Luta contra obesidade vira desafio de americanos

Carey Hamilton
The Salt Lake Tribune

Marsha Christiansen viu seu marido morrer de câncer este ano e teme que em breve terá que enterrar seu amado filho, Mark.

Mark é obeso desde a infância, mas agora, com 30 anos, ele está chegando a 270 kg. Com um joelho machucado, tem dificuldades em ficar em pé. Ele teve que tirar licença do trabalho de técnico de qualidade da Abbott Laboratories, em Salt Lake City (capital do Estado de Utah, no oeste dos EUA), e passa a maior parte do dia sentado, ligado a um aparelho de oxigênio.

Apesar da situação de Mark ser extrema e possivelmente horrível, ressalta a epidemia crescente de excesso de peso no país. Os americanos estão mais gordos que nunca: 60% dos adultos são considerados acima do peso. Especialistas culpam o estilo de vida sedentário, alimentos processados, lanchonetes e anos de apatia.

Em Utah, 55% dos adultos estão com excesso de peso. O índice de obesidade aumentou de 10,7% em 1989 para 19% em 2002, de acordo com o Departamento de Saúde de Utah.

"Todos os dias em Utah, 65 pessoas passam de gordas a obesas", disse LaDene Larsen, diretora do escritório de promoção da saúde do departamento de saúde.

Ficaram na história os dias em que se descreviam os gordos como alegres. A obesidade, definida como 45 kg ou mais acima do peso ideal, é a segunda causa de morte evitável nos EUA, depois do cigarro, e importante fator de risco para diabetes, doenças cardíacas e derrame.

Mark lutou contra seu peso --e contra ser chamado de gordo e preguiçoso-- toda sua vida. Ele acredita ter herdado um metabolismo lento; outros membros da família têm excesso de peso; seu pai chegou a pesar 500 kg.

Quando era criança, seus pais o alimentaram com legumes, frutas e carnes e limitaram suas balas e refrigerantes, porque ele era parrudo aos 5 anos. Como adulto, Mark tentou a dieta de Atkins de baixo carboidrato e remédios para emagrecimento, mas diz que nada funcionou.

Agora, ele está em um dilema. Antes de operar o joelho, o que permitirá que volte a uma vida mais normal, ele precisa perder peso. Mas mover-se o suficiente para perder peso é um problema, porque o joelho ruim não agüenta.

"Quero voltar ao trabalho", disse Mark. "Um médico me disse que eu ia morrer em dois anos e isso foi há quatro anos. Mas realmente não sei o que vai acontecer comigo, se não conseguir ajuda."

O médico de Mark, Warren Stack, em West Valley City, diz que Mark precisa fazer a cirurgia de desvio gástrico. Mas seu seguro médico não cobre o procedimento, que custa entre US$ 17.000 e US$ 25.000 (entre R$ 51.000 e R$ 75.000).

"É indispensável reparar a fratura em seu joelho, mas o cirurgião não fará a cirurgia até que perca peso", disse Stack. "Ele não pode perder peso porque está imobilizado. É uma espécie de ciclo vicioso. Seu seguro médico deveria entender que, se voltar a ser produtivo, vai ter mais um pagante. É um sujeito trabalhador e amado em seu ambiente de trabalho."

No passado, o dilema de Mark era considerado um problema pessoal, e não médico. Mas essa postura está começando a mudar. Recentemente, o Medicare definiu a obesidade como doença, uma medida que deve pavimentar a cobertura pelo programa de cirurgias bariátricas (para reduzir o tamanho do estômago). Os seguros privados podem se sentir pressionados a acompanhar a medida do Medicare.

Enquanto isso, é difícil Mark obter ajuda. E certamente não está sozinho nessa batalha. O índice de habitantes com excesso de peso em Utah está abaixo da média nacional. Segundo as autoridades, isso se deve a fazerem mais atividade física regular. De fato, apenas dois Estados --Montana e Alaska-- registraram maior índice de atividade física em 2003.

