Caetano faz disco para inglês ouvir

Rob Lowman
The New York Times News Service

Pode parecer estranho ouvir Caetano Veloso dizer que não consegue organizar sua vida.

Apenas escutar as realizações do superastro brasileiro, que tem sido chamado de um dos "verdadeiros individualistas" da música e o Bob Dylan de seu país, é assombroso. E aos 62 anos, ele tem a energia e a aparência de alguém bem mais jovem.

"Minha vida é muito imprevisível", diz Caetano com fala suave, por telefone de sua casa no Rio de Janeiro, onde vive com sua segunda esposa e seus dois filhos. "Eu não sei se vou para a cama muito tarde ou muito, muito, muito tarde, ou se vou acordar no meio da tarde ou no meio da manhã."

Mas tal estilo de vida pode ser adequado aos vorazes apetites intelectual e musical de Caetano. No final dos anos 60 ele foi um dos fundadores da Tropicália (também chamado Tropicalismo), o provocador movimento artístico que desafiou os governantes da ditadura militar do Brasil na época. Já um cantor-compositor bastante conhecido naquele momento, o ativismo político de Caetano teve um preço. O governo o prendeu e ele ficou exilado na Inglaterra, o motivo de sua fluência em inglês. Demorou dois anos para que fosse autorizado a voltar ao país. Mas quando ele voltou, em 1972, ele tinha uma nova perspectiva sobre a música -e a vida.

Hoje, o ganhador do Grammy é um herói nacional no Brasil - ainda respeitado pela geração mais jovem - e um dos músicos mais reverenciados e renomados do mundo. Ao longo dos anos, Caetano Veloso continuou com suas explorações musicais, de sambas leves a rocks pesados e aparentemente tudo entre eles -tudo soando de alguma forma naturalmente pessoal.

Seu mais recente projeto é "A Foreign Sound" (Universal), seu primeiro álbum cantado totalmente em inglês. Ele é, em um nível, um songbook americano eclético de compositores tão diversos como Cole Porter e Kurt Cobain. Mas à medida que você escuta, fica claro que há mais ali do que um mero álbum de tributo.

"Eu não acho que um produtor convencional o teria aprovado -era monstruoso", disse Caetano, que se apresentará no Royce Hall na quarta e quinta-feira. "Mas era muito fiel a mim. Porque eu queria fazer as canções comentarem outras."

O álbum começa com "The Carioca", interpretada por Fred Astaire no filme "Voando Para o Rio" (Flying Down To Rio). Veloso ficou atraído por ela porque era o Brasil idealizado por Hollywood quando os cineastas nada sabiam sobre o país. Então ele a tornou brasileira ao convidar músicos baianos para adicionar ritmos tropicais autênticos. Como piada, ele incluiu a canção "Feelings" -não, ele não é fã dela- por ser uma falsa balada americana.

Poucas pessoas sabem que o megassucesso americano foi composto e gravado originalmente no Brasil.

Outras idéias divertidas surgem enquanto você escuta as 22 canções do CD. Por exemplo, a sentida versão a capela de "Love for Sale" de Cole Porter é seguida por "The Man I Love". Ciente de que Porter era gay, ciente de que a maioria dos cantores americanos não a interpretaria sem mudar o gênero,
Caetano foi inspirado a incluir a composição de George e Ira Gershwin após ouvir sua interpretação pelo Coral Gay de San Francisco. Ele então as colocou lado a lado.

"Enquanto estava fazendo 'A Foreign Sound', eu estava pensando em todas estas coisas", disse Caetano. Ele também queria ter exemplos diferentes de rock no álbum. "O estilo Tin Pan Alley (uma região próxima dos teatros em Nova York onde se reuniam compositores e editores) é um tesouro, mas o aspecto histórico do rock and roll é outra coisa. Assim, ter Talking Heads, Nirvana, DNA, Paul Anka, Bob Dylan e Stevie Wonder em um mesmo álbum onde a maioria das canções é da Tin Pan Alley é algo que eu tinha que fazer."

Caetano disse que a idéia para "A Foreign Sound" surgiu nos anos 70, mas ele a adiou por vários motivos. Quando finalmente decidiu fazê-lo, ele disse, "eu o fiz de uma forma que permanecesse fiel a mim mesmo".

Quando eu lhe contei o comentário da minha esposa de que seu modo de cantar "realmente faz você escutar as letras", ele brincou: "Provavelmente é o sotaque". Mas ele também sabe o que ela quer dizer.

"Todas estas belas canções americanas têm sido gravadas por tantas pessoas que já são dadas por certas, e elas as cantam como belas canções -e é isto. Elas não parecem pensar nas letras exceto como algo que acompanha a melodia."

Quando perguntado sobre se faria outro álbum americano, Caetano respondeu: "Eu não penso nele como americano; é tão brasileiro", o que começa a lhe dar uma idéia do pensamento de Caetano Veloso.

Além das canções de "A Foreign Sound", Caetano apresentará suas próprias canções. Mesmo que você não saiba português, a música de Caetano Veloso é tão rica e sedutora que será entendida.

"O que primeiro me chamou a atenção sobre Caetano foi sua voz, que é muito suave e bela", disse Tom Schnabel do "Café L.A." da rádio KCRW. "David Byrne disse algo como: 'Eu escuto Caetano Veloso toda manhã como uma canção de despertar'."

Mas não deixe o cantar suave de Caetano lhe enganar. "Ele gosta de ser provocativo", notou Schnabel.

Uma das canções que Caetano planeja apresentar se chama "Diferentemente", um novo samba "engraçado" que menciona "Osama" e "Condoleeza". Ao ser perguntado sobre do que se tratava, Caetano explicou que começou ao não entender direito a letra de uma canção recente de Madonna. Ele a estava escutando porque lhe disseram que a produção e os truques eletrônicos no álbum eram interessantes.

Caetano descreveu "Diferentemente" como sendo sobre "uma experiência mística de alguém passando a saber quem é devido ao amor". E então, pensando na canção "God" de John Lennon, ele acrescentou: "Diferentemente de Osama e Condoleeza, eu não acredito em Deus".

"Eu lembro que durante a canção do Lennon ele faz uma longa lista de coisas em que não acredita (...) e ele termina dizendo: 'Eu só acredito em mim. Yoko e em mim'. É uma canção engraçada. É minha gravação Beatle pós-Beatle favorita."

Parece haver pouco que não sirva de fonte para a música de Caetano -Madonna, Beatles, trilhas de filmes de Fellini, movimentos artísticos, história. Seu livro "Verdade Tropical" discute a posição singular do país como um país português cercado por espanhóis.

Como ex-exilado, Caetano sabe como é ser um forasteiro. Ele cantará sobre isto no concerto na canção "O Estrangeiro".

E pode ser este ponto de vista singular de um forasteiro que faz Caetano parecer tão modesto quanto às suas realizações. "Quando eu tinha 40 ou 45 anos, eu fiquei pensando que o que fiz não seria interessante para pessoas que não falassem português. Assim, eu não estava preparado para o que aaconteceu. Eu ainda não sei o que fazer."

Mas seja lá o que venha a fazer a seguir -e Caetano não sabe ao certo- não espere por uma diminuição do seu ritmo. A mãe dele completou recentemente 97 anos, e na comemoração do aniversário ela ainda estava "bem lúcida e ainda dançando". Sem perder o ritmo, Veloso disse que sua juventude "deve estar no DNA", lembrando que gravou uma canção daquele grupo em "A Foreign Sound". George El Khouri Andolfato

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