Ressurgimento de música country reflete o ambiente dos EUA

Ed Will
The New York Times News Service

George Jones e Barbara Mandrell chegaram ao topo das paradas em 1981, com "I Was Country When Country Wasn't Cool", atraindo uma onda de fãs ao gênero. Nashville estava colhendo uma onda de popularidade com o impulso do filme de John Travolta "Urban Cowboy" no ano anterior.

Travolta, elegante e sexy, fez com que até os sofisticados nova-iorquinos adotassem as roupas e botas de caubói e o passo duplo.

Agora, novamente Nashville está entrando na moda. Uma combinação de fatores fez as vendas de música country saltarem mais de 11% em junho; com 31,3 milhões de unidades vendidas, os cofres da cidade da música estão tilintando novamente.

O salto do gênero country faz parecer pequeno o aumento de 6,9% em vendas totais de discos, de acordo com a SoundScan, que acompanha as vendas da indústria da música.

A sorte do gênero parece nascer da maior variedade de artistas, com meia dúzia de novos talentos e o poder extraordinário de sobrevivência de álbuns de algumas estrelas estabelecidas, dizem os conhecedores.

Além disso, os atentados de 11 de setembro também exerceram grande papel.

Joel Burke, diretor da estação de rádio country de Denver Kgyo, tem uma analogia para explicar como a maior variedade de artistas ajudou Nashville neste ano.

"Há algo que chamo de os quatro pés da mesa country", disse Burke, referindo-se aos temas das músicas, que falam de divertimento, relacionamentos, patriotismo e religião.

"Até três anos atrás, a música country, em geral, estava andando com uma perna só", disse Burke. "Era o som popular dos relacionamentos e do amor."

O tema do relacionamento podia ser entre namorados, marido e mulher, pais e filhos, desde que fosse positivo, disse Burke, cuja estação de rádio é a mais popular de Denver.

"Outra (perna da música) é a bandeira vermelha, branca e azul", disse ele. "O sentido de patriotismo, que sempre foi grande parte da música country, realmente desapareceu por um longo tempo."

Os ataques terroristas devolveram essa perna à mesa. O super-sucesso de Toby Keith, o disco "Shock'n Y'All", apresenta dois grandes exemplos de forte patriotismo: "American Soldier" e "The Taliban Song".

A terceira perna -canções sobre valores religiosos (mais sobre fazer o que é certo do que sobre Deus)- também foi reforçada com 11 de setembro. Burke citou "Long Black Train", de Josh Turner, uma música de mensagem claramente cristã, e "Tougher Than Nails", de Joe Diffie.

"Se tivessem feito uma trilha sonora country para 'A Paixão de Cristo', a música de Diffie seria incluída", disse Burke.

"O que aconteceu depois de 11 de setembro foi que vimos a música country ficar muito séria", disse Wade Jessen, diretor das paradas de country, gospel, bluegrass e música cristã da Billboard.

Isso apenas reforçou um ditado clássico sobre country, que é um gênero musical de adultos para adultos: não se vê a angústia adolescente, mas as preocupações de adultos que já têm certa experiência de vida. "As pessoas realmente vieram para a música country porque sabiam que ali poderiam encontrar alguma coisa que realmente falasse ao seu sofrimento, depois daqueles ataques terroristas", disse Jessen. "Elas sabiam que poderiam vir para a rádio country e encontrar músicas animadoras, que as fizessem contemplar seu lugar no mundo e suas prioridades. Isso causou uma espécie de expressão básica dos valores que não tínhamos visto na música country de forma condensada em 30 anos."

A sugestão de que os tempos difíceis atraíram o público ao gênero foi confirmada por Lee Orr, coordenador da história da música da Universidade Estadual da Geórgia, em Atlanta.

Orr até levou o pensamento mais adiante. Ele disse que o country beneficiou-se da música pop, cada vez mais sem alma.

"É cada vez mais abrasiva, barulhenta e opressora", disse ele em mensagem eletrônica. "Destrói a conversa, a conexão ou o otimismo; ou seja, qualquer coisa relacionada ao enriquecimento do mundo interior, das pessoas ou da sociedade."

Ele também disse que a geração do "baby boom", hoje mais velha, quer ouvir música "calmante, humana e genuína".

Outros concordaram com a teoria de Orr. Entretanto, como observou Burke, isso não diminuir a quarta perna da música country -a do divertimento. Dois álbuns novos fizeram sucesso com suas músicas "rebeldes".
Gretchen Wilson vendeu mais de 1,2 milhão de cópias de seu álbum de estréia, "Here for the Party" -isso tudo em menos de três meses. O álbum também emplacou dois sucessos: "Redneck Woman" e a canção título.
"Redneck Woman" é um hino feminista com uma inclinação operária, cantado com um tom fanhoso, enquanto "Here for the Party" é sobre mulheres se divertindo.

O álbum de estréia de Big & Rich, "Save a Horse, Ride a cowboy", vendeu 544.000 cópias em um mês.

A lista da Billboard de 7 de agosto dos 15 álbuns country mais vendidos incluiu seis estreantes. Wilson ficou em segundo lugar; Big & Rich, Montgomery Gentry e Kenny Chesney usaram sua música para mostrar aos EUA que não tem nada de errado em divertirem-se novamente, disse John Grady, presidente da Sony Music Nashville.

