Metallica conta sua conturbada história em filme

Greg Haymes
Albany Times Union

Um típico show do Metallica, com toda aquela bateção de cabeça, sempre teve aquele massacre sonoro brutal, de vez em quando interrompido por uma labareda irrompendo no palco. Numa ocasião memorável, saíram chamas de uma torre de iluminação, depois o operador de luz caiu do alto da cabine em pleno palco, os equipamentos desabaram e --o que é mais alarmante-- um integrante atravessou o palco pegando fogo.

Claro que tudo fazia parte do show.

E todo esse drama cenográfico dava uma certa pista para um drama real que estava para acontecer e abalar a mais poderosa banda metaleira do mundo.

A tensão entre os integrantes do grupo já estava aumentando há algum tempo, mas a primeira evidencia pública dos desentendimentos ocorreu em janeiro de 2001, quando o baixista Jason Newstead abandonou o Metallica depois de 14 anos.

Os membros remanescentes --o baterista Lars Ulrich, o guitarrista e vocalista James Hetfield e o "guitar hero" Kirk Hammett-- passaram a se digladiar no estúdio de gravação, tentando extrair um novo álbum, com o produtor Bob Rock cumprindo as rotinas do baixo elétrico.

Mas eles não estavam sozinhos no estúdio: depois de anos com crescentes ressentimentos e choques de ego, os integrantes da banda convocaram um "treinador para melhoria de desempenhos", Phil Towle, por um incrível salário mensal de U$ 40 mil (cerca de R$ 120 mil), para ajudá-los a debelar a tempestade interna que irrompeu na banda.

É isso mesmo --em pleno esforço para a gravação de um novo disco, a banda mais raivosa da terra estava também num delicado processo de terapia de grupo.

E eis que no meio das gravações, o astro Hetfield subitamente resolve abandonar tudo, batendo a porta para depois se inscrever numa clínica de reabilitação, onde ficaria por 11 meses, deixando o resto da banda no chamado mato sem cachorro.

"Obviamente, foi o álbum mais difícil que já produzimos, mas conseguimos completá-lo", diz Hammett a respeito de "St. Anger" (lançado pela Elektra), que finalmente foi lançado em junho de 2003.

"E o simples fato de que conseguimos terminá-lo foi uma realização e tanto --um grande sucesso, mesmo. Isso porque, como você sabe, chegamos a um ponto em que parecia que não conseguiríamos sequer formar uma banda, quanto mais gravar um disco novo e realizar uma turnê de lançamento. Então eu realmente sou grato pelo fato de termos chegado tão longe naquele momento difícil."

O Metallica certamente não é o primeiro grupo desajustado da história do rock --os Beach Boys e o Fleetwood Mac, por exemplo, poderiam render histórias para uma dúzia de novelas dramalhões. Mas a situação do Metallica é única por um detalhe diferente: a crise de desintegração da banda foi registrada, em todos os seus lances, para que o mundo inteiro visse.

Os premiados documentaristas Bruce Sinofsky e Joe Berlinger --cujo filme de 1996, "Paradise Lost: The Child Murders at Robin Hood Hills", e sua seqüência em 2000 contaram ambos com trilha sonora composta por músicas do Metallica-- tinham sido contratados pela gravadora Elektra para gravarem cenas promocionais da banda em estúdio. Sinofsky e Berlinger estavam lá desde a primeira sessão de gravações do disco "St. Anger", e mantiveram as câmeras gravando durante todo o aflitivo processo.

"Joe e eu sabíamos desde o primeiro dia de filmagens --durante uma sessão de terapia global com a maior banda de heavy metal do mundo-- que o filme tinha o potencial de ser algo mais que um "making of" convencional com cenas de bastidores", lembra Sinofsky, 48.

E o projeto se transformou em "Metallica: Some Kind of Monster" (Metallica: Uma Espécie de Monstro), crônica contundente de 140 minutos abordando a trajetória dos integrantes da banda, em que confrontam seus relacionamentos, crises de identidade e demônios pessoais.

"Você não precisa ser um fã do Metallica para curtir esse filme", diz Berlinger, 42. "Esse é um belo filme que dá um nó na imagem tradicional das bandas de heavy metal. E, o mais importante, esse filme é sobre relacionamentos humanos, sobre o processo criativo e o preço que se paga ao se trabalhar em grupo."

A produção do filme foi um empreendimento e tanto. Durante dois anos e meio, os diretores filmaram durante 178 dias em estúdio e outros 40 dias na estrada, reunindo incríveis 1.600 horas de cenas gravadas.

Quando a Elektra Records parou de financiar as filmagens, os integrantes da banda entraram em cena para cobrir o prejuízo --de cerca de US$ 2 milhões (R$ 6 milhões)-- para que as filmagens pudessem continuar.

"Durante dois anos e meio, nunca nos pediram para desligar a câmera", diz Berlinger, que com Greg Milner publicou um livro sobre o processo de produção do filme, "Metallica: This Monster Lives" (Metallica: Esse Monstro Está Vivo), que deverá ser lançado no próximo mês.

"Tivemos acesso completo às gravações. Lars (o baterista) disse: 'Tudo o que fizer a história avançar está valendo'. Ele só não queria tomadas baratas, gratuitas. E até mesmo o James (vocalista), que voltou da clínica pronto para as filmagens, nos deu total liberdade depois que assistiu a algumas cenas. Ele falou: 'Estou vendo aonde vocês estão querendo chegar. Então sejam verdadeiros e podem ir fundo'. Foi a única coisa que ele nos disse durante dois anos."

Hammett (o guitarrista) admite que assistir ao filme foi uma experiência dolorosa.

"Agora, depois de ter visto o filme tantas vezes, até não sinto tanto", confessa Hammett. "Mas nas primeiras quatro ou cinco vezes, é , foi bem difícil de assistir" .

"Mas o filme definitivamente apresenta uma versão honesta dos fatos. Claro que muito mais histórias rolaram porque era a vida real, e o Bruce e o Joe tiveram que comprimir tudo em duas horas e meia de filme. Mas, ao tecerem uma trama cinemática ao longo de todo o processo, acho que foram bem verdadeiros com o que realmente aconteceu." Banda tenta expor crises do convívio em "Uma Espécie de Monstro" Marcelo Godoy

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