago, no mês passado, por terem surrado um casal que reclamava do linguajar chulo e grosseiro que eles proferiam aos brados (talvez eles não tivessem lido a recomendação que Emily Post redigiu em 1922, segundo a qual "não se deve chamar a atenção para si" em público).

    Além disso, existem as transgressões menores do cotidiano - tais como furtar o jornal do vizinho, falar em voz alta durante um filme no cinema ou ainda fechar alguém no trânsito, que se transformaram de tal forma em lugares-comuns que alguns nem sequer se dão conta de que tais comportamentos são equivocados e que este mundo jamais irá progredir se o homem continuar a agir desta forma.

    Uma pesquisa publicada em abril pela organização Public Agenda, um grupo de pesquisas especializado em política pública, com sede na cidade de Nova York, apurou que cerca de oito entre dez americanos consideram que a falta de respeito e de gentileza constitui um problema grave em nível nacional, enquanto seis entre dez disseram acreditar que o problema está se tornando cada vez pior.

    "A falta de boas maneiras por parte dos americanos nada tem a ver com questões de etiqueta, tais como confundir garfos para salada com garfos para carne na hora de pôr a mesa", explica Deborah Wadsworth, a presidente de Public Agenda.

    "Ela diz respeito às agressões cotidianas que as pessoas cometem, as quais são provocadas por comportamentos de natureza egoísta e desleixada, e costumam ser adotadas por inúmeras pessoas quando elas estão dirigindo nas estradas, trabalhando no seu escritório, assistindo à televisão, fazendo compras em lojas, ou ainda numa multidão de outras situações nas quais elas se encontram com os seus concidadãos".

    O fator "eu não tenho nada a ver com isso"

    Felizmente (pausa para um pigarro embaraçado) ... nós não fazemos parte destas pessoas grosseiras.

    Com efeito, uma pesquisa de opinião sobre a polidez realizada no ano passado pela companhia Lenox, especializada em presentes personalizados, concluiu que cresceu consideravelmente o número de americanos que apontam o alastramento dos comportamentos grosseiros na sociedade, ainda que 80% das pessoas interrogadas considerem as suas próprias maneiras como "excelentes".

    Mas é justamente aí que mora o perigo, alertam os árbitros de etiqueta da nação.

    "Nós chegamos agora a um ponto no qual muitas pessoas mostram-se constantemente irritadas pelo fato de outras agirem de maneira grosseira com elas", explica Martin. "Então, o próximo passo será dizer: `Está bem, vamos chegar a um acordo; se eu quiser um mundo no qual eu não seja tratado com grosseria, então, eu tampouco posso ser grosseiro com os outros'. "Mas nós ainda não chegamos a essa etapa" diz Martin.

    No seu livro intitulado "Civility: Manners, Morals, and the Etiquette of Democracy" (Civilidade: as boas maneiras, a moral e a etiqueta da democracia - editora Perennial), Stephen L. Carter define a civilidade como sendo "a soma dos muitos sacrifícios que nós somos obrigados a fazer para que todos nós possamos viver juntos".

    Carter estabelece que tais sacrifícios constituem as "garantias de qualidade" da conduta civil, na qual o indivíduo se vê como interdependente em relação aos outros. Por contraste, hoje, com o automóvel - assim como em todos os casos nos quais predomina a conveniência pessoal e as preferências individuais - e com a vigência de códigos do trânsito inequívocos, tais sacrifícios não são mais exigidos. O indivíduo, portanto, retoma a primazia em relação ao coletivo.

    Carter acrescenta que a solução para restaurar a boa civilidade no país dependerá da capacidade de a sociedade reconstruir o que ele chama de "banquinho de três pés". Os três pés do banquinho - o banquinho representando o modelo tradicional da educação moral - eram a casa, a escola e o local do culto religioso. Mas, para muitas crianças hoje, explica, um, dois ou até mesmo três pés do banquinho estão faltando.

    Uma grande quantidade de jovens, sustenta o autor, aprende a maior parte dos comportamentos que ela adota a partir da cultura pop e até mesmo da política. Raros são aqueles que questionam o fato de o mundo ter-se tornado extremamente conturbado. Nesse contexto, viver dentro dele sem contudo se digladiar uns aos outros de modo primitivo requer mais cuidados do que nunca.

    Judith Martin, por sua vez, acredita que um número cada vez maior de pessoas está entendendo isso, e que, de fato, a nação está passando por uma fase de "reação" contra a má educação, "o que é uma boa coisa".

    Todos os especialistas concordam em reconhecer que neste momento o pêndulo está oscilando na direção certa. Mesmo assim, a maioria considera que a nação ainda tem um longo caminho pela frente para se reerguer a valer no campo das boas maneiras. "Eu vejo tantas coisas estranhas por aí que em muitos casos me sinto igual a Gulliver na ilha dos liliputianos", diz uma moradora de Albany.

    A boa educação em números

  • 34%: porcentagem dos americanos que classificaram as maneiras de seus concidadãos como "insatisfatórias", numa pesquisa sobre polidez realizada no ano passado pela companhia de presentes personalizados Lenox.

  • 80%: proporção daquelas mesmas pessoas que classificaram as suas próprias maneiras como "excelentes".

  • 1,135: número de casos de emprego de linguagem obscena ou injuriosa ao longo de 114,5 horas de programas de reality shows, numa pesquisa que foi divulgada no mês passado pelo Conselho Parental de Televisão.

  • 492: número de casos de conteúdo sexual na mesma pesquisa (havia mais 30 casos de violência).

  • 199: Ocorrências de censura da utilização da palavra f... em programas de TV realidade, recenseadas no levantamento da pesquisa do Conselho Parental de Televisão, o que a torna o palavrão mais freqüentemente utilizado nos programas de televisão-realidade de grande audiência.

  • 1: O lugar alcançado pela categoria "grosseria e desrespeito" como sendo a principal causa de estresse e de tensão no local de trabalho, numa pesquisa que interrogou 857 trabalhadores em companhias aéreas, de ônibus e de ferroviárias, e que foi divulgada em janeiro pelo grupo de pesquisas sem fins lucrativos Public Agenda.

  • 74: porcentagem de pessoas interrogadas que afirmaram que os americanos se tornaram mais ensimesmados e preocupados depois dos atentados de 11 de setembro; no estudo intitulado "O Agravamento das Circunstâncias", realizado pelo grupo Public Agenda.

  • 25: porcentagem destas mesmas pessoas que disseram que os bons sentimentos já tinham ficado para trás.

  • 51: porcentagem dos usuários de telefones celulares que disseram achar que os outros americanos utilizam os seus celulares de maneira "bastante" ou "muito" descortês; numa pesquisa realizada pela Harris Interactive, e que foi publicada no ano passado. As boas maneiras e a civilidade estão cada vez mais raras, mas muitos querem reagir Jean-Yves de Neufville
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