Antidepressivo pode levar ao suicídio, diz estudo

Anne C. Mulkern
The Denver Post
Em Washington

Reguladores federais sabiam já em 1986 que certas pessoas que tomaram Prozac se suicidaram com armas de fogo ou se enforcando e que algumas tentaram o suicídio ou alimentaram fantasias quanto a tirar a própria vida. Segundo a Administração de Alimentos e Remédios (FDA, na sigla em inglês, a agência governamental norte-americana que regula e fiscaliza a fabricação de comestíveis, drogas e cosméticos), "não havia evidências que sugerissem que o Prozac fosse o causador desses eventos".

Dezoito anos depois, como os estudos revelaram a existência de um possível vínculo entre os novos antidepressivos e um risco mais alto de suicídios de crianças, a FDA está reavaliando a sua posição, indicando que poderia obrigar os fabricantes desses medicamentos a aumentar as advertências pela segunda vez neste ano.

Uma revolução no consumo dos remédios psiquiátricos se seguiu à aprovação do Prozac em dezembro de 1987. No ano passado, os médicos forneceram 142 milhões de receitas para a compra de antidepressivos de última geração. Nos anos anteriores, a FDA perdeu ou ignorou repetidamente as oportunidades de examinar essas drogas extremamente populares, segundo revelam documentos obtidos pelo "The Denver Post" e uma série de entrevistas conduzidas pelo jornal.

Na sua análise do descuido da FDA com os novos antidepressivos, o "The Denver Post" descobriu que:

- Apesar das preocupações seguidas por não se saber se os fabricantes desses medicamentos teriam examinado suficientemente os ricos de que eles causassem reações violentas, a FDA nunca encomendou pesquisas diretamente voltadas para a questão, e tampouco solicitou às companhias de medicamentos que o fizessem.

- Um importante funcionário da FDA, que durante 20 anos chefiou a divisão de drogas psiquiátricas do órgão, disse que a segunda geração de antidepressivos foi aprovada por um processo regulador que exige apenas uma comprovação limitada de eficácia e segurança. "Não conhecemos o risco tão claramente. Estamos trabalhando em meio a um mar de ignorância", disse o funcionário, o médico Paul Leber, ao "The Denver Post".

- Segundo os documentos, as companhias farmacêuticas estavam conscientes da necessidade de omitir os relatos de reações suicidas e homicidas. "Creio que tanto a indústria farmacêutica quanto a FDA foram irresponsáveis ao não informarem mais aos médicos e à população sobre esse problema", diz Joseph Glenmullen, psiquiatra da Universidade Harvard e autor do livro "Prozac Backlash" ("O Retrocesso do Prozac").

"Ficou realmente claro que a FDA não tomou providências quanto a esse problema durante 15 anos. Eles simplesmente varreram a coisa toda para debaixo do tapete até que foram pegos de calças arriadas", afirma Glenmullen.

A FDA só tomou providências depois que autoridades de saúde britânicas e canadenses já haviam adotado medidas agressivas. A FDA divulgou a sua advertência após o vazamento da informação de que um dos seus funcionários escreveu um relatório demonstrando que as crianças e adolescentes que tomam esses medicamentos correm mais riscos de tentarem o suicídio. Glenmullen e outros acreditam agora que novas evidências nesse sentido quanto às crianças reabre a questão a respeito dos riscos para os adultos.

Houve uma série de oportunidades para que se atuasse mais rapidamente. Relatórios sobre suicídios de pacientes que tomam Prozac chegaram à agência "aos montes" em 1990 e 1991. A FDA realizou uma sindicância e disse que não havia provas de que as drogas causassem violência, mas falhou ao não promover pesquisas mais específicas.

Nos anos seguintes, à medida que era pedida a aprovação de drogas que imitavam o Prozac, a FDA recebeu relatórios que falavam de casos de automutilação, mania e suicídio. A FDA solicitou mais dados às indústrias farmacêuticas, mas não as forçou a estudar a questão mais a fundo. A agência também falhou ao não exigir que essas companhias padronizassem os dados sobre ações e pensamentos suicidas para que as informações pudessem ser mais facilmente analisadas.

Funcionários da FDA se recusaram a responder a pedidos seguidos de entrevistas, afirmando que já tinham audiências marcadas para esta semana para revisar um novo estudo que revela um vínculo entre os antidepressivos e um maior risco de atitudes suicidas em adolescentes.

Na semana passada, a Subcomissão de Supervisão e Investigação do Congresso realizou uma audiência para determinar se as indústrias farmacêuticas omitiram dados sobre a eficácia dessas drogas. Uma outra audiência, marcada para 23 de setembro, examinará a questão da segurança desses produtos.

