Celebridades não influenciam eleições nos EUA

Michael Booth
The Denver Post

Na verdadeira guerra de estrelas holywoodianas que caracteriza o atual ciclo eleitoral, os Republicanos contam com Arnold Schwarzenegger como protagonista. Mas, além do governador, não há tantas estrelas simpatizantes assim disponíveis para a convenção Republicana. O apresentador Dennis Miller e o roqueiro Ted Nugent até devem se expor às críticas da oposição, mas a cantora pop Jessica Simpson anda quietinha, e o cantor country Lee Greenwood impressionou mais quando se alinhou com o outro Bush, o Bush pai.

Enquanto isso, os Democratas contam com Bruce Springsteen como ativista e protagonista. Se fosse num "Jogo da Velha", ou no popular programa "Hollywood Squares", Bruce seria a figura central, contando com Julia Roberts, the Dixie Chicks, Bono, Ben Affleck e George Clooney nas posições laterais.

Mas os conservadores não precisam chorar pela aparente ausência do calor das celebridades na convenção Republicana. É só lembrarem que contam com alguns dos grandes nomes do show business, que ocupam o radio e a televisão durante horas por dia despejando verborragia como celebridades incontestáveis: os apresentadores Rush Limbaugh, Sean Hannity, Ann Coulter e Bill O'Reilly, sem falar nos religiosos telefundamentalistas Jerry Falwell e Pat Robertson.

Os Republicanos que malham as estrelas de cinema por seu suposto liberalismo cabeça-ôca deveriam levar em conta as credenciais --ou a falta delas-- ostentadas pelos "especialistas" conservadores, segundo o diretor do departamento de Estudos de Mídia da Universidade de Fordham, Paul Levinson.

"Não importa como essas pessoas entraram na condição de famosos; o público presta atenção neles da mesma forma, tenham eles ou não algum tipo de conhecimento específico", diz Levinson, que já apareceu várias vezes no programa de Bill O'Reilly no canal Fox (Fox News na tevê a cabo brasileira, pela Net/Sky).

"Alguém que aparece na televisão todas as noites, como O'Reilly, ou mesmo (o ex-prefeito de Nova York) Rudy Giuliani, são tão célebres como uma estrela de cinema."

Elayne Rapping, professora de Estudos Americanos na Universidade de Buffalo, acredita que a credibilidade das celebridades varia muito: "Algumas estrelas e "especialistas" até que sabem alguma coisa; outros são verdadeiramente estúpidos, como todos nós simples mortais."

O público pode ser desculpado por não conseguir distinguir quem é um "especialista" ou quem é simplesmente uma "celebridade", diz o professor Levinson. Alguns Democratas gostariam que John Kerry fosse tão carismático quanto o presidente liberal interpretado por Martin Sheen na série da NBC "The West Wing" (exibida no Brasil pelo canal Warner), sendo que o próprio Sheen ainda por cima também é um ativista político pró-democrata.

Enquanto isso, só pra confundir mais um pouco, Kerry fez uma piada semana passada, num evento para angariar fundos em Los Angeles, dizendo que os doadores para a campanha deveriam considerar que o ingresso de US$ 5 mil dólares (equivalente a R$ 15 mil) para a festa deveria ser considerado como "o teste que farei em Hollywood para 'The West Wing'".

"O motivo pelo qual prestamos atenção na opinião de Martin Sheen é porque ele interpreta o papel de president Bartlet na TV", acredita Levinson. "Isso não quer dizer que Martin Sheen deva ser confundido com um real especialista político, como Bill Clinton ou Bob Dole".

Talvez os Republicanos não devessem querer mais estrelas poderosas ao seu lado. Celebridades até podem realizar maravilhas para campanhas de registros de eleitores ou para arrecadar fundos, como Warren Beatty fez numa iniciativa pioneira para o candidato democrata George McGovern em 1972, diz John Pitney, professor de Estudos do Executivo da faculdade Claremont McKenna College em Califórnia.

Mas as cantoras do grupo Dixie Chicks, por exemplo, ainda atraem animosidade nas pequenas cidades americanas, por conta das críticas que fizeram ao presidente Bush. E Whoopi Goldberg pode ter espantado tanto os novos Republicanos quanto os Democratas no começo do ano, quando fez umas piadas grossas com o nome de Bush. É preciso ter compreensão política, não necessariamente treinamento formal, acredita o professor Pitney.

"O'Reilly tem um diploma de Harvard, da Escola Kennedy de Estudos do Executivo, e Robertson se formou na escola de direito em Yale. Em compensação, Limbaugh nunca se formou em faculdades, mas sabe um bocado de política. Entre os artistas mais à esquerda, tanto Paul Newman quanto Al Franken são bem inteligentes. Já Barbra Streisand e Whoopi Goldberg já criaram problemas para o partido delas, o Democrata", diz Pitney.

Resta saber se alguém realmente muda o seu voto por influência de uma celebridade. Esse é um fator que chega a ser incompreensível, como todas as outras questões políticas.

"Quando alguém toma uma decisão, as celebridades só fazem reforçar a tendência do voto", acredita Lewis Dvorkin, editor-chefe de um grande portal noticioso. O site de Dvorkin permanentemente consulta seus 23 milhões de assinantes sobre questões políticas, e em cada enquete atrai de 300.000 a 600.000 respostas.

"Acima de tudo, celebridades confirmam o que você já pensa". Um site perguntou se as pessoas já levaram em consideração a opinião de celebridades na política. E, segundo Dvorkin, 79% das 500.000 pessoas que responderam á enquete disseram "não". Mas ainda restam 21% disseram "sim".

O jornalista acredita que o resultado foi ainda mais revelador quando um portal formulou a pergunta de outra maneira. Perguntados sobre que grupo de influencia mais atuava sobre suas opiniões, apenas 3% dos votantes responderam "celebridades." Uma expressiva faixa de 36% optou pela categoria "família e amigos".

E qual o grupo de influencia número 1 para os eleitores em potencial? sejam que o sistema parece estar funcionando. O segmento mais amplo dos pesquisados, 48% se manifestou dizendo que dão mais valor às vozes dos... políticos! Astros da música e do cinema podem mais atrapalhar que ajudar Marcelo Godoy

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