"Cada um é diferente, mas o que estão todos oferecendo ao mesmo tempo é divertimento", disse ele. "O público está apreciando. (A música) fala sobre quem são e quem querem ser. Eles querem se divertir muito."

A mesa de música country de Burke agora está firme nas quatro pernas. Além disso, está coberta com uma toalha colorida de sons diferentes.

"O elemento de monotonia não está presente", disse ele. "A música country estava muito pão com manteiga, muito fórmula pronta. Eles realmente romperam com isso."

Jessen, da Billboard, concordou que durante anos o gênero cantava em uma só voz.

"Por grande parte dos anos 90, particularmente de 95 ao final da década, tivemos muitos artistas fazendo música country que não se orgulhavam disso", disse Jessen. "Era muito mais cafajeste, orientada para o popular e comercial. Não é que seja bom ou ruim... simplesmente é assim. Acho que esse grupo de novos artistas em Nashville ajudou a cidade a voltar ao seu principal cliente. Acho que é isso que estamos vendo."

Wilson e Joe Nichols surgem como estreantes cujos vocais são ancorados no country tradicional. Julie Roberts acrescenta uma pitada de blues que acrescenta sabor, sem esconder seu som country.

A crítica de Grady à música de Wilson, que saiu pelo selo Sony Nashville, também fala das mudanças do country.

Atualmente, o country "não é tão excessivamente produzido", disse ele. "Os discos são calorosos. Têm uma sensação boa. Não são perfeitos. Nenhuma das músicas é perfeita. Não é sobre isso. É sobre capturar os momentos."

Possivelmente, Big & Rich são os que mais expandem os limites.

"Big & Rich é interessante. Não tenho certeza se é música country propriamente dita, mas é bom. Obviamente, funciona", disse Zan Fletcher, vice-presidente/gerente geral da Universal South.
Outro ponto que está ajudando o gênero é que muitos de seus novos artistas são fisicamente atraentes; muitos fizeram cirurgia odontológicas estéticas, assim como seus colegas de Hollywood. Isso parece estar abrindo a porta de programas de televisão, que estiveram fechados a todos, exceto os mais famosos.

Agentes da velha escola do country, como o falecido Johnny Paycheck, tinham ótimas vozes, mas seus rostos
não eram exatamente fotogênicos.

Joe Nichols, por exemplo, neste verão apareceu em "Good Morning America", "The View" e "Jimmy Kimmel Live". "Ele não parece como um cantor country tradicional", disse Fletcher. Isso é pouco - Nichols parece um Deus grego.

Wilson, Roberts e Big & Rich também foram chamados de "bons de televisão". Ele disse que a televisão dá uma chance aos artistas de mostrarem diferentes estilos, o que ajuda a desfazer a crença de muitos da mídia em Nova York e Los Angeles que todo o country é igual.

"Há 10 ou 12 anos, era legal gostar de country. Isso desapareceu por um tempo, mas está voltando", disse Fletcher. "Nos shows de Joe Nichols, tem garotas gritando e tudo o mais. Não sei o que se via há cinco, seis ou sete anos. E Joe canta música country mesmo. Além disso, se você vai a um show de Chesney, ou até de Rascal Flatts, é como um concerto de rock, e acho que tudo isso é bom."

A última vez que o country entrou na moda foi em 1989, quando um grupo de novos artistas invadiu Nashville como uma tempestade.

Garth Books, Clint Black, Alan Jackson, Trisha Yearwood e Travis Tritt chegaram quase na mesma época, trazendo os anos de crescimento do country, que começou a decair no final de 1994, disse Jessen.
"A cidade refere-se a eles afetivamente como a turma de 89, porque foram eles que realmente trouxeram aquela nova era de música country, e fizeram tudo em um ano e meio", disse Jessen.

Segundo Grady, tudo se encaixou naqueles anos.

O país estava em fase de expansão econômica. Mais de 4.000 estações de rádio promoveram a música de Nashville, e a geração do "baby boom" estava aproximando-se dos 40 com os bolsos cheios. Ela queria música que a fizesse lembrar a trilha de sua juventude, bandas como Eagles e Grateful Dead, que o country fornecia, disse Grady. "Acho que estamos tendo o início de algo similar", disse Jessen. "Ainda é cedo para dizer se vamos presenciar um movimento como o de 89".

Outros duvidam que as alturas atingidas nos dias de glória possam ser atingidas novamente. Entretanto, todos concordam que a nova popularidade do country ainda não chegou ao seu máximo. Até Burke concordou que o impulso do country vai crescer em breve. Ele observou que a controvérsia causada pela crítica de Natalie Maines, das Dixie Chicks, ao presidente Bush durante um concerto em Londres em 2003 derrubou as vendas de todo o gênero -e não só as do seu sucesso até então, "Home".

Os analistas apontam que o novo disco de Jimmy Buffett, "License do Chill", é o disco número 1 das paradas da Billboard, está vendendo mais do que margaritas em uma convenção de Parrotheads.
Este ano ainda terá lançamentos dos ícones Tim McGraw e George Strait, assim como o super-astro emergente Toby Keith.

É agosto, e a música country está gerando grande parte do calor. Deborah Weinberg

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