Fãs de rock estão no alvo da campanha eleitoral

Bruce Davidson
San Antonio Express-News

O rock vai rolar esse ano em grande estilo como trilha da campanha presidencial. Um grupo de músicos, inclusive Bruce Springsteen, entrará em turnê no mês de outubro, para arrecadar fundos visando a derrota do presidente Bush. Os organizadores da turnê dizem que esse é um projeto de proporções inéditas. É verdade que as estrelas do rock normalmente não se envolvem tão diretamente em campanhas presidenciais, o que nunca impediu os candidatos de investirem sobre a cultura do rock para conquistar eleitores.

Na edição de setembro da revista "GQ", o candidato à presidência John Kerry se tornou o mais recente candidato Democrata a declarar sua admiração por Bob Dylan, um artista que trouxe questões políticas para a cultura pop em grande forma, ao escrever canções de protesto nos anos 60.

De acordo com um boletim de divulgação da "GQ", Kerry diz "Eu adoro Dylan. Ele é brilhante. Sabe, eu posso dizer o nome de várias canções dele que eu adoro, mas uma especial diz 'Lay across my big brass bed' (Deite-se na minha grande cama de metal), 'Lay, Lady, Lay' (Deite-se, minha dama, deite-se)".

Essa é uma forma de Kerry dizer a milhões de ex-rebeldes envelhecidos que de coração está com eles em termos culturais, só que 'Lay, Lady, Lay' é uma escolha fraca de canção para ser citada por um candidato à presidência. Um dedicado fã de Dylan poderia citar umas cem canções escritas pelo ícone do rock que têm mais importância cultural e artística.

Talvez Kerry estivesse temeroso de mencionar alguma outra canção mais ousada, como "Desolation Row" (Fila dos Desolados) ou "Like a Rolling Stone" (Como uma Pedra Rolando a Baixo). Talvez Kerry não seja realmente um grande fã de Dylan. Afinal, "Lay, Lady, Lay" é descartável, se comparada à maior parte do catálogo de Dylan. Ainda assim, Kerry mandou uma mensagem que contrasta com a linha de pensamento de Bush, tão anti-sessentista.

A cultura do rock entrou de vez no principal cenário político em 1974, quando o candidato Jimmy Carter, num famoso discurso em homenagem ao "Dia da Justiça", disse que uma fonte importante no aprendizado dele "sobre o que é certo e o que é errado veio de um amigo meu, um poeta chamado Bob Dylan."

Carter disse na época que Dylan o ajudou a apreciar "a dinâmica das mudanças na sociedade moderna". (A íntegra do discurso pode ser encontrada no site da biblioteca presidencial de Carter.)

Kerry pode ter-se lembrado do discurso de Carter ao utilizar a tática de citar Dylan. Afinal, artistas relevantes do rock, como Dylan e Springsteen, têm uma conexão espiritual muito mais profunda com muitos americanos do que qualquer político, algo que Carter soube compreender.

Será que pegar carona com a aura de Dylan ajudou Carter a se eleger? Isso é impossível de se dizer, mas os candidatos desde então tentam se aproveitar da magia cultural que envolve as estrelas do rock. E quanto mais envelhecem os roqueiros, um maior número deles têm idade para votar.

Em 1984, o presidente Ronald Reagan cometeu uma das tentativas mais equivocadas de se aproximar da cultura do rock. Como informou o site CNN.com, Reagan citou "a mensagem de esperança presente nas canções de um homem admirado por tantos jovens americanos: o filho de Nova Jersey, Bruce Springsteen."

Na época, Springsteen estava na crista da sua onda de popularidade, com o sucesso de "Born in the USA". A canção é sobre a sina dos desiludidos veteranos do Vietnam, e em sua letra, conforme observou a CNN, Bruce diz: "Estou há 10 anos queimando na estrada/Sem ter pra onde correr, nem ter para onde ir".

Springsteen criticou a tentativa de Reagan de se apropriar da mensagem musical que havia composto, mas de qualquer forma Reagan não precisava do cantor. Uma grande maioria de eleitores concordou com a retórica de Reagan, de que "raiava um novo dia para a América".

O primeiro presidente Bush, o pai, tentou fazer uma conexão com o homem comum do interior ao deixar transparecer que era um fã da música country. George W. Bush, o filho, também parece ter maior afinidade com os músicos do country.

Bush levou o cantor Larry Gatlin em algumas etapas de sua campanha eleitoral esse ano, e os Irmãos Gatlin Brothers, também do country, estão escalados para um show na próxima Convenção Nacional Republicana.

Quando essa feia eleição terminar, não importa quem esteja na Casa Branca, prefira você o country ou o rock, felizmente ainda teremos a música para consolar nossos espíritos. Políticos se unem a astros da música, buscando sua popularidade Marcelo Godoy

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