Com base no número de receitas prescritas para a aquisição de Prozac, Paxil, Zoloft, Luvox, Celexa, Lexapro, Effexor, Wellbutrin, Serazone e Remeron, a maior parte dos médicos acredita nitidamente que esses remédios sejam mais úteis que prejudiciais. Segundo a IMS Health, empresa que analisa o mercado norte-americano de medicamentos, os novos antidepressivos só perdem para a codeína em termos de número de receitas médicas fornecidas nos Estados Unidos.

De acordo com Richard Kapit, que trabalhou na FDA durante 20 anos e que avaliou o Prozac, quando comparado com antidepressivos mais antigos, o Prozac apresenta menos efeitos colaterais e é bem mais seguro. Ele diz que o remédio pode ou não causar suicídio e violência, mas esses fatores de risco eram também encontrados nos medicamentos mais antigos. Kapit diz que deveriam ter sido realizados estudos logo após a inserção da droga no mercado.

"Por que esses estudos não foram feitos? Acredito que eles procuraram contornar o problema. Alguém decidiu que havia outras prioridades", acusa Kapit.

Um outro ex-administrador da FDA afirmou que os riscos de longo prazo dos antidepressivos também são desconhecidos. "Dentro de um quadro maior, tenho algumas dúvidas quanto ao valor desses medicamentos", disse Leber, que é psiquiatra. Ele atualmente é consultor da indústria farmacêutica, à qual fornece conselhos sobre drogas psiquiátricas e neurológicas.

Leber trabalhou na FDA por mais de 20 anos antes de deixar a instituição em janeiro de 1999. Como diretor da divisão de produtos neurofarmacológicos por 15 anos, ele recomendou a aprovação do Prozac, do Zoloft e do Paxil, entre outros medicamentos.

Leber acredita que tais medicamentos sejam seguros, conforme a definição legal, mas diz que pouco foi provado sobre as drogas relativamente novas em termos dos seus riscos potenciais. Segundo ele, não existe um número suficiente de suicídios para permitir que se faça um estudo científico.

Os antidepressivos têm sido uma grande fonte de lucros para a indústria farmacêutica, e a FDA se beneficia de parte dessa receita. Os fabricantes de medicamentos precisam pagar à FDA taxas sobre as vendas. A arrecadação total dessas taxas aumentou de US$ 34 milhões em 1993, o primeiro ano em que foram recolhidas, para US$ 215 milhões em 2003.

Quando o Prozac e drogas similares estavam passando pelo processo de aprovação, de 1986 até o início dos anos 90, os fabricantes de remédios pareciam estar conscientes da necessidade de escamotear a questão do suicídio.

Em um memorando de 7 de fevereiro de 1990 da empresa Eli Lilly, obtido pelo "The Denver Post", W. Leigh Thompson, cientista da unidade de investigações clínicas da Lilly, expressava preocupações após Leber ter pedido à empresa que comparasse os índices de agressão e pensamentos suicídios dos usuários do Prozac com os dos pacientes que tomavam outros antidepressivos. Esses dados estavam no banco de dados de uma agência britânica de saúde.

"A Lilly poderá arcar com um grande prejuízo se perdermos o Prozac, e basta apenas um evento no Reino Unido para que isso aconteça", escreveu Thompson aos colegas, manifestando preocupação quanto a uma possível revisão britânica.

Outros memorandos de 1990 revelam que a Lilly lutou para que os rótulos dos seus medicamentos não fossem alterados, passando a incluir dados relativos ao suicídio. E funcionários da companhia acreditavam que Leber protegeria os interesses da indústria, segundo revelam documentos.

De acordo com um memorando da Lilly, Thompson ligou para Leber às 6h15 de 18 de julho de 1990 para falar sobre a questão do suicídio. Thompson observou que "a Lilly e a FDA estão trabalhando na questão do suicídio".

Em uma entrevista, Leber disse que estava fazendo o seu trabalho, que exigia que ignorasse as pressões políticas e avaliasse cientificamente as drogas. "Quero acreditar que, considerando as informações de que dispunha na época, fiz o que deveria ter feito", disse ele.

Os contestadores da FDA à época parecem ter sido ignorados. Em um memorando de 11 de setembro de 1990, David Graham, diretor de epidemiologia, acusou o estudo da Lilly de ser impróprio, por ter excluído 76 de um total de 97 casos, quando avaliava se os pacientes que tomavam antidepressivos manifestavam tendências suicidas.

