TV dos EUA teme censura de republicanos e consolidação da mídia

Joanne Ostrow
The Denver Post

Grace McCallister, a mãe solteira liberal, feminista e maconheira de "Jack & Bobby", está deprimida. A professora colegial interpretada por Christine Lahti usou um botão Kerry-Edwards e aplaudiu os Estados azuis (democratas) durante a apuração dos votos.

A devastação de Grace reflete a de quase metade do país, incluindo os autores do programa. "A comunidade de Hollywood está incrivelmente perturbada com os resultados da eleição", disse Vanessa Taylor, criadora e co-produtora-executiva do programa "Jack & Bobby", da Warner Bros. "Eu diria que estamos num estado de decepção chocada."

A comunidade criativa da televisão está apreensiva sobre o segundo mandato do presidente Bush, num momento em que Washington já influi no conteúdo dos programas e as considerações orçamentárias predominam.

Muitos na mídia temem uma maior interferência da Comissão Federal de Comunicações (FCC na sigla em inglês) no conteúdo dos programas, possíveis medidas do órgão contra operações de cabo e satélite, novas consolidações de propriedades de mídia e um endurecimento geral dos controles corporativos que poderão prejudicar a expressão criativa.

É claro que nem todo mundo em Hollywood lamenta a reeleição de Bush. Muito dinheiro republicano também foi angariado lá. Mas é verdade que muitos na profissão criativa -escritores, produtores, atores, diretores- tendem para a esquerda.

O setor está tão nervoso que na semana passada cerca de uma dúzia de afiliadas da ABC se recusaram a transmitir "O Resgate do Soldado Ryan" no Dia dos Veteranos, temendo que a linguagem e a violência pudessem superar o valor patriótico e artístico do filme. "Com a atual FCC, simplesmente não sabemos", disse um operador de estação em Des Moines, Iowa.

Embora alguns proprietários de grandes veículos possam estar satisfeitos, os produtores independentes de Hollywood temem que o Partido Republicano favoreça a suspensão de limites para propriedade de mídia. Eles observam com temor o acúmulo de propriedades -redes, estúdios, sistemas a cabo, estações locais e jornais- amarradas em pacotes corporativos: como podem se safar se não estiverem conectados? Eles se preparam para a possibilidade de que as maiores fiquem ainda maiores.

Ao mesmo tempo, a Viacom quer que a FCC retire sua acusação de indecência e uma multa de US$ 550 mil contra canais de TV pelo comercial do Super Bowl com Janet Jackson, em que ela mostrava um seio. Essa batalha provavelmente chegará à Suprema Corte.

Se, como disse Jon Stewart, a reeleição de Bush marca a vingança dos conservadores por "Will & Grace", então a televisão comercial pode estar entrando num percurso acidentado. E a TV a cabo poderá ser a próxima.

Temendo multas ou suspensão de licenças, as redes poderão evitar assuntos polêmicos: temas gays poderão ser desencorajados; os autores poderão se autocensurar quando apresentarem idéias.

Taylor, de "Jack & Bobby", disse que entre os autores-produtores "as pessoas estão dizendo: 'Devo ir trabalhar para a Planned Parenthood [Paternidade Planejada] ou escrever meu longa-metragem?'" Sua posição é: "Se você tiver um púlpito de qualquer espécie, use-o". Ainda assim, ela e seus colegas se perguntam se em algum momento a liberdade artística será cerceada a tal ponto que eles não queiram mais trabalhar nesse ramo.

A vitória de Bush poderá ser ótima para as artes pequenas, não comerciais, marginais -teatro experimental e música subterrânea poderão florescer se os artistas canalizarem sua raiva para a criatividade. Mas a televisão comercial regulamentada pelo governo federal poderá enfrentar uma temporada gélida. Os programas das grandes redes poderão ser reescritos sob a influência do "fator medo". E republicanos conservadores declararam a intenção de impor seus regulamentos ao cabo proximamente.

A roteirista Vivienne Radkoff comenta que em longo prazo podemos estar rumando para a programação de nichos, sob medida. No seu entender, essa poderá ser a salvação da TV.

"Haverá os grandes canais com programas de altos orçamentos e audiência de massa", disse Radkoff. "Mas haverá uma proliferação de programação menos cara no cabo, dirigida para todos os pequenos grupos. Eu prevejo o nascimento de canais controlados por jovens, em que eles farão o conteúdo. Isso será possível porque o preço do equipamento está muito barato, e eles são movidos pela paixão, e não pelo dinheiro."

A pergunta crítica é como o Partido Republicano vai perseguir seu objetivo de regulamentar o cabo assim como a TV aberta. Um executivo de estúdio que pediu anonimato disse que "a programação aberta já tem censores, a pergunta é o que vai acontecer com o cabo. A FCC vai inventar um jeito de censurar o cabo".

"Os Sopranos", da HBO, e Howard Stern, na rádio por satélite Sirius, vão cair sob o jugo do que pode ser considerado obsceno pela FCC? Executivos do cabo pretendem manter o rumo. "Nossa estratégia não vai mudar nada", disse o porta-voz da rede FX, Jon Solberg.

A programação de vanguarda da FX vai muito bem nos Estados vermelhos (republicanos), assim como em Nova York, Los Angeles e Boston. A primeira temporada do drama de cirurgia plástica "Nip/Tuck" teve audiências maiores em Oklahoma City do que em Nova York ou Los Angeles. "Não há uma diferença mensurável entre Estados vermelhos e azuis", disse John Landgraf, presidente de entretenimento da FX.

Adorando o debate, a FX está gravando um piloto sobre soldados no Iraque chamado "Over There", que os mostra ao mesmo tempo heróicos e desiludidos. A FX poderá aproveitar ainda mais a divisão nacional com "30 Days", considerado o primeiro "reality show" político. Um ateu será colocado junto com uma família cristã devota, um guarda de fronteira contrário à imigração deverá viver com uma família de imigrantes ilegais e assim por diante. Eles estão apostando que um país polarizado poderá ser bom para os negócios.

Se você convida a TV a cabo para sua casa, pagando mais pelo privilégio, não deveria poder assistir ao que quer? Defensores da Primeira Emenda constitucional dizem que o governo não tem maior controle do que é apresentado através do sistema a cabo do que sobre as revistas enviadas para sua caixa de cartas. A indústria do cabo se agarra a essa crença.

Quaisquer mudanças de programação serão gradativas. Por enquanto, "Jack & Bobby", da WB, tem matéria-prima polêmica a caminho, incluindo um episódio sobre o suicídio de um adolescente gay. Grace só vai ficar mais briguenta. "Eu não os odeio", ela diz sobre os pais da namorada fundamentalista cristã de seu filho. "Eu odeio tudo o que eles representam".

Por enquanto a oposição está viva no horário nobre. "As pessoas provavelmente vão colocar em seu trabalho as emoções que estão sentindo em relação à política", disse Taylor. "Ironicamente, pelo fato de a comunidade artística estar tão irritada com a eleição, vai produzir arte de ótima qualidade", ela disse. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos