Encanto pela vida une Paul McCartney e seus fãs

John Marshall
Seattle Post-Intelligencer

Houve vezes em que esteve no palco sozinho, fazendo tributos a sua mulher Linda ou a seus parceiros de banda John Lennon e George Harrison. Nessas situações, Paul McCartney quase perdia o controle de suas emoções. Foi esse seu temor antes de iniciar sua turnê mundial de 2002-2003.

"Lembro-me de certas ocasiões nas quais estava seriamente a ponto de desabar", disse McCartney de Londres, em uma entrevista por telefone ao jornal Seattle Post-Intelligencer. "A música para John sempre me toca, já que estou falando da perda de uma pessoa amada, na frente do público. E penso: 'Meu Deus, aquela mulher, aquele homem --quando é homem é pior-- estão chorando, e eu estou fazendo isso com eles'. Se você for humano, não consegue evitar se desmoronar. Então eu tentava me segurar".

"Mas tomei uma decisão antes da turnê: 'Se tocar 'Something' para George ou 'My Love', para Linda ou 'Here Today' para John, talvez me descontrole. Poderia tocar isso, mas tomei a decisão de não ficar em lágrimas nesta altura. Aos 18, um homem chorando no palco talvez fosse incrível, mas agora não."

Muitas coisas foram diferentes nessa memorável turnê mundial de McCartney. O músico que recebeu título de nobreza viajou com uma banda nova, de jovens músicos que pouco se conheciam, e McCartney encontrou energia em seu entusiasmo e talento. Além disso, já não tinha mais aquelas proibições dos Wings, de tocar músicas dos Beatles para não parecer uma banda cover dos Fab Four.

Atualmente, McCartney se sente à vontade para tocar músicas de toda sua notável carreira, e a lista para a turnê foi crescendo até chegar em impressionantes 36 canções, que consumiam 2h30 no palco, para o deleite dos fãs e críticos. Os segmentos da turnê chamaram-se "Back in the US 2002" e "Back in the World 2003", mas a odisséia deveria ter-se chamado "All You Need is Love Tour" (turnê tudo que você precisa é amor), com tanta expressão de sentimento e afeição.

"Na Cidade do México, a multidão era tão calorosa e barulhenta que parecia gritar vibrações para o palco", lembrou-se McCartney. "Eu estava tentando cantar, 'You say yes, I say no' e era como Sally Field balbuciando: 'You love me, you really love me!' Aquela emoção impressionante vinha da multidão e descia sobre mim, uma pequena pessoa ali no palco. Era como estar submerso nos íons de seu amor."

A vibração positiva continuou depois do verão, quando McCartney e a banda voltaram a excursionar pela Europa. Provavelmente continuarão no ano que vem nos EUA, onde já estão buscando espaços para os shows. O anúncio formal da próxima excursão aos EUA não deve sair tão cedo, mas McCartney diz que tem vontade de fazê-la.

O entusiasmo de McCartney estava bastante evidente durante sua entrevista. Perguntas sobre seu trabalho e dos Beatles levaram a comentários extensos do artista de 62 anos. Sua sagacidade e descaramento tão familiares, desde a primeira excursão dos Beatles aos EUA em 64, também estavam evidentes.

"O senhor certamente será lembrado por 'Yesterday'" disseram a McCartney, "mas por qual canção gostaria de ser lembrado?"

"Why Don't We Do It in the Road!" respondeu sem pausar. "Fico esperando que 2.000 outros artistas façam versões dessa música, mas nunca acontece. Talvez algum grupo da Islândia finalmente faça sua versão: 'Why Don't We Do It in the Fjord!"

"Mas 'Yesterday' (a canção mais gravada de todos os tempos) sempre será uma coisa mágica para mim, já que acordei de um sonho com a música na minha cabeça. Pessoalmente, acho que escrevi canções melhores --'Here, There and Everywhere' é bem construída. Não ficaria envergonhado de ser lembrado por 'Yesterday' ou 'Hey, Jude' ou 'Let It Be'. O simples fato de as pessoas se lembrarem e gostarem de algumas das minhas coisas já é sorte. Quero dizer, é muita sorte, não? Tenho que me beliscar para acreditar que fui o cara que escreveu 'Yesterday' e fui um dos quatro Beatles."

