Cotidiano dos EUA mostra uma divisão absoluta

Colleen O'Connor
The Denver Post

Duas Américas. A América dividida. Alguns até a chamam de "América meio-a-meio", onde o eleitorado está dividido de maneira tão uniforme que a última eleição dependeu de apenas 537 votos na Flórida. Desde os cafés da manhã de domingo até os salões de cabeleireiro, todo mundo está falando sobre como a eleição de 2004 provavelmente será a mais polarizada da história recente do país. E todo mundo tem alguém ou alguma coisa para acusar.

"A divisão sobre a guerra no Iraque e questões persistentes sobre a credibilidade do governo criaram uma oposição a Bush que não apenas discorda, ela o odeia profundamente. A mesma coisa aconteceu no último governo, inspirada principalmente pelo escândalo de Bill Clinton.", escreveu Dick Meyer, diretor-editorial da CBSNews.com, que há 20 anos faz cobertura política.

A primeira-dama Laura Bush culpa os jornalistas pela polarização. "Acho que muitas vezes a mídia sensacionaliza ou exagera coisas que não são - que realmente não deveriam ser", disse recentemente durante uma entrevista ao programa "The O'Reilly Factor", no Fox News Channel. "Acredito que há uma grande distância da reportagem real, de tentar relatar os fatos."

Os progressistas culpam a religião, os conservadores religiosos culpam o humanismo secular e quase todo mundo culpa a "talk radio" ["rádio falada", programas de entrevistas e debate no rádio, com grande penetração nos Estados Unidos].

Mas eis o problema real. "Poucas pessoas têm uma maneira abrangente ou transpartidária de analisar os obstáculos à civilidade", diz Mark Gerzon, presidente da Fundação Mediators, uma organização sem fins lucrativos dedicada a abordar os conflitos globais através da solução de conflitos.

Ele deve saber bem disso. Depois de escrever "A House Divided: Six Belief Systems Struggling for America's Soul" [Uma Câmara dividida: seis sistemas de crença lutando pela alma americana], o autor de "Boulder, Colorado", foi contratado pelo Congresso para mediar os históricos encontros bipartidários entre deputados em 1997 e 1999. Financiadas pela Fundação Beneficente Pew, as sessões se destinavam a promover a civilidade, o respeito e o bipartidarismo entre os membros da Câmara dos Deputados.

Gerzon pediu aos congressistas para enumerar os obstáculos à civilidade. Mais de 200 políticos tiveram algo a dizer. No final, a parede estava coberta de bilhetes adesivos amarelos com pelo menos cem obstáculos à civilidade. "Havia obstáculos no sistema político e na Câmara. Obstáculos na cultura americana, na mídia e na rádio falada. Havia muitas camadas."

Em nível individual, diz Gerzon, realmente tem a ver com nosso modo de pensar. "Um sujeito pode escutar sua mulher quando ela está lhe dizendo que ele é um idiota? Qualquer pessoa tem dificuldade para ficar sentada numa cadeira ouvindo isso. Tem a ver comigo, meu desejo de estar certo, de não ouvir coisas que não combinem com meu ponto de vista."

Gerzon faz parte de um movimento emergente conhecido como Diálogo e Deliberação. Essas organizações apartidárias acreditam que a polarização prejudica a democracia e paralisa nossa capacidade de lidar com uma convergência inédita de crises, tanto nacionais quanto internacionais.

"Se quisermos desfrutar e participar da democracia, temos de aprender a dominar a capacidade de ouvir coisas das quais discordamos", diz Gerzon. "A maioria das pessoas simplesmente muda de canal - de Rush Limbaugh para Phil Donahue [comentaristas políticos] ou vice-versa -, porque queremos que o mundo concorde conosco."

O verdadeiro diálogo é uma capacidade difícil de dominar, mesmo para o presidente da Fundação Mediators. "Quando me sento e escuto alguém dizer por que apóia a guerra do Iraque e por que é uma boa idéia, aprendi a me disciplinar, a realmente escutar. Eu penso: 'Conheça seu inimigo. Ouça realmente sua maneira de pensar'. Porque o inimigo, a pessoa do outro lado do espectro político, é uma boa pessoa e você pode aprender algo com ela."

