Vitória de Bush abate R.E.M. apesar da boa fase

Ricardo Baça
The Denver Post

Há um mês, Michael Stipe sentia-se confortável e livre em sua música, mais do que se sentira em uma década. Ele tinha terminado a excursão do R.E.M. com os maiores sucessos, no último verão, e lançado um novo álbum robusto no outono. Ele estava colocando o passado para trás, finalmente. No entanto, no melhor da onda, seu humor foi destruído.

"Estou chocado", disse Stipe na semana passada, em Calgary, no Canadá.

A vitória do republicano George W. Bush, nas eleições presidenciais americanas, realizadas em 2 de novembro, para Stipe foi um golpe. R.E.M. --a banda que tem base em Athens, Geórgia, é composta de defensores ávidos de John Kerry-- Stipe, Mike Mills e Peter Buck. Eles tinham tocado no Constitution Hall em Washington DC na noite anterior às eleições. Depois, dirigiram-se para sua segunda casa, em Nova York, onde iam sentar, esperar e orar pelos resultados.

Duas noites depois, no dia 4 de novembro, o R.E.M. tocou no Madison Square Garden, totalmente lotado. Pela primeira vez na vida, a banda abriu com "It's the End of the World As We Know It (And I Feel Fine)" (é o fim do mundo como conhecemos, e me sinto bem), uma canção que normalmente reserva para o bis. O show foi extraordinariamente silencioso, e Stipe disse ao público que preferia cantar a falar. No final do show, ele fez algo que surpreendeu até a ele mesmo.

"Acho que nunca tinha tirado minhas calças no palco antes", disse ele. "Não sei por que, mas tirei as calças. No entanto, quem estava lá no Madison Square Garden foi embora com uma experiência diferente. Foi como um ato de autodestruição no palco."

Stipe ainda está se recuperando da re-eleição do presidente Bush, mas está de calças --sinal de melhora. Talvez tenha perdido parte do ânimo que apresentava antes das eleições --alguns fãs escreveram em vários sites da Web que a banda parece um pouco desanimada, depois de 2 de novembro-- mas está feliz com este momento, seu e de sua banda.

"Sinto que a banda está no auge de seus poderes", disse Stipe. "Acabamos de lançar um disco. As 13 músicas foram selecionadas de um monte --e isso é realmente atípico para mim. Esses caras são realmente prolíficos. Eu não sou. Mas tive um período em que fiz 19 ou 20 músicas."

O álbum resultante, "Around the Sun", recebeu elogios de fãs, dizendo que seu bardo trouxera de volta o velho REM. É o 13º disco da banda em 21 anos --o terceiro desde que perdeu o baterista Bill Berry, que deixou amigavelmente a banda em outubro de 1997, por problemas de saúde.

Em parte, os fãs estão corretos. Duas músicas, "Final Straw" e "I Want To Be Wrong", sobressaem na primeira apreciação. Também são as faixas que o próprio Stipe cita em conversas.

"Final Straw" é uma balada na primeira pessoa, deprimida, com seu violão e órgão --parece saída das sessões de "Automatic For the People". "I Want To Be Wrong" é uma balada mais leve, reflexiva, que parece mais da era de "Green" ou de "Out of Time".

Esse tipo de crítica musical deixa Stipe louco. "É duro para os críticos. Quando você ouve um disco pela primeira vez, é difícil não lembrar de toda a história da banda", disse ele. "Quando ouço o disco novo de alguém, seja PJ Harvey ou Bjork ou Sonic Youth, penso nos meus discos favoritos e nas faixas do passado --mas também procuro ver o valor daquele som, por si próprio. Em que ponto (os artistas) estão em 2004 e para onde vão em 2005".

As duas canções dão arrepios porque combinam os atuais estilos de composição da banda com as letras maduras de Stipe, mas o som e o ambiente são similares ao passado do R.E.M. Especialmente quando as canções são comparadas com o resto do álbum, inclusive o single "Leaving New York" e a canção título. As duas músicas representam outra coisa --tanto para quem ouve, quanto para Stipe, que chamou "I Want to Be Wrong" de seu Discurso à Nação.

"É relevante para este momento, e eu esperava que não fosse", disse Stipe. "A música me surpreendeu, porque encontrei partes minhas nela. Em geral, tendo a me excluir das músicas. Mas a pureza da letra era tão certa, tão presente, que a deixei intacta".

Não é comum Stipe escrever sobre si mesmo, como ele mesmo diz no palco em sua turnê. "Em geral, escrevo a partir de observações", disse ele, "e compilo narrativas de fontes diferentes. Manchetes de jornal, algo que vejo nas ruas ou em um show".

Se ele escreve sobre uma pessoa seu círculo íntimo, conversa com ela antes de lançar o disco, "para que as pessoas na minha vida não precisem se preocupar com 'será que sou eu?'"

"Fiquei surpreso em me ver em duas músicas nesse disco", disse ele, falando de "I Wanted To Be Wrong" e "Final Straw". "Neste disco, realmente confiei em minha intuição e voz subconsciente. O papel do meu cérebro foi trabalhar em cima do material, editá-lo e montá-lo, para que se tornasse uma música compreensível. De fato, é uma destilação. No entanto, as músicas do passado que julgo serem minhas melhores, são músicas que vieram dessa voz inconsciente."

Stipe tem um relacionamento pouco comum com seu repertório, algo que compreendeu na última excursão para "In Time: The Best of REM 1988-2003".

"Havia uma sensação especial em terminar aquela turnê de 'melhores momentos'", disse ele. "Parecia que um enorme peso tinha sido tirado de meus ombros. Lançar o melhor de R.E.M. e reunir todas aquelas músicas que as pessoas mais conhecem, de uma forma pessoal, me liberou dos últimos 23 anos." A banda se engajou na campanha de Kerry, o candidato democrata Deborah Weinberg

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