McCartney sempre foi considerado o Beatle alegre, o bonitinho, aquele que talvez nossa irmã pudesse namorar. Essa imagem colou, apesar de alguns tropeços na longa estrada cheia de curvas: o álbum solo de 1970 e seus comentários de que os Beatles tinham terminado, seguidos, naquele mesmo ano, de um processo contra seus parceiros de banda que assinalou o fim do grupo; a descoberta em 1980 de uma migalha de maconha na sua mala durante uma viagem para o Japão e sua prisão por nove dias, que ele depois descreveu como "inferno".

Os Beatles continuaram como arquétipos, muito depois de pararem de tocar juntos com "Let It Be", seu último show público no telhado da Apple, visto por alguns transeuntes espantados. George Harrison era o místico, Ringo Starr o tolo, John Lennon o sério e artístico, líder que depois de seu assassinato, em 1980, foi elevado a algo próximo à santidade.

Lennon e McCartney criaram a maior parte das músicas dos Beatles, algumas vezes juntos, frequentemente não. Sua colaboração resultou na crença de que o lado hard-rock de Lennon era um contrapeso crucial para as melodias doces de McCartney. A simplificação persistente da dinâmica dos Beatles irrita McCartney até hoje.

"Todos nós éramos uma mistura", enfatiza. "Tenho um lado mais duro, John tinha um lado mais suave. Escrevi 'Helter, Skelter', que é mais dura do que as pessoas pensam que eu sou. John escreveu 'Good Night', que é tão sentimental que as pessoas não pensariam que John pudesse fazer isso, mas ele também tinha um bonito lado sentimental.

"Éramos afetados uns pelos outros. Não éramos unidimensionais. As pessoas frequentemente minimizam a influência de George e Ringo, sugerindo que George ficava ali, em pé com a palheta, esperando um solo, e Ringo não fazia nada senão tocar. Isso está errado. Eles tiveram uma influência enorme. Éramos uma grande democracia; essa era uma fonte de nossos problemas, mas também uma de nossas grandes bênçãos".

McCartney parece ter vivido uma vida abençoada, em comparação com os outros três Beatles, com a vida familiar mais estável, a carreira solo mais bem sucedida, a visibilidade e fama mais constantes, a afeição mais fácil no coração de milhões de fãs. Ele se considera "muito sortudo" de muitas formas, inclusive por manter seu entusiasmo depois de mais de 3.000 apresentações em locais incomparáveis como a Praça Vermelha em Moscou e o Coliseu em Roma, capturados em um novo livro.

Mas isso não quer dizer que passou pela vida sem marcas. Ele teve muitas perdas pessoais --sua mãe morreu de câncer de mama quando ele tinha apenas 14 anos; seus parceiros dos Beatles foram abatidos por arma de fogo e câncer, o que extinguiu qualquer chance de uma reunião tão ansiada; sua amada mulher, Linda, e também sua parceira de palco com os Wings, morreu de câncer de mama depois de quase 30 anos de casamento, em que os dois dormiram separados apenas meia dúzia de noites.

"Isso me ensina", disse McCartney, "a apreciar as coisas enquanto estão acontecendo. Vejo algo como a nossa turnê --olho para todas aquelas pessoas e me pergunto de onde vieram para nos ouvir-- e esse tipo de coisa me anima. Isso é o que me realiza. Minha sensação de maravilhamento me mantém ativo".

McCartney emergiu de um ano de luto depois da perda de sua mulher e começou um relacionamento com Heather Mills, 26 anos mais moça. A ex-modelo tinha perdido metade de uma perna em um acidente de motocicleta e tornou-se incansável defensora de direitos dos amputados e contra o uso de minas terrestres em torno do mundo. Eles se casaram em 2003 e tiveram sua primeira filha, Beatrice, há um ano.

