"Celsius 41.11" empobrece a sutileza do discurso político

Manohla Dargis

Se você não sabe de onde veio o novo filme "Celsius 41.11", é porque certamente não viu a cena na qual os produtores fazem um corte de uma imagem justaposta de Michael Moore e Hitler diretamente para uma outra de John Kerry e John Edwards. Se a justaposição não fosse tão descarada, se o clima político não fosse tão indecente, se o país não estivesse em guerra e homens, mulheres e crianças não estivessem morrendo nessa guerra, tal triunvirato composto por Moore, Hitler e Kerry poderia ser motivo de risos. Mas, na atual conjuntura, trata-se de um indicador deprimente do nosso discurso político e daquilo que passa por documentário nos dias de hoje.

Dirigido por Kevin Knoblock, que circulava principalmente nos circuitos de televisão a cabo, e escrito e produzido por Lionel Chetwynd e Ted Steinberg, "Celsius 41.11" foi feito, segundo um comunicado à imprensa feito pelo Citizens United, o grupo que produziu o filme, "para refutar a propaganda contida em 'Fahrenheit 9/11', de Michael Moore". Em um nível básico de análise, esse novo trabalho não passa de simplesmente mais um integrante da mini-indústria de detratores que surgiu em torno de Moore e que adotou uma postura de combatividade ainda mais frenética após o mais recente sucesso cinematográfico do diretor. Essa curiosa mini-indústria inclui o livro "Michael Moore Is a Big Fat Stupid White Man" ("Michael Moore é um Homem Branco, Grande, Gordo e Estúpido"), escrito pelos detratores de Moore, David T. Hardy e Jason Clarke, que aparecem em um outro filme anti-Moore, Fahrenhype 9/11".

Ao contrário de "Fahrenhype 9/11", que se empenha em negar a veracidade das principais alegações feitas em "Fahrenheit 9/11" (por exemplo, os supostos vínculos da família Bush com as elites dominantes da Arábia Saudita), os cineastas responsáveis por "Celsius 41.11" dedicam um tempo surpreendentemente pequeno para realmente refutarem Moore. O que Knoblock, Chetwynd e Steinberg procuram fazer no filme é deixar o público com muito, muito medo. E assim, em meio a narradores que falam sobre a política norte-americana e internacional e que exaltam a visão e as virtudes do presidente Bush (entre os comentaristas estão o diretor-executivo da "Weekly Standard", Fred Barnes, o pesquisador do American Enterprise Institute, Michael A. Leeden, e, contribuindo para diminuir a credibilidade do filme, o crítico Michael Medved), o filme apresenta uma imagem do mundo descambando para o apocalíptico.

Propagandistas menos experientes que Moore, os responsáveis por "Celsius 41.11" aplicam a sua tese de forma nada sutil. O filme começa com a imagem da segunda torre do World Trade Center sendo atingida por um avião, e retorna em uma repetição insistente às cenas do ataque, mostrando o prédio em chamas e desmoronando. Os cineastas deixaram a sua linha de argumentação política clara ao inserirem, logo após as imagens do ataque, cenas de manifestações contra a guerra. Uma manifestante imbecil defende a ditadura (ela é realmente favorável a essa saída, caso isso implique em assistência médica gratuita para todos), em um segmento isolado de incoerência seguido por imagens de crianças mortas. Assim como ocorre com a maioria do material jornalístico exibido em "Celsius 41.11", é impossível saber quem são essas crianças e quem as matou. Outras imagens, incluindo as de uma mulher usando burka sendo executada, também ficam sem identificação.

Esse tipo de estratégia negligente baseada em cortes e colagens não é exclusivo de "Celsius 41.11". Os argumentos de Moore em "Fahrenheit 9/11", por exemplo, seriam mais persuasivos se ele fosse mais exato e honesto com relação ao material utilizado. Mas os presumíveis deslizes de Moore como cineastas e como assumido esquerdista revelador de escândalos não podem ser comparados aos dos responsáveis por "Celsius 41.11". Tampouco se pode comparar a qualidade do filme de Moore àquela de "Celsius 41.11".

