Sitcons americanas viraram espécie em extinção

David Kronke
Los Angeles Daily News

Jon Pollack, produtor executivo da nova série humorística animada por computador da rede NBC, "Father of the Pride" --uma das quatro comédias que a rede NBC estreou nesta temporada-- faz uma avaliação ponderada da atual situação das comédias de horário nobre das grandes redes: "O público conta com um bom radar no momento; quando uma nova sitcom é lançada, as pessoas esperam que ela seja ruim", disse ele. "Este é um problema real. Claramente, o público no momento está cético em relação às comédias."

Muito se tem falado do estado lamentável da sitcom de TV contemporânea, mas ao mesmo tempo, os programas de fim de noite e humorísticos do cabo têm prosperado com boas críticas e público leal.

O Comedy Central, por exemplo, produz programas como o vencedor do prêmio Emmy, "The Daily Show With Jon Stewart" --um programa de notícias satírico que conta diariamente com uma audiência modesta de pouco mais de um milhão de espectadores, às 23h; mas é uma base de fãs que transformou uma nova paródia em livro, "America: The Book", em um best seller instantâneo- assim como "Chappelle's Show" (cujo astro, Dave Chappelle, saltou fora das redes após ter suportado suas manipulações medíocres), "Reno 911!" (descartada pela rede Fox) e "South Park", programas que receberam mais elogios efusivos do que, digamos, a sitcom de horário nobre "O Jim é Assim" (According to Jim), que geralmente é citada como Prova Nº1 no argumento dos males do humor nas grandes redes.

Mesmo assim --com exceção da vencedora do Emmy neste ano, "Arrested Development", da Fox-- as grandes redes continuam a exibir programas mais parecidos com "Jim".

Chefes demais

"Não me surpreende", suspirou Lauren Corrao, a chefe de desenvolvimento do canal Comedy Central, que considera suas passagens pela Fox e ABC como "um dos motivos para ter voltado ao cabo. Eu não entendo nenhuma delas. Vender programas para as redes era incrivelmente frustrante; nunca deixou de me surpreender como as opções mais seguras eram aquelas que iam para o ar. Nós criávamos pilotos realmente decentes, mas eles eram considerados um pouco barulhentos demais; não tinham apelo junto a todos as esferas na estrutura da rede. Todos querem criar programas que sejam novos e originais, mas quando chega a hora de puxar o gatilho, ninguém parece disposto a se arriscar".

"Eu fiquei surpresa e estarrecida quando participei pela primeira vez" de uma reunião de rede para decidir a programação de outono, admitiu Corrao. "Todos tinham uma palavra de peso... o chefe das afiliadas, o chefe da venda de anúncios. Tais decisões deveriam vir da esfera criativa, e me surpreendi com quantas vozes precisavam ser ouvidas na elaboração da programação. Os presidentes das redes queriam certos programas, mas não conseguiam sua aprovação."

"Tudo o que é decidido por comitês tende a ser destilado como se passasse por vários filtros (...) soa como se estivesse falando de uma empresa de água engarrafada, não é?" concordou Alan Spencer, criador da atipicamente anárquica sitcom "Na Mira do Tira" (Sledge Hammer) dos anos 80 (atualmente um best seller em DVD), que considera Corrao como a melhor desenvolvedora de comédia trabalhando na TV atualmente.

"Toda vez que um programa supostamente 'inovador' ou 'arriscado' fracassa, os executivos das redes ganham evidência direta contra tentar qualquer coisa diferente", acrescentou Spencer. "É o principal motivo para citarem capítulo e versículo do evangelho 'O Jim é Assim'."

Robert Thompson, do Centro de Estudo da Televisão Popular da Universidade de Syracuse, sugere que as grandes redes continuam programando comédias pouco exigentes porque tais programas "funcionam junto a um público que está semi-sonolento, semimorto ou em coma. Eles são amigáveis ao usuário, de consumo fácil enquanto você está ocupado fazendo várias coisas, seja preparando a merenda dos seus filhos na escola, atendendo ao telefone ou trocando a fralda do nenê. Eles não exigem muita atenção. Você não consegue assistir dois minutos de um destes programas e ficar sem entender --praticamente são os programas que assistem a você".

Além disso, acrescentou Thompson, as sitcoms sempre foram formulaicas; os telespectadores ficaram mal-acostumados quando clássicos despontaram em um espaço muito breve.

"As emissoras tiveram séries de sucesso como 'Diff'rent Strokes', mas o nível de qualidade foi elevado por séries como 'Cheers', 'Seinfeld' e 'Os Simpsons' --quando você assiste um destes, é difícil voltar para 'Diff'rent Strokes'", notou Thompson.

"'Seinfeld' era de fácil consumo, mas brilhantemente engraçada; o mesmo vale para 'Cheers'. A rede NBC conseguiu pegar um gênero definido por sua leveza e falta de ambição e elevá-lo, criando obras-primas que não desafiavam suas convenções."