Cidadão do mundo

As duas décadas de ativismo de McCartney em prol do vegetarianismo e da ética na criação de animais, compartilhadas com Linda, foram suplantadas pelo movimento que defende a proibição mundial do uso de minas terrestres, compartilhado com Heather Mills.

Ele aparece em shows vestindo camisetas com as palavras "No More Land Mines" (Não às Minas Terrestres), mas isso é apenas um aspecto de seu ativismo, que também inclui filantropia e o uso de sua celebridade para fazer lobby junto aos governos.

Essas súplicas caíram nos ouvidos surdos do presidente Bush, que continua se opondo à aprovação do tratado internacional de minas terrestres, para o espanto de McCartney. O ativista diz que a campanha contra as minas é "uma grande reforma, lenta, mas que teve progressos incríveis" e continua acreditando que a oposição do governo Bush à proibição das minas terrestres apenas piora a reputação dos EUA no mundo.

"Só Deus sabe aonde o Sr. Bush pensa que está indo", ressaltou McCartney. "Isso é uma coisa triste hoje, essa noção sobre os EUA; sempre digo que existem muitos americanos legais, mas a impressão das pessoas é que o Sr. Bush está agindo como um menino forte do parquinho, que bate em todo mundo.

"Escrevi a ele sobre as minas terrestres e perguntei por que não fazer algo. É uma causa muito legal. Os militares sabem que não precisam mais das minas; é um instrumento covarde, que atinge principalmente crianças e mulheres. É terrível para os sobreviventes: as crianças estão jogando bola em algum lugar e, de repente, bum, perdem pernas e braços. É simplesmente covarde. Então, se os EUA tomassem a liderança, muito poderia ser feito. A China não vai aprovar se os EUA não aprovarem. Isso poderia melhorar a imagem do Sr. Bush no mundo. Então continuamos escrevendo para ele --e não vamos desistir."

As minas terrestres são apenas um dos perigos do mundo do século 21, afligido pelo terrorismo, fome, genocídio e guerra. A vida em toda a parte vem mudando com temores de segurança, mas Paul McCartney continua aparecendo em estádios abertos onde a segurança é problemática e o público também, mais de duas décadas depois do assassinato de Lennon por um fã fora de si, na frente de seu prédio na cidade de Nova York.

Sem medo

McCartney, celebridade mundial quase incomparável, insiste que nunca teme por sua vida. "Não me preocupo, devo dizer, apesar de isso talvez parecer surpreendente. Algumas pessoas têm medo de pisar na rua, mas eu sempre penso: 'Ah, sim, vou estar bem.' Talvez devesse me preocupar mais, mas sou muito sortudo e sempre fui assim --quando criança em Liverpool, pegava ônibus sozinho e ia até o ponto final, pelo prazer de conhecer novos lugares.

"Eu sei que há um monte de celebridades com preocupações extremas com sua segurança e não vão nem ao supermercado sem um guarda-costas. Mas Heather e eu vamos ao cinema sempre em Londres e as pessoas ficam surpresas em nos ver sem guarda-costas. Concluí há muito tempo: quando chega a hora, não se pode fazer muito a respeito."

A atitude de McCartney com sua segurança reflete sua atitude com a fama. Ele pensa sobre as quatro décadas que passou sob os holofotes. Ele é capaz de olhar para trás, para aquele desconhecido menino de Liverpool que estava tão esfomeado por fama e reconhecimento, sem jamais esperar que seus sonhos de músico fossem superados em milhões de vezes.

Hoje é avô e, daqui a 19 meses, poderá cantar autenticamente "When I'm 64" (quando eu tiver 64 anos). Mesmo assim, ainda se lembra facilmente dos clubes noturnos esfumaçados de Liverpool e Hamburgo, nos quais o rapaz canhoto tocava um baixo Hofner barato.

"Eu diria a ele: 'Relaxe, garoto'", disse McCartney. "Não valorize tanto a fama. Tome-a com um grão de sal. Não acredite em suas próprias lendas. Mantenha certa humildade." Ele é considerado um sortudo quando comparado a outros Beatles Deborah Weinberg

UOL Cursos Online

Todos os cursos