A reeleição de Bush fortalecerá ou drenará a energia do teatro?

John Moore
The Denver Post

A reeleição de George W. Bush fez com que o dramaturgo Steven Dietz se lembrasse de uma frase famosa: "Não há nada como uma execução para fazer com que a mente se concentre".

Aquilo que a oposição tende a encarar como tempos difíceis pela frente para o país poderia assinalar um efeito benéfico para os artistas, uma comunidade majoritariamente composta de democratas, e sobre a arte que eles criam. Ou será que poderíamos estar prestes a presenciar aquilo que, conforme a definição de um cínico diretor artístico, seria "a eclosão de muito daquela arte antiga e furiosa que temos presenciado nos últimos 20 anos?".

"Eu acredito piamente que esses serão os quatro anos mais frutíferos que já presenciei", diz a ganhadora do Prêmio Pulitzer Paula Vogel, que esteve em Denver na semana passada para a estréia da apresentação local da sua peça: "The Long Christmas Ride Home" (algo como "A Grande Jornada Natalina de Volta para Casa"). "Isso representará a maturidade para a próxima geração de artistas. Eu só queria que não tivéssemos que aprender da maneira mais difícil".

Mas, segundo Brian Freeland, diretor artístico do Projeto LIDA, de Denver, "grande parte do que está por vir será lixo absoluto".

"Se os últimos quatro anos de discórdia política, desigualdade social e julgamentos internacionais, e se a mutação fundamental ocorrida na psique norte-americana não estimularam os artistas a começarem a inovar, por quê, de repente, eles precisariam da reeleição de Bush para que agissem?", argumenta Freeland.

"Isso seria uma reação reflexa, e tal trabalho espelharia esse fato. Creio que vamos ver muita arte movida pelo desabafo por parte de um grupo de artistas que está de queixo caído porque não sabe o que mais pode fazer a partir do resultado eleitoral".

Mas Dietz, cuja peça "Fiction" estreou na Broadway neste verão [no Hemisfério Norte], diz que toda vez que o país entra em um período de grande incerteza, isso geralmente tem um efeito benéfico sobre a arte criativa.

"É claro que haverá manifestos políticos raivosos que farão um grande estardalhaço em um dia e no outro terão desaparecido, mas temos que nos lembrar de que toda peça teatral é escrita para a sua época, e, de vez em quando, nos deparamos com algo escrito no calor do momento que, não obstante, possui um valor duradouro", opina Dietz.

Ele cita "The Normal Heart" ("O Coração Normal"), de Larry Kramer, e "Angels in America" ("Anjos nos Estados Unidos"), de Tony Kushner. Ambas as peças surgiram a partir da indiferença da administração Reagan para com a epidemia de Aids nos anos 80, e "The Laramie Project" ("O Projeto Laramie"), que estreou em Denver em 2000, após o assassinato selvagem de Matthew Shephard, um estudante universitário gay de Wyoming.

Vogel acredita que a conquista da Casa Branca, do Congresso e da maioria dos governos estaduais pelos republicanos só vai fortalecer a classe artística.

"Estou apavorada; petrificada. Mas, estranhamente, agora que o pior aconteceu, sinto-me estranhamente calma", diz Vogel. "Para nós, o mais importante é não termos medo, e não nos abstermos de bater, porque, se não o fizermos, estaremos em apuros. Temos que nos lembrar de que 49% dos eleitores do país são desesperadamente contrários ao fato de esse homem ocupar a Casa Branca."

"Será necessário muito ativismo e paixão, mas temos que começar a reagir com nosso trabalho", diz ela. "Não importa que só tenhamos quatro ou cinco horas de sono nos próximos quatro anos. Temos que dar início a essa operação e é preciso começar a fazê-lo coletivamente. Temos que fazer teatro de rua, e é preciso que façamos apresentações teatrais em locais específicos".

Vogel está especialmente interessada na maneira como a masculinidade foi conceitualmente manipulada pelos republicanos a fim de vencerem a eleição. "Como foi que fizemos com que competência, inteligência e habilidade passassem a ser consideradas qualidades efeminadas?", questiona ela. "Vale a pena analisarmos essa questão".

Ao contrário dos meios mais populares de entretenimento, o teatro sempre foi um meio caracterizado pelo dissenso, em guerra contra o status quo -conforme demonstram os trabalhos de caráter opositor de Clifford Odets e Arthur Miller nas décadas passadas.

"A diferença nesta encruzilhada da história norte-americana, após essa eleição brutalmente divisiva, é que, como dramaturgos, precisamos fazer algo mais do que simplesmente reprocessar a loucura, relatar as más ações e denunciar os corruptos e mal intencionados. Em vez disso, temos que tentar recompor os fragmentos do nosso tecido social. E, obviamente, assim como fez uma geração anterior à nossa, precisamos dar um fim a essa guerra".

Segundo Freeland, um retorno da "velha nova arte" não teria utilidade, porque ela prega à platéia e não gera mudanças naqueles que assistem tais peças.

"O desafio é escavar mais profundamente", diz ele. "Não precisamos de gente para escrever sobre este governo; necessitamos de escritores dispostos a questionar se aquilo que assumimos que sejam os nossos valores comuns estão realmente em sintonia com as crenças comuns do restante da nação. Precisamos encarar questões que realmente perturbam. Por exemplo, avaliar se o aborto é realmente algo errado. Ou talvez seja realmente correto praticar o racismo. Ou, quem sabe, a intolerância com relação a qualquer outra civilização diferente da nossa seja o procedimento recomendável."

"Se dispusermos de peças teatrais dispostas a explorar esse fato, então, quem sabe, possamos conversar. Mas não creio que presenciemos tal situação", afirma Ed Baierlein, diretor artístico do Germinal Stage, em Denver, que diz não ter a menor idéia sobre como serão o tom e a qualidade dos novos roteiros. "Não tenho recebido muitos trabalhos críticos. Mas peças ruins, recebo aos montes".

Na semana passada, Kushner deu conselhos sobre esse assunto aos artistas. "Creio que devemos continuar a montar uma estratégia e a nos organizar", disse ele ao jornal "Chicago Tribune". "Como disse Joe Hill [um compositor ativista do início do século 20], 'Não fiquem se lamentando. Organizem-se'." Danilo Fonseca

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