Peter Lefcourt, criador de TV ("Beggars and Choosers") e romancista ("Manhattan Beach Project", que será lançado em breve), lembrou que estas séries demoraram para encontrar telespectadores. "No ambiente atual, não há tolerância para o desenvolvimento de tais programas", disse ele.

Uma série pela qual torcer

Virtualmente todos os entrevistados para esta reportagem defenderam o vencedor do prêmio Emmy deste ano na categoria série humorística, "Arrested Development" da Fox, a saga de uma família gananciosa atingida pelo desastre financeiro. Ela equilibra audaciosamente o cinismo e a inteligência do cabo com o sentimentalismo do horário nobre. Quando a baixa audiência sugeriu que poderia ser cancelada, confessou Corrao do Comedy Central, "nós conversamos sobre como poderíamos financiá-la".

Lefcourt disse: "Quando você está prestes a lamentar a perda da esperança na TV, 'Arrested Development' permanece no ar, como que para defender um argumento... é como um chamariz para a Fox".

Mitch Hurwitz, o criador da série, reconheceu: "Nós nos beneficiamos com o fato de ter sido um período muito fraco para sitcoms. Caso houvesse mais sitcoms de sucesso, a Fox poderia se mostrar menos inclinada a manter uma que está tendo nossa performance de audiência".

Hurwitz atribui a aclamação de sua série aos "atores, que tornaram os personagens adoráveis, e aos roteiristas, que os tornaram detestáveis".

O astro Jason Bateman, que interpreta a única fonte de sanidade da família, explica elegantemente a dicotomia da série: "Estes momentos sinceros, desajeitados, são resultado de quão bem o roteiro estabelece os momentos ridículos. Eu fiz uma cena com Michael Cera (que interpreta seu filho); nós tínhamos este momento adorável fazendo bolinhos de milho. E no meio daquela cena calorosa, eu digo: 'Este é um bolinho pequeno', e é claro que ele fez um bolinho que não é tão grande quanto o habitual. Nós temos estes momentos dramáticos que todos os atores gostam, mas aí eles inevitavelmente puxam o tapete. Então você pode engoli-lo".

O sucesso da CBS, "Two and a Half Men" (ao ar no Brasil pela Warner), também combina habilmente sentimento e sofisticação em seu exame de dois irmão, marcados por uma mãe sem sentimentos, fazendo contato por meio de seus mecanismos diferentes de lidar com as coisas.

"Nós certamente estamos em uma indústria que está contratando, não há dúvida", notou o criador de séries Chuck Lorre, sobre os programas de humor nas grandes emissoras.

Ele acrescentou: "Nós temos uma equipe de redação composta de veteranos experientes, que certamente sabem como misturar os ingredientes, e também sabemos que crueldade apenas pela crueldade não é engraçado, é apenas uma saída barata. A verdade se encontra em algum ponto no meio. Dizer que sabemos o que o público quer é mentira, de forma que apresentamos o programa que achamos engraçado."

"Nós estamos tentando fazer mais do que humor insultante --há coisas demais para assistir, de forma que é hora de nos levantarmos e apresentarmos algo de valor", continuou Lorre. "Mas da forma como as séries estão indo, poderemos não ter outra chance. O circo está deixando a cidade, então é melhor apresentarmos algo de que nos orgulhemos, independente de sermos bem ou malsucedidos."

Robert Smigel contribuiu tanto para séries de cabo, fim de noite e horário nobre. Ele é mais conhecido pela criação de Triumph, The Insult Comic Dog para o programa "Late Night With Conan O'Brien" (Triumph lançou recentemente seu próprio DVD hilariante), mas Smigel também já escreveu para a série de horário nobre de Dana Carvey, que teve vida curta na rede ABC, o que lhe dá uma perspectiva única.

"Programas que se arriscam têm mais chance de serem grandes sucessos, caso as emissoras apostem neles", disse Smigel. "Você precisa guiar o público para ter um sucesso, da forma como fez 'Seinfeld'; um programa como aquele nunca emplacaria de imediato."

"Seria bom, ao mesmo uma vez, ver uma rede apoiar uma temporada inteira de uma série, deixando de lado o microgerenciamento, limitando-se apenas a contratar seus artistas/roteiristas favoritos e lhes dar carta branca. Apenas: 'Façam o que quiserem, aqui está o dinheiro, nos veremos em abril'. Quando você pensa em quantos pilotos bombam, quantas primeiras temporadas de séries bombam de qualquer forma, por que não arriscar? Quão mais baixo poderia ser o índice de sucesso? Desta forma, você poderia ao menos ter um ou até mesmo dois programas que realmente fariam a diferença." Comédias são apresentadas no Brasil pelos canais da TV paga George El Khouri Andolfato

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