Uma disputa por rotas aéreas no oeste asiático

Keith Bradsher
Em Hong Kong

HONG KONG - A Cathay Pacific Airways fechou, na quarta-feira (20/10), um acordo para comprar uma participação da Air China. A medida reforçou a discussão pelo oeste asiático, especialmente em Hong Kong e China, sobre quão agressivas podem ser as empresas aéreas na competição por rotas internacionais.

Em jogo está o mercado de aviação regional que mais cresce no mundo, centrado na China. A luta pelo acesso ao mercado atraiu não só empresas aéreas, mas bancos, consultores, advogados e lobistas em busca de contratos.

No coração do debate está Hong Kong, lar do maior aeroporto em número de passageiros internacionais e o maior centro de aviões de carga do mundo. Muitos dos argumentos na disputa se assemelham aos dos aeroportos dominados por uma única companhia aérea nos EUA.

Cathay Pacific é a maior empresa da região e vem impedindo outras companhias aéreas, especialmente americanas e australianas, de conquistarem maiores direitos para voar por Hong Kong e carregar passageiros para outros destinos asiáticos. Ao mesmo tempo, entretanto, Cathay e o governo de Hong Kong vêm pressionando Pequim para que permita mais vôos para as cidades chinesas do continente.

A questão mais imediata agora é se a participação de 9,9% da Cathay na estatal Air China vai ajudar a aliviar as objeções de Pequim a permitir mais vôos da Cathay para o país. Pequim limita esses vôos estritamente, enquanto tenta preparar suas empresas domésticas para a competição internacional. Apesar da proteção, a China aumentou o número máximo de vôos no mês passado e tem permitido ultimamente mais vôos diretos dos EUA.

Antony Tyler, que supervisiona as negociações de rotas da Cathay como seu diretor de desenvolvimento corporativo, disse em um fórum na quinta-feira que o acordo com a Air China faz sentido, mesmo deixando de lado a perspectiva de maior acesso ao mercado chinês. "Esse é um investimento. Conquistar maiores direitos de tráfego para a China é uma questão totalmente separada", ele disse.

No entanto, no inicio do fórum, Tyler também expressou o desejo da Cathay de oferecer vôos de Hong Kong para Xangai. Atualmente, a rota tem prosperado nas mãos da Dragonair, que tem o governo da China como seu maior acionista, apesar de a Cathay deter um sexto das ações.

Lenta, mas constantemente, Hong Kong vem permitindo mais vôos de outros países, algumas vezes por cima de objeções da Cathay. No entanto, a abertura não tem sido rápida o suficiente para a FedEx Express, em particular. Em vez disso, a FedEx está conduzindo negociações para montar um centro de operações a 130 km montante no rio Pearl, em Guangzhou e tem criticado a Cathay fortemente.

"Quando você olha para Hong Kong, é um mercado de monopólio e duopólio. Como moro e adoro isso aqui, minha preocupação é que o mundo tenha seguido adiante", disse David Cunningham, presidente das operações da Ásia e do Pacífico da FedEx.

A Cathay Pacific é responsável por um terço dos passageiros que passam por Hong Kong; ela detém uma participação minoritária na Dragonair, que tem outro décimo do mercado; e agora está investindo na Air China, dona de outra percentagem do tráfego aéreo da cidade.

Os limites à competição tendem a provocar preços mais altos, mas também ótimos serviços. Os comissários de bordo da Cathay, inúmeros e rápidos, conseguem servir a todos passageiros da classe econômica uma refeição quente, mesmo durante vôos de 80 minutos, lotados, para Taipei.

Tyler admitiu que as tarifas são mais altas que em outros mercados, mas atribuiu isso a fatores de longa data, especialmente diferenças de taxas de câmbio. Ele insistiu que Hong Kong tem um mercado competitivo, acrescentando que a Dragonair e a Cathay competem não só entre si, mas com ao menos uma outra companhia aérea em cada rota.

O surto letal virótico do ano passado, da síndrome respiratória aguda grave, ou Sars, ressaltou o valor para Hong Kong de ter uma empresa com base local. Rapidamente, as outras companhias aéreas suspenderam seus serviços, enquanto a Cathay continuou voando, disse Tyler. "Mantivemos Hong Kong conectada ao mundo", acrescentou.

Em uma nota de desprezo aos EUA, que sempre almejaram maior acesso para suas empresas aéreas, Sandra Lee, secretária permanente de desenvolvimento econômico de Hong Kong, salientou que suas políticas não incluíam dar empréstimos fáceis às empresas ou permitir que se refugiassem de credores em processos de falência.

Na Ásia como na Europa, décadas de políticas nacionalistas destinadas a proteger as empresas nacionais da competição estrangeira gradualmente estão sendo desmanteladas. Os limites sobre os números de vôos internacionais entre cidades estão sendo lentamente aumentados e, em alguns casos, eliminados inteiramente.

Junto com a chegada de empresas econômicas, como a Air Ásia da Malásia e a Virgin Blue, da Austrália, que se aproveitam da maior liberdade nas rotas, a competição está forçando empresas estabelecidas a controlarem custos e, em alguns casos, reduzirem as tarifas.

Singapura, Malásia e Tailândia lideraram a tendência de céus abertos e atraíram mais passageiros para seus aeroportos, algumas vezes em prejuízo de Hong Kong.

Tyler disse que depois de concluir o acordo de quarta-feira, celebrou em um concerto do Eagles, naquela noite. Ele acrescentou: "Se eu fosse a Lufthansa e United, que claramente cortejaram a Air China, certamente pensaria: 'Aonde isso vai dar?'" Deborah Weinberg

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