Militantes de Nader só querem fazer mais barulho

Douglas Brown
The Denver Post

No Estado do Colorado, onde a eleição promete ser acirrada, tanto o presidente Bush quanto o senador John Kerry dependem de pelotões de organizadores e de pequenos exércitos de voluntários para ajudá-los a obter os nove votos do Estado no Colégio Eleitoral.

Um pilar básico da estratégia de Ralph Nader no Colorado são os Vote Wranglers, Amber O'Shea e Austin Pferd, que se locomovem na Van 15. O'Shea, 27, e Pferd, 22, atravessam o Estado em uma van alugada que está caindo aos pedaços, uma Ford branca com placas da Califórnia coberta de adesivos da campanha de Nader e dotada de um sistema de autofalantes instalados no teto. Quando a van se movimenta muito rapidamente, os autofalantes despencam.

A Van 15, na qual é feita a campanha no Colorado e no Novo México, é uma das cerca de 20 usadas pela campanha para promover a candidatura de Nader e denunciar democratas e republicanos de todo o país.

Correligionários como O'Shea e Pferd sabem que o seu candidato não será o presidente dos Estados Unidos. Eles admitem que Nader tem o potencial de retirar mais votos de Kerry do que de Bush, e a sua posição política tende a ser mais parecida com a dos democratas. Mesmo assim, eles persistem.

"Temos um Partido Republicano que se deslocou para a direita, e um Partido Democrata que foi da esquerda para o centro, e que agora está no limiar da direita", diz O'Shea. A moça de longos cabelos louros, que usa sandálias de dedo e uma camiseta que revela a barriga, explica o seu temor: "Tenho medo de que acabemos contando com apenas um fantoche das corporações no qual votar".

Elas e outros correligionários de Nader dizem seguir suas consciências, e afirmam que um voto para o "menos pior" é um voto perdido. Durante uma recente parada no Centro de Educação Superior Auraria, em Denver, O'Shea e Pferd dirigiram a van até uma praça de concreto no centro do campus, onde se reuniram com apoiadores locais de Nader.

Os voluntários, todos com idade entre 20 e 30 anos, exibiam faixas com dizeres escritos a mão: "Um salário decente para todos" e "Exportem os presidentes das empresas, e não os empregos norte-americanos". Eles encheram uma mesa com material de leitura sobre a campanha --todo ele "feito com papel 100% reciclado", diz O'Shea--, camisetas ("feitas por sindicatos"), chapéus, livros e bótons.

Os bótons são gratuitos para aqueles que dizem que vão votar em Nader. A reserva de bótons da van é escassa, um fato condizente com a campanha de Nader, que custou apenas US$ 3 milhões. Bush e Kerry, por exemplo, gastaram mais de US$ 300 milhões em suas campanhas.

O grupo aborda qualquer um que faça sequer uma pausa para examinar o material sobre a mesa: os democratas e John Kerry são fascistas corporativos liberais. Ralph Nader é o único candidato presidencial que promove as suas idéias. Por favor, vote na sua consciência: apóie Ralph Nader.

"Cada voto em Nader ajuda a acabar com o sistema bipartidário", diz Elaine Gladney, 24, uma bibliotecária de Pueblo. Gladney, que usa uma trança de cabelos castanhos que vai até o meio das suas costas, diz: "Nader representa a mim e à classe trabalhadora".

O pequeno grupo de militantes tem que ouvir muita coisa desagradável. "Não quero correr o risco de deixar que Bush ganhe", afirma Matthew Groginsky, 26, estudante de ciências políticas e inglês na universidade Metro State, e que votou em Nader em 2000. "Tinha algumas restrições sérias a Clinton, mas, em retrospectiva, ele agora parece ser apenas um anjo drogado".

Philip Hiester, 44, montador de cenários de teatro que traz um adesivo de Kerry-Edwards na sua maleta, passa pelo grupo gritando: "Não queremos correligionários de Nader aqui!". "Está claro que Ralph Nader fez com que Al Gore perdesse votos em 2000", afirma Hiester. "A mesma situação ocorre neste ano".

No entanto, nem todos se aproximam das mesas com uma idéia já firmada. Penelope DeWolfe, 23, põe no chão o seu colchonete azul de ioga ao se aproximar. "Vocês acham que um voto em Nader é um voto em Bush?", pergunta. Pferd e O'Shea dão a ela uma longa explicação. Ela assina uma promessa de votar em Nader.

