"E." ainda é drama inovador, apesar da idade

Melanie McFarland
Seattle Post-Intelligencer

Em grande parte da indústria televisiva americana, os "sweeps", períodos de pique da estação (quando são feitas análises de audiência decisivas), exigem muitas ousadias por parte dos produtores. Para o elenco fixo da série "E.", que trata dos bastidores de um hospital, isso quer dizer que muitos alarmes vão soar. A série é apresentada no Brasil pelo canal pago Warner, às 22h das quintas.

A cada novembro, fevereiro e maio, a adorada série parece enlouquecer, com tiroteios nas salas de espera, epidemias, roubos de equipamentos e outras viradas sensacionais imaginadas por John Wells e sua equipe. É um milagre que até hoje um asteróide não tenha atingido o Hospital County General, depois de 11 temporadas.

E quando "E." nos proporciona um período de pique destituído de massa crítica ou lances de impacto, você se pergunta o que há de errado.

Mas, em vez disso, se delicie com tudo o que funcionou no episódio apresentado na última quinta à noite nos EUA. Para começar, houve um ótimo desempenho do astro convidado, Ray Liotta. Nesse episódio, o programa exibe uma intensidade dramática pouco habitual até para os padrões da série, em grande parte devido à atuação de Liotta como Charlie Metcalf.

O episódio, com o título de "Time of Death" (Hora de Morrer), dá um passo além do típico fluxo narrativo de "E.", fazendo de um paciente o foco da história, colocando um tanto de lado aquele tradicional circuito de lesões. É um episódio particularmente bem executado --tanto que, no final de seus mais ou menos 43 minutos, parece mais um curta-metragem envolvente do que uma fatia de drama televisivo.

E essa menção da duração do episódio não está à-toa. O lance sensacional, é que o episódio foi exibido em tempo real. No começo do show, o truque parece estar implícito na história:

Metcalf checa o relógio na sala de espera às 11:21 da manhã. Ray Barnett, o estagiário (Shane West), pede uma pizza às 11:23, fazendo questão de dizer bem alto que, se ela não chegar em 40 minutos, sairá de graça. É um jeito esperto de nos indicar que quando olharmos para uma fatia o episódio estará terminado. Como se toda a ação precedente à entrega já não entregasse a história.

Mas quando Liotta está no centro da ação, o reloginho meio que desaparece. O ator traz uma dose de humanidade às emoções manipuladas de "E.", ao forçar os médicos a tratá-lo como uma pessoa em vez de um simples objeto de diagnóstico, o que inspira até mesmo o dr. Pratt (Mekhi Phifer) a colocar de lado sua fria lógica de "trate logo e devolva para as ruas".

As alucinações alcoólicas de Metcalf proporcionam aos roteiristas possibilidades de mergulhar em lances de criatividade visual, com o reforço de bucólicas sequências de sonho fora da sala de operações, enquanto o paciente mergulha na inconsciência.

A maior parte das participações especiais que ocorre nesse mês na TV americana, marcado pelo período de pique, só se justifica para manipular a atenção dos espectadores; mas esse episódio de "E." chega como uma bem-vinda exceção.

Embora a série já esteja um tanto longe de sua "primavera", e sua exibidora NBC esteja perdendo terreno para a concorrente "Without a Trace" da CBS [também exibida no Brasil pelo Warner], que freqüentemente é um programa superior, essa fatia saborosa de "E." prova que a série veterana das quintas à noite na TV americana ainda tem o que render. Embora já esteja na 11ª temporada, a série tem muito para render Marcelo Godoy

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