Mesmo com as pessoas amadas o diálogo pode ser difícil. Leilani Rashida Henry, uma consultora de empresas de Denver, pertence a uma grande família onde há miscigenação racial e política. Uma família de militares ao mesmo tempo conservadores e religiosos. Ela e seu parceiro, ambos democratas, adoraram o filme "Fahrenheit 11/9" de Michael Moore. Em uma reunião de família, ela perguntou se alguém o havia assistido. "Minha tia olhou para cima e disse: 'Não'. E ninguém mais disse uma palavra, exceto meu primo, que disse que só existe um cinema em sua cidade, mas que queria assistir ao filme em DVD."

Se o diálogo é difícil de praticar nos bons momentos, é algo especialmente desafiador atualmente. Somente duas vezes na história política recente o país esteve tão polarizado: em 1994, quando os republicanos tomaram o controle do Congresso no governo Clinton, e em 1946, depois da Segunda Guerra Mundial.

As expectativas culturais americanas não ajudam. "Falar sobre política é considerado por muitos americanos ligeiramente inadequado ou até rude", diz Deborah Tannen, autora de "The Argument Culture" [A cultura da discussão]. "Em países como França, Alemanha e Grécia, uma boa discussão é uma coisa divertida. Mas nós não temos uma tradição de discussões políticas animadas como uma forma de sociabilidade. [As discussões] poderiam ser piores hoje do que antes, porque existe muita coisa em jogo."

Na verdade, não se compara com a última eleição, quando as pessoas se queixavam de que não havia muita diferença entre os dois candidatos presidenciais. Uma pesquisa recente do Centro de Pesquisas Pew mostra que nesta campanha 63% disseram que "realmente importa" quem ganhar, contra 45% em 2000.

"Eu ouvi muitas pessoas dizerem: 'Esta é a eleição mais importante da minha vida'", disse Tannen. "As pessoas não se sentem tão distantes quanto na eleição de 2000, quando tudo estava ótimo porque tínhamos prosperidade e paz."

O ódio visceral não existe apenas entre republicanos e democratas. A divisão partidária é multiplicada pela polarização política fragmentada; pela polarização cultural. Pessoas como Bob Rosenberg são apanhadas no fogo cruzado.

Presidente da filial do Colorado da Log Cabin Republicans, uma organização de cidadãos gays e lésbicas republicanos, Rosenberg tinha um camarote na recente Parada do Orgulho Gay. "As pessoas não chegavam a três metros de nós", ele diz. "Para mim, essa é uma reação automática a algo que elas não entendem. Elas acham que, se somos gays, devemos ser democratas, porque os democratas estão do nosso lado."

Mas ele também discorda de muitos republicanos. "Existe [uma guerra] intrapartidária entre os membros da Log Cabin e os da Coalizão Cristã. Alguns republicanos não sabem que sou gay - estaríamos imediatamente em pontos opostos, porque não haveria possibilidade de um acordo sobre o aborto ou sobre ser homossexual."

A maioria de seus amigos é democrata. As conversas políticas geralmente são civilizadas, exceto num recente jantar durante o qual, segundo ele, um colega republicano se excedeu um pouco. "Eu sabia que estávamos ferindo os sentimentos das pessoas e disse: 'Esta não é a hora para discutir isso'. Preferi mudar de assunto a entrar em um nível pessoal."

Dori Maynard, presidente e principal executiva do Instituto de Educação Jornalística Maynard, observa que o diálogo nem sempre foi encorajado nos Estados Unidos. "Somos quase incapazes de falar sobre o ódio que muitas pessoas de cor sentem sobre sua privação do direito ao voto na última eleição na Flórida. Especialmente depois do 11 de Setembro, questionar a legitimidade de Bush tornou-se quase antipatriótico. Essa é uma questão real que ferve por baixo desta campanha. Mas não existe uma maneira real de falar sobre isso, em parte porque a mídia noticiosa realmente não falou sobre a privação de direitos de americanos negros e judeus [na Flórida].

"Acrescente o fato de que muitos negros morreram pelo direito ao voto, por isso desistir não é algo fácil para nós", observa.

A polarização, diz ela, é ainda mais complicada por uma tendência recente a ignorar as necessidades de nossa sociedade multicultural.

"O que aconteceu desde o governo Reagan é que as questões das pessoas de cor foram marginalizadas como interesses especiais. Tornou-se não apenas legítimo, como um pensamento político prudente, cortejar as mães de jogadores de futebol, mas as preocupações dos asiático-americanos e, especialmente, dos afro-americanos, são vistas como parte da política de identidade e algo que dificulta o debate."