Graham escreveu que a Lilly também usou comparações enganosas e que "a análise da firma não pode ser considerada como prova de que o Prozac e o comportamento violento não estejam relacionados".

Ao mesmo tempo, relatórios de "suicídios bem sucedidos" chegam à FDA "aos montes", conforme depôs em uma audiência em tribunal, em 13 de março de 2003, Martin Brecher, ex-funcionário médico da divisão de drogas neurofarmacológicas da FDA. Brecher disse que em algum momento entre 1990 e a primeira metade de 1991, ele revisou relatórios trimestrais feitos pela Lilly que documentavam casos de suicídio por parte de pessoas que tomavam Prozac.

"Foi algo realmente extraordinário, especialmente ao se comparar com outros relatórios anuais. Como se sabe, havia 20 relatórios sobre casos de gripe ou talvez dois sobre elevação do nível de enzimas no fígado. Só que tínhamos na nossa frente 20 relatórios relativos a mortes", disse Brecher no seu depoimento.

"O volume de relatórios de suicídios consumados de pacientes que tomavam fluoxetina (Prozac) fez com que aumentasse o questionamento sobre o vínculo entre medicamento e suicídio. No entanto, nenhuma resposta foi sugerida".

Em um memorando de 20 de janeiro de 1994, Roger Lane, da Pfizer Corporation, disse ao colega E. Giller-Groton que a sua sugestão de procurar estudar o uso do Zoloft em pacientes com problemas de agressividade seria uma idéia "difícil de vender na companhia devido aos problemas enfrentados com o Prozac".

"O mercado está bastante consciente de que um paciente que use o Zoloft e que esteja envolvido com um incidente de homicídio em massa poderia afetar seriamente a imagem e o sucesso comercial do produto", diz o memorando.

A porta-voz da Pfizer, Shreya Prudlo, diz que "a Pfizer estudou o impacto do Zoloft no tratamento de sintomas de ansiedade e doenças depressivas, monitorou cuidadosamente e avaliou todos os eventos adversos, incluindo o suicídio e a violência".

Há extensos estudos, a maioria deles financiada por fabricantes de medicamentos, revelando que essas drogas funcionam e são seguras. No entanto, muitos testes são de curta duração, tendo apenas entre seis e oito semanas. Os pacientes que interrompem o tratamento devido a graves efeitos adversos, incluindo tentativas de suicídio e manias, não são compilados nas percentagens finais de risco.

"Nos testes clínicos... algo entre 15% e 21% dos pacientes interromperam o uso da droga entre seis e oito semanas devido a efeitos colaterais intoleráveis", afirma Thomas J. Moore, analista do Centro Médico da Universidade George Washington, em Washington, D.C. "Seria difícil encontrar uma outra classe de drogas de uso tão comum e com um histórico tão ruim."

Um juiz que disse ter visto documentos internos da indústria farmacêutica ainda protegidos por sigilo pelo tribunal diz que os fabricantes tiveram sucesso em esconder os dados dos médicos e, em alguns casos, da FDA.

"Há evidências que indicam que as companhias farmacêuticas conheciam os riscos (de suicídio e violência) desde os anos 80", disse Karen Barth Menzies, que está representando cerca de cem pessoas que processam os fabricantes devido a casos de suicídio nas suas famílias.

Não há consenso entre os médicos quanto à suposição de que a FDA teria agido muito vagarosamente. John March, professor e chefe da divisão de psiquiatria de crianças e adolescentes do Centro Médico da Universidade Duke, diz: "A FDA fez todas as coisas de forma totalmente correta". March acaba de concluir o maior estudo independente até o momento sobre a versão genérica do Prozac e os adolescentes. Segundo ele, autoridades do setor de saúde britânicas e canadenses "chegaram a conclusões prematuras", enquanto a FDA aguardou pela reavaliação dos dados da indústria farmacêutica, disse ele.

Já Steven E. Hyman, ex-diretor do Instituto Nacional de Saúde Mental e atualmente reitor da Universidade Harvard, diz acreditar que a FDA foi cautelosa porque a agência não queria enviar uma mensagem "assustadora" que faria com que as pessoas não tomassem os medicamentos.

Hyman acredita que a maior parte das pessoas se beneficia dessas drogas, mas confessa estar perturbado com o fato de se conhecer tão pouco sobre elas.

"Tenha uma profunda sensação inquietante de que nós realmente não entendemos o que está se passando", diz ele. "Precisamos de testes financiados pelo governo. São necessários testes objetivos e imparciais". Drogas populares têm efeitos colaterais piores que as doenças Danilo Fonseca

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