Consistindo em um longo e didático discurso que segue a linha de uma apresentação com PowerPoint e que possui toda a sutileza de um alerta vermelho da Agência de Segurança da Pátria, "Celsius 41.11" acaba sendo interessante apenas porque representa uma outra tentativa não convincente da parte dos conservadores de montar uma crítica viável a Moore. O filme também sugere que o talento da direita para transformar ideologia em narrativa convincente, algo tão evidente durante o governo Reagan, desapareceu completamente.

"Celsius 41.11" também prova que assistir imagens não é necessariamente suficiente quando se trata de um filme de não ficção, uma regra verdadeira para todos os filmes de todas as tendências políticas, mesmo aqueles destituídos de uma agenda ostensiva. E esse fato é de uma evidência mais flagrante em "Celsius 41.11" com Mansoor Ijaz, um dos narradores mais alarmistas, que inicialmente é apresentado apenas como "um especialista em terrorismo".

Durante o filme, que tem apenas uma hora e 12 minutos de duração, as opiniões de Ijaz foram suficientemente enérgicas para espicaçar a minha curiosidade. Afinal, tratar-se-ia de um especialista em terrorismo que divulga desembaraçadamente opiniões contundentes, como, por exemplo, "o mundo árabe só entende a linguagem da força" e que expõe a "tolice absoluta" que foi a administração Clinton.

Mas, quem é Ijaz? Bem, entre outras coisas, ele é um físico nuclear e diretor do banco Crescent Investment Management. Em uma entrevista de 1997 com Ijaz, publicada no "The Washington Post", o Crescent foi descrito como possuindo uma carteira de investimentos de US$ 2,7 bilhões, grande parte dessa quantia pertencente a governos do Oriente Médio. Ijaz disse que estava especialmente interessado na exploração de novos campos de petróleo. O Sudão, com a suas reservas moderadas estimadas em 3,5 bilhões de barris, em breve deveria se tornar um exportador de petróleo, e Ijaz afirmou que esperava gerenciar parte dos investimentos estrangeiros de Cartum advindos dos lucros com o produto.

Os responsáveis por "Celsius 41.11" não revelam até que ponto Ijaz investiu no Oriente Médio, ou o grau de intimidada da qual desfrutava com a tolice da Casa Branca de Clinton. Em um artigo de 1997 do "The New York Times" a respeito das recentemente concluídas audiências sobre o financiamento de campanha (lideradas por um outro narrador do filme, um pensativo Fred Thompson), Jill Abramson escreveu: "Às vezes um doador recebe, como retorno pelos seus esforços, um tapa na cara. Mansoor Ijaz, um empresário de Nova York, arrecadou mais de US$ 500 mil para a causa democrata e se reuniu com funcionários graduados do governo na Casa Branca, no Departamento de Estado e no Congresso para pressionar pela normalização dos laços com o Sudão, onde Ijaz possui interesses empresariais. Na semana passada, o Departamento de Estado anunciou sanções mais severas contra o Sudão devido ao fato de este país apoiar o terrorismo internacional".

Os cineastas dizem que o título "Celsius 41.11" representa "a temperatura na qual o cérebro começa a morrer". Não fica claro se eles pretendiam ter um título que representasse aquilo que acontece quando alguém vê um filme de Moore ou o deles próprios, ou se se trata simplesmente de uma espécie de elegante e centrado autodiagnóstico.

NOTAS DA PRODUÇÃO
"CELSIUS 41.11"

Dirigido por Kevein Knoblock; escrito e produzido por Lionel Chetwynd e Ted Steinberg; baseado nos livros "The Many Faces of John Kerry" ("As Várias Faces de John Kerry") e "Intelligence Failure: How Clinton's National Security Policy Set the Stage for /11" ("Fracasso de Inteligência: Como a Política de Segurança Nacional de Clinton Criou as Condições para o 11 de Setembro"), de David Bossie; editado por Michael Hilton e John Tracy, lançado pelo grupo Citizens United. Duração: 71 minutos.

COM: Tony Calabrese (Narrador) e Fred Barnes, Michael Barone, Barbara Comstock, Alice Fisher, Mansoor Ijaz, Charles Krauthammer, Michael A. Ledeen, Michael Medved, Joshua Muravchik, John O'Neill, Bill Sammon, Fred Thompson e Victoria Toensing. Danilo Fonseca

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