Genes determinam a obesidade, dizem médicos

Julie Davidow
Seattle Post-Intelligencer
Em Seattle

Aos sete anos de idade, Laura Walter participou de sua primeira reunião dos Vigilantes do Peso. No ano seguinte, teve um momento de revelação sobre seu peso no playground de um subúrbio no Colorado.

"Você é um palito", observou uma colega da terceira série, apontando para os ossos do peito de Laura. "Senti-me muito bem o dia todo", disse Laura, hoje com 35.

Entretanto, tinha emagrecido 4 kg não por uma dieta cuidadosamente monitorada, mas por uma terrível infecção nos rins que a deixou de cama por uma semana. "Então, concluí: Só vou conseguir ser magra sendo doente."

Quase três décadas depois, com um índice de massa corporal igual a 50 (a obesidade é definida como índice de massa corporal de 30 ou mais), Laura ainda sente-se culpada quando come um doce. "Aprendemos que, se comermos perfeitamente, seremos todos bonitos e esteticamente adequados", disse ela, que trabalha com marketing em uma firma de investimento em Seattle.

Os cientistas estão começando a entender os mecanismos biológicos que causam o excesso de peso e uma vida de restrição dos impulsos e dobras na cintura para pessoas como Laura.

É possível que a falta de força de vontade seja a explicação menos instrutiva para o número crescente de americanos obesos, dizem muitos especialistas. A maior parte hoje acredita que a obesidade é uma doença gerada por um ambiente rico em alimentos e pobre em atividades para pessoas com tendência genética a engordar.

E o governo parece concordar. No início do ano, o Medicare passou a dar cobertura médica para tratamentos de obesidade, e a Secretaria da Fazenda atualmente dá alívios fiscais para alguns programas de emagrecimento.

Quase dois terços dos adultos americanos são obesos ou estão acima do seu peso ideal. O excesso de peso está ameaçando superar o tabaco como causa número um de mortes evitáveis nos EUA, de acordo com um estudo publicado na edição de 10 de março da revista "Journal of the American Medical Association", por pesquisadores do Centro para Prevenção de Controle de Doença federal.

Cerca de 16% das crianças entre 6 e 19 anos têm quilos demais, de acordo com os Institutos Nacionais de Saúde.

Alguns grupos populacionais, inclusive o de afro-americanos, latinos e os pobres, têm maior probabilidade de estar acima do peso. O crescimento nos índices de obesidade está ligado a uma explosão de casos de diabetes entre crianças e adultos. Gordura demais também aumenta os riscos de uma lista crescente de problemas da saúde, inclusive doenças cardíacas e muitos diferentes tipos de câncer.

Cerca de 400.000 pessoas morrerão neste ano de doenças relacionadas à obesidade, de acordo com o CDC. Seattle, com seu jeito esportivo, não está imune.

Nesta terra de caminhadores, ciclistas, esquiadores e velejadores, mais da metade dos moradores do condado King estão acima do peso, e 15%, mais que o dobro do número de 15 anos atrás, são obesos, de acordo com a Saúde Pública. Os adultos do condado pesam, em média, 5,5 kg a mais que em 1987.

Por que isso? Os especialistas dizem que a resposta está a nossa volta --nos carros que insistimos em usar toda vez que saímos, nas xícaras gigantes que enchemos de café com creme, em uma cultura em que todos sempre parecem estar correndo, mas passam a maior parte do tempo sentados.

Quase 75% dos moradores do condado são completamente sedentários ou não se exercitam o suficiente, segundo os padrões de atividade física mínima do CDC --30 minutos da atividade moderada, cinco dias por semana.

"O nível em que se pode ser fisicamente inativo em um dia é impressionante", disse Dr. Brent Wisse, que trata de pacientes da Clínica de Distúrbios do Peso em Harborview Medical Center. "Isso não se resolve indo à academia e passando meia hora na esteira."

A decisão de comer um lanche gorduroso em vez de cenouras e a escolha de ver televisão em vez de dar uma corrida ao entardecer é de cada um. Então, a chave para controlar a epidemia e manter um peso saudável não está na força de vontade? Os cientistas que estudam o peso dizem que não.

Eles estão convencidos de que são os hormônios descontrolados e um metabolismo lento, em vez da gula e da preguiça, que movem a tendência de ganhar peso.

"O controle biológico do peso do corpo tende a ser mais poderoso do que a força de vontade da pessoa", disse o Dr. Michael Schwartz, que pesquisa a obesidade na Universidade do Estado de Washington.

Somente uma pequena percentagem dos obesos tem uma síndrome metabólica ligada a um único gene, disse Schwartz. Mas, unindo-se a susceptibilidade genética a ganhar peso com uma ambiente em que pouco esforço físico é necessário para se ter uma abundância de comida barata tem-se a receita para os índices crescentes de obesidade.

"Temos um organismo que evoluiu de forma a armazenar gordura em um ambiente que está tornando isso muito fácil", disse Rudolph Leibel, geneticista molecular da Universidade de Columbia que estuda a obesidade, durante uma palestra patrocinada pelos Institutos Nacionais de Saúde em janeiro.