Mesmo assim, mais da metade da população do Estado está mais pesada do que deveria.

"Como sociedade, reduzimos a quantidade de atividade física, enquanto a comida está cada vez mais disponível", disse Larsen.

Apesar do estilo de vida ter grande papel na epidemia, a ciência indica que a genética também contribui.

Ted Adams e Steven Hunt começaram a estudar a genética da obesidade em 1988, no Departamento de Genética Cardiovascular da Universidade de Utah. Eles acompanharam 7.000 pessoas de 400 famílias do Utah com ao menos dois membros que tinham 34 kg ou mais de excesso de peso.

"Fizemos muitos genótipos dessas pessoas", disse Hunt. "Descobrimos que poucas famílias tinham apenas uma pessoa obesa. Das famílias que estudamos, 90% tinha um ou mais dos genes que contribuem para a obesidade."

Os genes influenciam o apetite e o metabolismo. Adams e Hunt teorizam que nossos genes continuaram os mesmos, enquanto nossos estilos de vida tornaram-se cada vez mais sedentários. Quando a comida era rara e tínhamos que caçar para comer, nossos genes conservavam energia. Agora a comida é abundante, e a população menos móvel, mas nossos corpos continuam armazenando a energia que não estamos gastando, levando ao excesso de peso.

Além disso, os corpos de algumas pessoas retêm o combustível com mais força que outros.

"Duas pessoas podem comer a mesma coisa e uma queimar o alimento muito mais rápido", explicou Adams. "Algumas pessoas podem comer o que quiserem sem engordar. Outras seguem uma dieta restrita e continuam obesas."

Adams compara a obesidade com o cigarro. Enquanto pessoas em algumas famílias podem fumar a vida inteira sem desenvolver câncer de pulmão, outras morrem da doença, disse ele.

Adams e Hunt dizem que ainda faltam pesquisas que identifiquem os genes que predispõem a pessoa à obesidade. Quando isso estiver feito, as empresas farmacêuticas poderão desenvolver drogas para alterar a atividade dos genes, da mesma forma que criaram drogas para baixar o colesterol.

Por enquanto, não há pílulas mágicas --e talvez nunca haverá.

O desastre do fen-phen mostrou os perigos dos remédios para perder peso. A droga foi retirada do mercado no final dos anos 90, devido a suspeitas de que causava vazamentos nas válvulas cardíacas. A retirada deixou desoladas muitas pessoas que tiveram bons resultados com o remédio e depois recuperaram ainda mais quilos do que haviam perdido.

Exercício, dieta --e cirurgia, em casos drásticos-- são os melhores instrumentos para emagrecer, dizem os especialistas.

Lezlee Jones, 44, de Bountiful, Utah, diz que é um exemplo de como a moda antiga de emagrecer --alterando sua dieta e aumentando sua atividade física-- funciona.

Mãe de três filhos, ela passou de 77 kg para 52 kg, em 1999 e conseguiu manter o peso desde então.

Como fez isso? Comendo seis refeições pequenas por dia e exercitando-se seis dias por semana, diz ela. Todos os dias, come três pequenas refeições quentes, principalmente carnes magras e legumes, e bebe três vitaminas proteicas. Ela alterna três dias de musculação por 45 minutos com três dias de exercício aeróbico por 20 minutos --em geral, subindo as ladeiras de seu bairro rapidamente. Ela tira o sétimo dia de descanso.

"Se você é muito ocupado, comer seis refeições por dia não é fácil", disse ela. "Hesitei em fazer isso, porque achava que ia engordar. Mas quanto mais frequentemente eu comia, mais rapidamente eu emagrecia... O maior erro que as pessoas fazem é se matar de fome e depois comer em excesso", disse Jones. "Mudar o corpo requer planejamento. Não é sempre conveniente, mas é possível." 60% dos adultos do país estão acima do peso; a genética explica Deborah Weinberg

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