Cada comunidade étnica é dividida por linhas de falha como geografia, classe e gênero. "Às vezes essas preocupações são universais e, às vezes, são particulares a um segmento. Discutir todas as nossas preocupações é como chegamos a uma política pública muito mais unida e coesa - que nos ajudará a avançar em um momento de grande competição global", diz Maynard. "Se não conseguirmos fazer isso, correremos o risco de ficar balcanizados. Realmente precisamos escutar e dialogar com o objetivo de compreender, e não concordar."

John Parr, muitas vezes chamado de "padrinho" do movimento pelo diálogo e deliberação, foi um dos pioneiros na arte de conversar através das divisões. Nos anos 70 ele teve papéis importantes na campanha e no governo de Richard Lamm, no Colorado. "Eu percebi que era contraproducente simplesmente polarizar as pessoas sobre questões ambientais", ele diz. "Era preciso encontrar maneiras de formar um consenso e fazer as pessoas colaborarem para chegarmos a soluções."

Então ele começou a usar técnicas de diálogo no gabinete do governador, especialmente em sua liderança do projeto Front Range, do Colorado, uma iniciativa de planejamento pública-privada sobre questões de crescimento do corredor urbano de 300 quilômetros do Estado. "Nós mudamos o debate, de crescimento contra não-crescimento para crescimento de qualidade", diz.

Três décadas depois, Parr, um democrata, usou as mesmas técnicas - buscar um terreno comum e concentrar-se em soluções e não nos problemas - quando assistia à convenção democrata juntamente com seus sogros republicanos.

"Realmente tivemos uma discussão ouvindo o discurso de Kerry. Falamos sobre o que tinha a ver conosco, as coisas que ele disse que realmente apreciamos." Em conseqüência, seu sogro mudou de opinião sobre seu voto presidencial; sua sogra continua indecisa.

Em Aspen, Colorado, Kelley Carson, uma republicana, está criando sua filha de 14 anos, Katy, com os mesmos princípios de diálogo: escutar com respeito e manter a mente aberta.

"Minha mãe me deu informações sobre o Partido Republicano e eu a fiz assistir à convenção democrata", diz Katy. "Eu vou assistir à convenção republicana com ela. Estou praticamente decidida por Kerry. Para mim ele parece um homem bom e não tão interessado em 'conquistar a Casa Branca de volta para os democratas'. A campanha de Bush tem mais a ver com recuperar a Casa Branca para os republicanos; não concordo com isso."

A adolescente, que estudou em casa nos últimos anos, valoriza o que ela chama de "discurso civil" e tem fortes opiniões sobre a atual situação do debate nacional.

"As pessoas precisam ser muito mais educadas neste país. Precisamos tornar as pessoas mais inteligentes. A maioria das pessoas que fala simplesmente declara suas opiniões e não deixa a mente aberta. Mesmo que você mantenha sua opinião original, é melhor conhecer ambos os lados. Minha mãe e eu temos conversas acaloradas, mas não chegamos a um nível tão pessoal de simplesmente gritar."

A maioria das pessoas nos dois partidos políticos quer a mesma coisa: segurança, beleza, liberdade, famílias fortes e cidades saudáveis. A melhor maneira de alcançar esses objetivos, dizem os especialistas, é uma conversa sincera sobre questões difíceis dos dois lados da fronteira partidária.

"Não acho que seja negativo as pessoas terem reações apaixonadas sobre as diferenças políticas", diz Tannen. "Eu gostaria que mais americanos fossem apaixonados por política. Mas é importante se opor aos outros sem ser grosseiro ou recorrer ao tipo de ataque pessoal que tanto vemos na política atualmente."

O conflito que é profundo e autêntico, concorda Gerzon, "é o que cria os ambientes mais saudáveis e seguros e uma legislação inovadora, que afinal desenvolve o apoio bipartidário".

Afinal, os Pais Fundadores construíram intencionalmente a democracia sobre o alicerce do conflito. Isso existe desde que os federalistas combateram os antifederalistas. Como disse o ex-presidente da Câmara, Newt Gingrich, na primeira reunião de congressistas de Gerzon: "O conflito na Câmara dos Deputados deveria ser bem-vindo; é a alternativa democrática à guerra civil". Diferenças políticas entre pessoas nunca pareceram tão profundas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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