O ganho de peso resulta de uma simples equação: consumir mais calorias do que se perde. Os especialistas dizem, porém, que há um sistema extremamente complexo que regula quanta comida e atividade física o cérebro exige.

Os pesquisadores acreditam que centenas de genes são responsáveis pelo sistema de regulação do peso. Eles controlam os desejos inconscientes, inclusive a ansiedade, a sensação de satisfação e o gosto por alimentos gordurosos e doces.

"As pessoas chegam à conclusão que, se você é obeso, deve ser porque você preferiu levantar o garfo muitas vezes e não se fazer mais nada", disse Leibel. "A questão é: quais são os mecanismos que estão controlando o desejo ou a vontade de comer e de fazer atividades físicas?"

Grande parte dos avanços na pesquisa em obesidade na última década estão associados ao hipotálamo, uma porção do cérebro do tamanho da ponta de um dedo que ajuda a manter o equilíbrio metabólico do corpo, secretando hormônios que regulam a fome, a pressão sangüínea, a temperatura do sangue e a sede.

Os primeiros experimentos ligando o hipotálamo ao peso do corpo foram desenvolvidos em ratos, no início dos anos 40. Os pesquisadores observaram que os ratos engordavam rapidamente quando uma porção de seu hipotálamo era removida ou danificada.

Os especialistas acreditam que muitas pessoas obesas sofrem de resistência à leptina, um hormônio produzido proporcionalmente às células de gordura que diz ao hipotálamo quanta energia o corpo tem guardada.

Em 1994, Dr. Jeffrey Friedman, cientista da Universidade Rockefeller, em Nova York, descobriu o gene da leptina, que vem da palavra grega leptos, que significa magro. Friedman viu que os camundongos criados sem o gene de leptina engordavam enormemente.

Os pesquisadores comparam a resistência à leptina à diabete do tipo 2, na qual o corpo pára de reconhecer a insulina. Nos dois casos, não está claro por que a resistência se desenvolve, disse Leibel.

Com sua sensibilidade à leptina anestesiada, as pessoas com gordura demais no corpo não recebem o sinal para parar de comer. E inicia-se um círculo vicioso. Mais leptina é necessária para parar a fome, mas a única forma de aumentar o nível de leptina é mais gordura. "Você acaba adquirindo uma nova regulagem no corpo, que requer um nível alto de leptina", disse Schwartz.

Laura e seu noivo, Hasan Edain, se mudaram para Seattle há dois anos, depois de perderem seus empregos na Califórnia com a explosão da bolha de alta tecnologia.

Eles estão planejando o casamento para o dia 4 de julho, em Lake Union. "Adoro fogos de artifício", disse Laura. "Gosto da idéia de tê-los no meu casamento e em todos aniversários de casamento."

Edain, 35, também é obeso. Ele toma remédios para pressão alta e deve vigiar o nível de açúcar no sangue. Com 1m54 e 136 kg, Laura não tem diabetes, doenças cardíacas ou qualquer outras das doenças associadas à obesidade. Ela sabe que isso pode mudar com a idade, mas por enquanto suas maiores preocupações são emocionais.

Por exemplo, entrar em um avião é difícil para sua cabeça. Ela acha que os outros passageiros temem sentar ao seu lado.

Outra preocupação é a procura por um vestido de casamento. Suas opções de estilo são limitadas, devido ao seu tamanho.

A família de Laura sempre tentou estimulá-la a controlar o peso. Sua mãe tirou da cozinha todos os lanches que engordavam e ajudou a filha a manter um registro do que comia.

Seu irmão, naturalmente magro e atlético, nunca teve problemas de peso, apesar de ele e Laura usarem todas as oportunidades para comerem coisas que não tinham permissão. "Ele comia uma tonelada de açúcar, como eu; só que não aparecia no seu corpo."

A perda de peso parece gerar mecanismos poderosos de sobrevivência, que evoluíram para preservar energia e restaurar o peso ao nível previamente mais alto --um truque sujo evolucionário, dado nosso ambiente rico em calorias.

É por isso que comer menos e fazer mais exercício --a mais básica estratégia de emagrecimento-- possivelmente nunca será suficiente para algumas pessoas atingirem um peso saudável. "As pessoas dizem: 'Você se saiu bem por um tempo, mas está claro que não tem força de vontade e que foi por isso que engordou", disse Leibel, especialista da Universidade de Columbia. "Só que não é isso que acontece. Em vez disso, o corpo responde diminuindo o metabolismo, fazendo você ter mais fome e mexendo com os hormônios para que façam você recobrar o peso."

As pessoas com excesso de peso que tentam cortar as calorias sentem-se cronicamente com fome e frio. As mulheres, muitas vezes, têm problemas com seus ciclos menstruais, disse Leibel.

