Religião é obstáculo à união política européia

Jason Horowitz
New York Times News Service

Apesar de todos os discursos grandiosos a respeito da unidade política durante a assinatura da primeira constituição da União Européia, em Roma, em 29 de outubro, foi uma estátua de bronze que acabou ilustrando a atual crise de identidade vivida pelo bloco.

Uma estátua do papa Inocêncio X pairava sobre os 25 líderes da União Européia enquanto estes assinavam uma constituição que não menciona as raízes cristãs do continente. Os apelos repetidos do Vaticano para que a união não procedesse dessa forma não tiveram sucesso, e até mesmo a mão da estátua do papa, feita no século 17, parecia estar estendida em um apelo congelado e fútil.

Em vez disso, a estátua foi uma lembrança do passado espiritual europeu neste momento no qual vários críticos conservadores se queixam de que o secularismo está saindo do controle. As suas suspeitas foram reforçadas quando um ministro católico italiano retirou a sua candidatura para um posto na Comissão Européia, após ser criticado por afirmar que o homossexualismo é um pecado e que as mulheres que se casam e ficam em casa têm uma vida melhor.

Agora, um debate em torno de questões sociais tomou conta da União Européia e acrescentou uma dose de tempero àquilo que é tido freqüentemente como uma tecnocracia insípida. Alguns comentaristas dizem esperar que isso estimule mais pessoas a se interessar pelas políticas da União Européia.

"É mais fácil para o cidadão comum se preocupar com religião e valores do que com questões econômicas técnicas", diz Luca Diotallevi, sociólogo da Universidade de Roma que estudou o papel dos valores sociais e da religião na Europa. "É possível que isso gere mais interesse pela União Européia".

Um forte secularismo tem dominado o discurso político europeu desde que o Tratado de Roma original foi assinado em 1957, criando a Comunidade Econômica Européia, uma entidade precursora da União Européia.

Devido ao fato de os pioneiros da união serem católicos que acreditavam que as raízes comuns do continente iam além das fronteiras nacionais, o Vaticano há muito apóia a experiência.

"A Santa Sé sempre apoiou a promoção de uma Europa unida com base naqueles valores que são parte da sua história", disse o papa João Paulo II após assinar a constituição. "Levar em conta as raízes cristãs do continente significa utilizar uma herança espiritual que continua sendo fundamental para os futuros desdobramentos da união".

As negociações a respeito da constituição incluíam uma acalorada polêmica sobre se as raízes cristãs européias deveriam ser reconhecidas no documento, embora, no final, os oponentes tenham prevalecido.

"O Parlamento Europeu teria provavelmente rejeitado Bush, mas o povo norte-americano, ao contrário, votou nele", disse na quarta-feira Rocco Buttiglione, o ministro italiano obrigado a renunciar por não ter obtido o apoio do Parlamento. "Os Estados Unidos demonstraram ser mais religiosos e mais atentos para com os seus valores do que a Europa".

Buttiglione se tornou uma espécie de ícone para os católicos conservadores que alegam que um secularismo estrito está prejudicando a Europa.

Embora alguns analistas políticos europeus advirtam que a batalha envolvendo Buttiglione e a constituição européia possa minar o apoio da Igreja Católica à União Européia, outros, como Diotallevi, enxergam um raio de esperança.

"O fato é positivo", afirma Diotallevi. "Começamos a discutir coisas que há muito tempo têm sido tomadas como verdades absolutas. A religião era uma questão na qual não podíamos tocar - e agora estamos começando a discuti-la. Não estamos no saindo muito bem nessa tarefa, mas ela está apenas no início". Críticos se queixam de que o secularismo está saindo do controle Danilo Fonseca

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