Confortavelmente fora do mainstream, R.E.M. segue seu caminho

Gary Graff
Em Beverly Hills (MI)

No ano passado, quando a banda pegou a estrada para turnês pela Europa e América do Norte, os favoritos de longa data do rock alternativo estavam no meio da gravação de seu 13º álbum de estúdio. Na época, os músicos falavam de um esforço para realizar um rock mais pesado, composto de canções com maior pegada, com arranjos mais simples. Agora eles admitem terem ficado tão surpresos quanto seus fãs com a exuberância e riqueza de textura de "Around the Sun".

"Quando pegamos a estrada, parecia na época que seria um álbum mais despojado, o que era a minha meta", disse o guitarrista Peter Buck. "E quando retomamos as gravações em janeiro, nós refizemos muita coisa, e havia novas canções para gravar. Quando começamos a escutar tudo o que tínhamos, ficou claro que o álbum não seria tão caótico quanto imaginávamos que seria no início."

"Muitas das coisas mais roqueiras ficaram de fora porque não combinavam com o que estávamos fazendo", disse Buck. "O álbum simplesmente se transformou no que é. Não foi algo que planejamos."

Mas o baixista/tecladista Mike Mills acrescentou que não vê nada de errado no que "Around the Sun" se transformou.

"Você simplesmente pega as melhores canções e tenta realizá-las da melhor forma possível", disse Mills. "Nós estávamos na verdade tentando torná-lo (o álbum) menos rebuscado, mas eu acho que estamos explorando a beleza que você pode encontrar na música. Eu realmente gosto de coisas em camadas, que se revelam à medida que se escuta repetidas vezes."

Mais do que muitas outras bandas, o R.E.M. entende que às vezes são necessários tempo e paciência para que as coisas se encaixem.

Quando foi formada em 1980, em Athens, Geórgia, o R.E.M. era diferente de tudo no mainstream do rock. Ele não era um grupo ostentoso de new wave, nem uma banda punk furiosa. Em vez disso, ele explorava o rock clássico -o som de guitarra dos Byrds- e heróis underground como Velvet Underground e Television, enquanto as letras poéticas do vocalista Michael Stipe buscavam inspiração em Patti Smith.

O R.E.M. se tornou rapidamente popular entre os críticos, mas não emplacou um grande sucesso até "Stand" (1988) chegar aos 10 mais, antecipando "Out of Time" (1991), um álbum que esteve no topo das paradas e lançou sucessos como "Losing My Religion" e "Man on the Moon". Ele se tornou o primeiro de três lançamentos consecutivos que receberam quatro discos de platina cada para a banda.

Mas os últimos anos têm sido magros para o R.E.M., pelo menos em sua terra natal. A partida em 1997 do baterista Bill Berry, que sofreu um duplo aneurisma cerebral no palco dois anos antes, tirou o grupo dos trilhos. Os álbuns subseqüentes como "Up" (1998) e "Reveal" (2001) obtiveram apenas disco de ouro, enquanto a execução nas rádios também secou.

"Na América, em particular, nós não temos vendido tantos álbuns ultimamente", reconheceu Buck, 47 anos. "Isto, eu presumo, se deve a não estarmos no rádio e nem na MTV, e entendo isto. Nós estamos por aí há muito tempo. Bob Dylan não está na MTV nem no rádio -se eles não tocam Bob Dylan, eu entendo porque não vão tocar a gente."

Mas o mesmo não vale para os países estrangeiros.

"Fora da América nós estamos mais populares do que nunca", disse Buck. "É como ser os Beatles na Itália, na Irlanda ou Inglaterra, e é realmente intenso, realmente divertido e legal."

Portanto, "Around the Sun" não foi planejado para reconquistar o público da banda em casa, mas sim para apresentar um conjunto de músicas com as quais Buck, Mills e Stipe se sintam satisfeitos. Eles iniciaram o trabalho no álbum em dezembro de 2002, em Vancouver, acompanhados pelo co-produtor de longa data, Pat McCarthy, e os demais membros da banda que os acompanham em turnê, Scott McCaughey, Bill Rieflin e Ken Stringfellow.

Interessantemente, a primeira faixa do álbum e primeiro single, "Leaving New York", foi tanto uma das primeiras na qual a banda trabalhou como uma das últimas.

"Eu acho que provavelmente foi a primeira ou a segunda gravada em demo", disse Buck. "Então não fizemos nada com ela por um ano inteiro. No final do processo, Michael disse: 'Eu tenho um vocal para isto. Por que não editamos ela um pouco e a tocamos?' Assim, ela ficou esperando por um longo tempo, e de muitas formas é o que há de mais novo no álbum."

Há um forte tom político em algumas das canções de "Around the Sun". O grupo até mesmo disponibilizou uma canção altamente política, "Final Straw", em seu site no verão de 2003.

"Nós estamos muito preocupados com a situação política na América", disse Mills, que participou da turnê "Tell Us the Truth" (nos diga a verdade) concentrada em temas, no outono de 2003. O R.E.M. também participou da recente turnê anti-Bush "Vote for Change" (vote por mudança), juntamente com uma coalizão de artistas e tocando junto de Bruce Springsteen & The E Street Band, uma experiência que Mills, 45 anos, chamou de "ridiculamente fantástica".

"Parecia que, se íamos expor nossa posição política no álbum, esta seria uma forma de fazê-lo", disse Mills, apesar de ter acrescentado que Stipe, como letrista da banda, foi cuidadoso em escrever canções que não ficassem ligadas demais ao momento específico em que forma compostas.

"Este é um dos dons dele", disse Mills. "Michael pode escrever sobre assuntos específicos, mas mesmo assim eles não soam datados. Ele pode fazer declarações bem específicas, e ainda assim elas soam relevantes cinco anos depois."

O R.E.M. também pretende manter sua relevância, independente da performance comercial de "Around the Sun".

"A única coisa que fará a diferença nos Estados Unidos é se tivermos uma música de sucesso", disse Mills, "e eu praticamente deixei de esperar que isto acontecerá novamente. E não importa. Nós tocaremos para as pessoas que querem nos ver, e vamos vender aquilo que vendermos. É assim que será."

O que realmente não é tão diferente da filosofia original da banda, quase 25 anos atrás.

"Isto é o que é engraçado", disse Mills. "Quando começamos, nós não fazíamos parte do mainstream, e agora estamos novamente fora do mainstream." Às vezes as aparências podem ser enganadoras. Pergunte aos membros do R.E.M. George El Khouri Andolfato

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