As drogas atualmente disponíveis para o emagrecimento geram resultados mínimos e vêm com uma série de efeitos colaterais desagradáveis, inclusive diarréia. Como as cirurgias de estômago que restringem a ingestão de alimentos são mais eficazes, podem levar a sérias complicações e a morte.

Os genes são cerca de 70% responsáveis pelo peso. Eles determinam um ponto que David Cummings chama de "limites do peso".

"Dentro desses limites, você tem a capacidade de ganhar ou perder 5 a 10%, por força de vontade e dieta", disse Cummings, pesquisador de obesidade do Sistema de Saúde de Veteranos Puget Sound e da Universidade de Washington.

Há exemplos sensacionais de pessoas que perderam 70 kg e mantiveram o peso só com dietas e exercícios, mas esses casos chegam à imprensa porque são tão raros, disse Cummings.

"A maior parte das pessoas consegue alterar o peso razoavelmente em 5 a 10%", disse ele. Teoricamente, dar injeções de leptina a quem perdeu peso deveria levar o cérebro a pensar que a gordura do corpo ainda está presente, aquietando a fome e apressando o metabolismo.

Até agora, entretanto, a leptina não teve sucesso como instrumento de emagrecimento, provavelmente porque as pessoas obesas desenvolveram uma resistência ao hormônio, disse Schwartz.

Pesquisadores da Universidade de Wisconsin também estão estudando a grelina, hormônio produzido no estômago que envia sinais de fome ao cérebro. Estudos indicam que os níveis de grelina são drasticamente reduzidos em pacientes que fizeram cirurgia de desvio gástrico.

Por outro lado, os níveis de grelina aumentaram em pessoas que tentaram perder peso comendo menos.

Isso poderia explicar por que a cirurgia leva a uma perda de peso mais dramática do que dieta e exercícios, disse Cummings, que ligou a grelina ao impulso de comer nas horas das refeições.

Entretanto, ainda há muito que os cientistas não sabem sobre o ganho de peso excessivo.

Somente meia dúzia de genes envolvidos na regulação do peso foram identificados e não está claro como interagem. Os cientistas também não sabem como as mudanças nos níveis hormonais afetam o controle de peso de longo prazo.

Terapias com medicamentos mais eficazes estão no horizonte, mas continuam a anos de distância, disse Bárbara Kahn, chefe da divisão de endocrinologia, diabetes e metabolismo do Centro Médico Beth Israel Deaconess, em Boston. Kahn estuda a leptina e outras enzimas que controlam a fome e a atividade.

"Não sabemos onde intervir", disse Leibel. "Não conhecemos os melhores alvos para as drogas."

Schwartz tem uma abordagem ligeiramente diferente do que muitos pesquisadores de obesidade.

Ele acredita que o corpo humano não é necessariamente mais inclinado a armazenar gordura. As pessoas que ganham peso, portanto, sofrem de uma disfunção do sistema de regulação de peso.

Se isso for verdade, reforçará a visão da obesidade como doença, em vez de uma reação esperada a um ambiente rico em comida e deficiente de atividade, disse Schwartz.

"Se não há uma proteção contra engordar, porque temos tamanhas diferenças nos níveis de obesidade quando as pessoas são colocadas no mesmo ambiente?" perguntou Schwartz.

Somente um terço da população tem uma formação genética que parece impedi-las de ganhar peso, disse Schwartz. O resto sofre de graus variados de suscetibilidade ao excesso de peso e obesidade, instados por certos ambientes, disse ele.

Mesmo assim, muitos não aceitam a noção de que a obesidade pode ser considerada uma doença.

Tom Cecil, que com 100 kg e 1m70 é obeso pelos padrões federais, traça a onda crescente de corpulência a uma raiz muito mais simples.

"É uma questão de quanta comida enfiamos para dentro", disse Cecil, 65, motorista de ônibus de Seattle. "Quando sou a única causa da condição, como pode ser considerada uma doença? É só que minha força de vontade não é suficiente para vencer a vontade de comer mais."

Na luta contínua para fazer as pazes com seu corpo, até Laura disse que teve dificuldades em tirar a responsabilidade de seus ombros.

"Tenho uma consciência grande quando estou comendo, que diz assim: 'Vejam só, estou fazendo más escolhas'", disse ela. Apesar do sistema inconsciente de controle de peso do corpo, especialistas dizem que os gordos devem tentar comer melhor e se exercitar. Até mesmo uma perda de peso modesta foi associada a grandes melhoras na saúde.

"Ninguém deve entender com isso que as pessoas são irresponsáveis com seu peso", disse Schwartz. Kahn, de Boston, concorda. "Não há nenhuma vantagem em tentar convencer alguém de que tem uma doença", disse Kahn, acrescentando que soluções de sociedade, como almoços mais saudáveis nas escolas e cidades construídas para estimular caminhadas também são necessárias para tratar a epidemia.

"É muito importante estimular as pessoas a ainda esforçarem-se para ter um estilo de vida saudável." Mas a tese de que força de vontade faz perder peso continua forte Deborah Weinberg

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