Autobiografia de Dylan oculta eventos cruciais

Michael Eck
Albany Times Union

Aos 63 anos, Bob Dylan continua sendo o bobo da corte do rock and roll. Ele é mais espirituoso, sábio e estranho do que qualquer um.

Seu novo livro, "Chronicles: Volume One" (Simon & Schuster; 293 páginas; US$ 24), nem mesmo tenta ser uma autobiografia, mas o capuz é retirado o suficiente para revelar alguns dos pensamentos interessantes que passam pela cabeça de Bob.

Em 1971, Dylan publicou o tardio e criticado "Tarântula", um tomo famosamente inescrutável que ele demorou demais para escrever e que poucos --exceto seus fãs mais ardorosos-- tiveram energia para ler.

Por outro lado, "Chronicles" é lúcido, claro e divertido, mesmo se o leitor sentir a sensação constante de que sua perna está sendo puxada de algum lugar abaixo da página. Ele é honesto e evasivo ao mesmo tempo.

Não apenas Dylan passa ao largo ou ignora totalmente eventos-chave --sua estréia elétrica no Newport Folk Festival de 1965, seu lendário acidente de 1966 em Woodstock ("Eu sofri um acidente de motocicleta e me feri, mas me recuperei" é tudo o que ele diz), seu divórcio de sua primeira esposa em 1977, e suas conversões religiosas.

O músico também insere livremente citações apócrifas da história (incluindo versos adicionais tolos para canções) e piadas sugestivas (como uma referência matreira a "The Wreck of the Edmund Fitzgerald" de Gordon Lightfoot).

Mas quando ele é direto, mesmo antigas histórias como a narrativa de Dylan de sua chegada a Greenwich Village, em janeiro de 1961, ganham nova vida: "Eu não estava à procura de dinheiro ou amor. Eu tinha um senso ampliado de consciência, estava concentrado em meu caminho, além disso não prático e visionário. (...) Eu não conhecia nenhuma alma nesta metrópole sombria e congelante, mas isso estava prestes a mudar e rápido".

Ele escreve sobre Woody Guthrie com a devida reverência, e cita a influência de pares como Spider John Koerner, Fred Neil, Len Chandler e Dave Van Ronk.

Von Ronk, ele escreve, foi "o grande dragão. (...) Ele veio da terra dos gigantes". Quando Dylan chegou ao apartamento de Van Ronk com um acetato de teste das gravações para a Columbia do bluesman Robert Johnson -na época virtualmente desconhecido- o não impressionado Van Ronk prosseguiu explicando ao espantado Dylan de onde Johnson roubou todos os seus "licks".

Dylan passa ao leitor o verdadeiro senso da urgência que fervilhava no cenário folk da época. "O destino estava prestes a se manifestar", ele escreve. "Eu sentia como se ele estivesse olhando diretamente para mim."

Ao longo do livro, Dylan também sugere as epifanias que o conduziram ao seu estilo único de composição. Após mergulhar nas canções tradicionais de Mike Seeger e New Lost City Ramblers, "me ocorreu o pensamento de que talvez eu devesse escrever minhas próprias canções folk, algumas que Mike não conhecesse".

Assim como Dylan brincou com a estrutura do arco narrativo em canções como "Tangled Up In Blue", ele faz o mesmo em "Chronicles". O tempo simplesmente salta.

Ele finalmente fala sobre a vida doméstica em Hibbing, Minnesota, no capítulo final, que o encontra, como no começo do livro, falando metaforicamente de seu escritório de seu primeiro editor, Lou Levy.

Talvez a reviravolta mais interessante em "Chronicles" seja Dylan passar um terço do livro falando sobre a criação de dois álbuns, "New Morning" de 1970 e "No Mercy" de 1989. Apesar de nenhum ser considerado essencial na obra de Dylan (apesar do segundo ter chegado muito perto), as histórias são fascinantes.

Algumas das canções de "New Morning" vieram de uma colaboração fracassada com o poeta Archibald MacLeish em uma peça chamada "Scratch". Dylan revela que na época de seu trabalho com MacLeish, ele estava atormentado com sua própria fama -especialmente seus efeitos sobre sua jovem família. Ele estava cheio de raiva contra aqueles que violavam sua privacidade: "Eu queria incendiar aquelas pessoas", disse ele sobre aqueles que invadiam sua casa em Woodstock em meados dos anos 60.

"O que eu fantasiava", diz ele com um clichê comovente, "era uma existência comum, uma casa em um quarteirão com árvores enfileiradas e uma cerca branca, rosas vermelhas no quintal (...) aquele era meu maior sonho".

Dylan é igualmente franco quando, durante sua descrição da produção de "No Mercy", ele se repreende por permitir o declínio de sua atenção ao seu ofício. "A intimidade, entre outras coisas, tinha desaparecido. Para os ouvintes, deve ter sido como pomares desertos e gramado morto."

Mas no final, as sessões provam ser outra epifania --em parte devido ao trabalho do produtor Daniel Lanois, que "parecia o tipo de sujeito que, quando trabalha em algo, o faz como se o destino do mundo dependesse de seu resultado".

Em essência, o álbum e o período de criatividade que ele gerou lançaram Dylan na "The Never Ending Tour" que ainda continua 15 anos depois.

Dylan deixa claro que "Chronicles" também prosseguirá.

Ele fecha o livro com uma mistura de imagens --a assinatura com o empresário Albert Grossman, a recompra de seu contrato com Levy e uma lista de outros cidadãos famosos de Minnesota, os escritores F. Scott Fitzgerald e Sinclair Lewis, e o roqueiro Eddie Cochran, com o qual sente "afinidade".

Então ele retorna para a cena folk que se mobilizava em torno dele naquele primeiro inverno desesperado em Nova York.

"A estrada seria traiçoeira", ele escreve, "e eu não sabia para onde ela levaria, mas eu a segui mesmo assim".

"Um mundo estranho se desdobraria à frente, um cúmulo de trovoada com bordas dentadas cheias de raios. (...) Eu fui direto em sua direção. Ela estava bem aberta." Livro é bom, mas não aborda momentos importantes da carreira George El Khouri Andolfato

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