Aretha Franklin critica o "negativismo" do rap

Fred Shuster
Em Los Angeles
LA Daily News

A cantora Aretha Franklin disse em entrevista exclusiva que reprova o rap por sua linguagem agressiva e "negativa". "Não gosto de grande parte do rap devido ao conteúdo". Por outro lado, Aretha é toda elogios para a banda Outkast. "Eles têm uma energia fantástica".

Aretha Franklin é uma das poucas intérpretes americanas cujas opiniões são ouvidas e respeitadas. Mais do que qualquer outra cantora, Franklin exemplifica a conjunção do sagrado com o profano. A sua voz com a tonalidade típica dos intérpretes de gospels e a sua surpreendente interpretação de sucessos do final dos anos 60 --"Respect", "I Never Loved a Man", "Chain of Fools", "Baby I Love You", "Think"-- ajudaram-na a conquistar o título inconteste de "Lady Soul".

As raízes religiosas de Aretha são profundas. Com as irmãs Carolyn e Erma, Franklin cantou na igreja batista do pai, o pastor C.L. Franklin, em Detroit, que era conhecido em todo o país pelos seus sermões inflamados. As primeiras gravações de Aretha foram feitas como cantora de gospel aos 14 anos de idade.

Ao final dos anos 60, Franklin estava entre as maiores estrelas pop do mundo, um símbolo do orgulho negro no auge do movimento pelos direitos civis. Uma energética pianista de blues, assim como uma cantora instantaneamente reconhecida, Aretha conseguiu manter o controle criativo, demonstrando ter um ouvido sensível para materiais que incluem temas originais vibrantes e gospels, blues, pop e rock, desde os Beatles e Simon & Garfunkel até Sam Coke e os Drifters.

A co-fundadora da Atlantic Records, Ahmet Ertegun, com quem ela realizou o trabalho mais duradouro, disse certa vez: "Não creio que exista alguém que eu tenha conhecido que possua um talento como o dela, e que conte com uma base tão sólida em gospel e blues, além do essencial idioma da música negra".

Aos 62 anos, Franklin continua sendo a Rainha do Soul, uma vocalista dotada de enorme paixão e expressão cujas melhores gravações definiram o termo "soul music" para sempre.

Há poucos anos, muita gente ficou de queixo caído na festa de entrega dos Prêmios Grammy, quando ela assumiu no último minuto o lugar de um enfermo Luciano Pavarotti e interpretou "Nessun dorma", a conhecida ária da ópera "Turandot", de Puccini. Franklin cantou a ária no tom de Pavarotti com uma orquestra de 72 músicos, após apenas oito minutos de ensaio prévio.

Esse foi apenas mais um triunfo para uma verdadeira diva que já cantou para presidentes, reis e rainhas, ganhou mais Grammys (16) do que qualquer outra cantora e foi a primeira mulher a ser aceita no "Rock and Roll Hall of Fame". O seu último álbum é intitulado "So Damn Happy" (algo como "Tão Intensamente Feliz").

Mesmo enquanto a sua fama cresce, Franklin normalmente fica longe dos olhares do público, preferindo a vida tranqüila do interior do Estado de Michigan.

Portanto, muita gente se agitou quando a cantora, que é um ícone do soul, anunciou que, após uma ausência de 21 anos, estará se apresentando em Los Angeles nos dias 17 e 18 de setembro no recém-renovado Greek Theatre. A entrevista com a Dama do Soul foi em sua casa.

Los Angeles Daily News: Você não anda de avião. Como decidiu fazer a viagem para a apresentação?

Aretha Franklin: Não voava havia mais de 20 anos. Mas tive que ir a Albuquerque (a negócios) neste ano e realmente não me importei com a viagem rodoviária. Na verdade foi uma experiência bem agradável. Quando cheguei lá, perguntei ao motorista do meu ônibus quanto tempo demoraria se prosseguíssemos até Las Vegas e Los Angeles. Quando ele me respondeu, eu disse: "Ok, vou até lá da próxima vez que vier ao Novo México". Foi algo que acabou sendo uma bênção disfarçada. Trouxe meus livros, revistas e muitos CDs e DVDs. É uma forma legal de viajar.

LADN: Você conta com uma ampla gama de materiais. Como decide o que fazer no palco? Você tocará piano?

Aretha: Tenho um novo repertório que inclui os sucessos, novas músicas e algumas surpresas --uma ou duas árias, algum jazz, algo de "Sparkle" (um drama musical de 1976). É difícil escolher. É preciso ensaiar várias shows com diferentes músicas de forma que possa alternar a cada noite. E tocarei piano em "Dr. Feelgood".

LADN: O que você acha do rhythm and blues, do hip-hop e do rap?

Aretha: Realmente adoro o OutKast. Eles simplesmente têm energia demais. E gosto da música gospel contemporânea. E de Gerald LeVert. Não gosto de grande parte do rap devido ao conteúdo. Me importo com o que diz a letra e grande parte dela é negativa e derrogatória nos raps. Mas, como sabemos, o R&B está vivo e vai bem. Fiquei um pouco preocupada em determinado momento, mas creio que o estilo vai sobreviver.

LADN: Você chocou certas pessoas ao interpretar Puccini no Grammy.

Aretha: Foi uma decisão de última hora que deu bom resultado. Eu conhecia a peça. Puccini é o meu compositor favorito e "Turandot" uma das minhas óperas preferidas. A música é muito melódica e carregada de drama. Estou planejando fazer alguns recitais clássicos na Costa Leste na próxima primavera.

LADN: No ano passado você fez poucos concertos. Atualmente quem está na platéia?

Aretha: Fiquei impressionada de ver alguns adolescentes hippies assistindo aos shows. Sinto-me abençoada por saber que tem gente que vem me ver durante toda a vida, e depois gente nova que começa cedo a ouvir a minha música. É uma sensação simplesmente deliciosa. Sou uma pessoa de muita, muita sorte.

LADN: Celine Dijon se recusa a falar no dia de um show. Você faz algo tão drástico quando se prepara para um concerto? E você ainda canta na igreja?

Aretha: Eu faço algum aquecimento vocal. Sei quando ficar quieta e calar a boca. Não sou tão extremista quanto Celine. E, sim, ainda canto na igreja.

LADN: Você se apresentou com alguns dos maiores intérpretes musicais da história --King Curtis, Cornell Dupree, Bernard Purdie, Chuck Rainey, Memphis Horns, Richard Tee, Jerry Jemmott. O que você busca em um músico?

Aretha: Na soul music, é preciso haver um grupo que toque junto, no qual os integrantes escutem uns aos outros e sejam sensíveis ao vocalista. E é necessário um solista que tenha personalidade. Você mencionou alguns nomes de pessoas que merecem bastante mais crédito do que tiveram. Essa é a realidade. Tenho atualmente um conjunto fantástico, mas os intérpretes que tive nos anos 60 e 70 foram uma outra história. Em entrevista, cantora de origem gospel diz que admira o Outkast Danilo Fonseca

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