Os militantes não falam sobre um possível sentimento de culpa, caso a candidatura de Nader contribua para que os republicanos vençam neste ano. Ele foi apelidado de "sabotador" após a eleição de 2000, quando os
democratas argumentaram que os votos de Nader custaram a Gore a presidência.

"Se as coisas se passarem dessa forma, se um número suficiente de eleitores decidir votar em Nader, será encorajador o fato de tanta gente desejar fazer algo de arriscado com seu voto, votando naquilo em que acreditam", diz Pferd, um rapaz calmo e barbudo que usa botas de lenhador e óculos ovais unidos com arame. Antes de entrar para a campanha, ele pescava salmões no Alasca e estudava história no Reed College, no Oregon.

A militância democrata lutou para manter o nome de Nader fora das urnas. Intelectuais e ativistas de esquerda, como Michael Moore, que apoiaram Nader em 2000, atualmente o atacam por se candidatar novamente para a eleição presidencial. Ele é descrito com freqüência como um egomaníaco. O sarcasmo dirigido a esses apoiadores de Nader não abala as suas crenças. Na verdade, eles acham tal fato eletrizante.

"Por pior que o pessoal de Kerry ache que Bush e Ashcroft sejam, Bush não veio aqui e tentou usurpar o nosso direito constitucional de votar", afirma Chris Wetherill, 43, que votou em Nader em 2000. Este fotógrafo da vida selvagem, que mora em Colorado Springs, e que usa cabelos a altura do ombro e uma barba loura, é o diretor da campanha de Nader no Colorado.

Em janeiro, Wetherill enviou um e-mail ao comitê central de Nader em Washington, capital do país. Quando um membro do comitê o convidou a coordenar a campanha no Estado, ele diz que se sentiu surpreso e aceitou. Fazendo eco a uma lógica professada por outros, ele diz que o seu apoio se deve mais a um desdém congênito pelos grandes partidos, e a uma admiração pelas idéias de Nader.

A coordenação da campanha tem consumido o tempo de Wetherill desde fevereiro. O ex-professor universitário de astrofísica conseguiu ganhar dinheiro suficiente no mercado de ações para trabalhar para Nader de graça até o dia da eleição.

Segundo ele, isso significa organizar mesas de propagandas e distribuir material de leitura, ou participar de protestos. Ele diz que o grupo não faz muitas campanhas de porta em porta.

Talvez a pessoa mais persuasiva do grupo pró-Nader seja O'Shea, garçonete, funcionária de um café e gerente de uma cooperativa de artistas em Lynn, Massachusetts. Neste verão, ela ouviu Nader discursando na Universidade Harvard. Ela diz que a fala do candidato mudou a sua vida. "Ele realmente me inspirou. Antes disso jamais me havia visto como uma pessoa ligada à política... Sempre achei que o meu ramo fosse a medicina natural".

Em setembro, ela aceitou uma vaga na Van 15. Desde então rodou todo o Novo México e o Colorado no veículo de dois lugares, cujo interior é um caos de propagandas de campanha, copos de papel descartáveis, papel alumínio para envolver alimentos, revistas e roupas amarrotadas.

O'Shea se alegra com a atividade política: debater com os que criticam Nader, criticar os que apóiam Kerry, rebater cada argumento com um outro. Ela fala rapidamente, e o seu discurso é repleto de fatos sobre Nader e seus oponentes, que ela expõe aos gritos dirigindo aos transeuntes. A experiência deixa O'Shea nitidamente eletrizada, embora nem toda interação com o público seja prazerosa.

Um homem deu um tapa nas suas nádegas em frente a uma biblioteca em Boise, Idaho. Durante um festival de jazz em Lexington, Kentucky, um sujeito a segurou com tanta força pelo braço que a machucou, e não quis largá-la.Mesmo assim, o contato com as pessoas não a intimida.

Durante um evento em Albuquerque em homenagem ao cineasta Michael Moore, ela o atacou por apoiar "um candidato favorável à guerra que ajudou a redigir a Lei Patriota". Moore interrompeu o seu discurso e gritou com ela.

Ao fim do dia, no campus de Auraria, uma senhora idosa que puxava um carrinho parou em frente à mesa e leu rapidamente o material. "Ralph Nader", disse ela, balançando a cabeça. "Creio que ele tem muito dinheiro para ser presidente".

O'Shea não hesitou um instante sequer. Nader usa extensivamente doações e somente uma pequena fração do seu próprio dinheiro para a campanha. O comentário da mulher exigia uma resposta. "Na verdade", começou O'Shea, mas a mulher se afastou enquanto a jovem gritava às suas costas. Apoadores dizem que não se importarão se Bush vencer de novo Danilo Fonseca

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