Campanha presidencial promete continuar turbulenta e divisiva

John Aloysius Farrel
The Denver Post

Nova York - Não houve fato algum nos momentos iniciais da campanha presidencial norte-americana que sugerisse que os oito meses seguintes seriam menos polarizadores, divisivos ou intensos que os meses turbulentos que os precederam.

"Após o Dia do Trabalho (1º de setembro nos Estados Unidos), os eventos diários da campanha se tornaram tremendamente importantes", explica a diretora da campanha de Kerry, Mary Beth Cahill. "O que estamos presenciando é uma escalada da linguagem mais pesada e de críticas bastante detalhadas. Os comitês políticos deixarão bem nítidas as suas escolhas".

O presidente Bush não parou um instante sequer após ter aceitado a nomeação pelo seu partido na noite da última quinta-feira, tendo deixado Nova York na manhã seguinte, bem cedo, e seguido para os Estados do Meio-Oeste, onde a disputa eleitoral é intensa, procurando capitalizar uma convenção que, segundo os analistas, lhe deveria conferir uma dianteira sobre o seu adversário, o senador democrata John Kerry.

Mas Kerry também não se fez esperar. À meia-noite, apenas alguns minutos após Bush terminar o seu discurso aceitando a nomeação, o candidato democrata contra-atacou de Ohio com o seu próprio discurso furioso, respondendo à altura às críticas e zombarias dirigidas a ele durante a convenção republicana.

"Essa será uma corrida muito, muito disputada e bastante competitiva até o dia da eleição", opina Matthew Dowd, estrategista da campanha Bush-Cheney.

Uma pesquisa realizada pela revista "Time" durante a semana da Convenção Nacional Republicana mostrou Bush com uma dianteira de 11 pontos percentuais sobre Kerry, com uma margem de erro de 4% para mais ou para menos, Mas outras pesquisas revelaram que a disputa está empatada, e que Bush recupera algum terreno perdido para Kerry.

Uma variável importante é a guerra do Iraque.

"A guerra pode ser um assunto bastante divisivo", disse o diretor de campanha de Bush, Ken Mellman.

O país está caminhando para perder o seu milésimo soldado em combate em setembro, após um período sangrento neste verão, e agências norte-americanas e estrangeiras advertiram que a Al Qaeda pode estar planejando um ataque durante a eleição.

Cada candidato possui alguns Estados com os quais pode contar. Os restantes se constituem em campos de batalha acirrados para a disputa presidencial.

Os operadores políticos republicanos dizem que Bush quer garantir a vitória no Colorado e em outros Estados onde venceu em 2000, de forma que possa se concentrar em Ohio, Florida, Pensilvânia e demais Estados críticos para uma vitória no Colégio Eleitoral.

"Nevada, Arizona e Colorado exibiram uma fidelidade mais confiável aos republicanos nas eleições passadas", admite Dowd. "Mas atualmente a disputa se tornou bem mais concorrida nos três Estados e neles o resultado é imprevisível".

Por outro lado, diz Dowd, o Partido Republicano ganhou terreno entre os eleitores rurais e suburbanos em Wisconsin, Minnesota e Pensilvânia.

Se não houver acontecimentos imprevistos na guerra contra o terrorismo, os acontecimentos deste mês deverão conduzir aos próximos grandes eventos planejados: um conjunto de debates exibidos pela TV em todo o país, começando em 30 de setembro.

"É nesses momentos que se consegue perceber a posição de um candidato sem filtros, e é quando um grande número de eleitores forma a sua opinião", diz Cahill.

A seguir, em meados de outubro, os eleitores começarão a votar em vários Estados críticos que encorajaram o voto à distância, como a Flórida e o Novo México. Os dois partidos já estão travando uma guerra de baixa intensidade no Colorado, na Flórida e em outros Estados, fazendo com que novos eleitores se registrem e que correligionários confiáveis se inscrevam para as eleições à distância.

Desconfiado, devido às manobras políticas e à alegada intimidação dos eleitores que caracterizaram a eleição de 2000 e a recontagem de votos na Flórida, o chefe do Partido Democrata, Terry McAuliffe disse: "Estou obcecado em fazer com que os eleitores democratas depositem os seus votos o mais cedo possível".

"Estamos tentando convencer a todos a não esperar pelo dia da eleição", diz McAuliffe.

O governador do Colorado, Bill Owens, que coordena a campanha presidencial no seu Estado, diz que os cabos-eleitorais republicanos já garantiram uma dianteira sobre os democratas, fazendo com que os eleitores fiéis ao partido se inscrevessem para a eleição à distância.

Enquanto o seu candidato aumentava a intensidade da sua agenda e o tom dos seus discursos, os assessores de Kerry mantinham a aparência de calma, dizendo que já esperavam que o presidente saísse de Nova York na dianteira.

"Esperávamos que George Bush desse um salto substancial... que a história indica que se evaporará", garantiu o diretor de pesquisas de opinião de Kerry, Mark Mellman.

Até certo ponto, os estrategistas do comitê Bush-Cheney concordam com essa avaliação. Dowd disse que as suas pesquisas indicam que, se as eleições fossem realizadas hoje, haveria uma batalha acirrada pelo voto popular, e Bush venceria no Colégio Eleitoral por uma estreita vantagem.

Mellman e Cahill disseram que os ataques duros feitos contra Kerry na convenção republicana deverão afastar os eleitores independentes ou que não têm fidelidade partidária.

"Os republicanos enfiaram o dedo nos olhos desses eleitores indecisos", afirma Mellman.

Mas os democratas reconhecem que as sutilezas do calendário eleitoral e o sistema financeiro da campanha - além da atenção inesperada dada a um grupo de veteranos do Vietnã que lançou uma série de ataques contra o histórico militar de Kerry - lhes custaram pontos em agosto.

O fato de a convenção democrata ter ocorrido primeiro significou para eles uma desvantagem tática, observam os assessores de Kerry, já que o sistema de financiamento público da campanha presidencial limita os gastos após a convenção.

Agora cada partido precisa determinar que combinação de eleitores leais e indecisos que levará à vitória. "O partido que vencer será aquele que conseguir mobilizar com sucesso as suas bases e os eleitores independentes", afirma Nicole Devenish, diretora de comunicação da campanha do presidente.

Os republicanos acreditam que o modelo para a vitória é a eleição de 2002, quando surgiram exércitos de republicanos conservadores que neutralizaram os democratas menos motivados, diz Mellman.

O comitê de campanha de Kerry está se concentrando mais nos eleitores indecisos. "O que ocorre conosco é que temos uma visão completamente diferente em relação ao eleitorado", afirma. Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos