Negras são maioria dos novos casos de Aids

Leigh Hopper
Houston Chronicle

O diagnóstico de HIV para uma mulher de Houston, no Estado do Texas, levou a uma epifania religiosa. Para outra, a notícia da infecção criou ansiedade a respeito de seu filho ainda não nascido. Para uma terceira, saber que era soropositiva completou uma infância infernal que ela está apenas começando a entender.

As histórias destas mulheres de Houston são únicas mas ao mesmo tempo compartilham um tema comum e preocupante: a disseminação implacável do vírus da Aids entre as mulheres --particularmente as mulheres negras-- por meio de sexo heterossexual.

Há cinco anos, o prefeito Lee Brown fez o anúncio para chamar a atenção de que a comunidade afro-americana de Houston estava em meio a um "estado de emergência" de HIV/Aids, com os negros representando cerca de 56% das infecções de HIV relatadas em 1999.

Nesta quarta-feira (01/12), Dia Mundial da Aids, as estatísticas de HIV entre os negros caiu apenas ligeiramente, para 54%. As mulheres afro-americanas correspondem a 73% de todos os casos de HIV em mulheres, apesar de os negros representarem apenas 25% da população de Houston.

Os adolescentes afro-americanos correspondem a 75% dos casos de HIV no grupo de 13-19 anos, com as mulheres superando os homens em uma proporção de dois para um, segundo o Departamento de Saúde e Serviços Humanos de Houston.

Nacionalmente, as mulheres das minorias, especialmente as negras, estão sofrendo de índices de infecção por HIV 10 a 20 vezes acima dos das mulheres brancas, e a Aids é uma das principais causas de morte entre as mulheres entre 25 e 44 anos.

"Nós espelhamos as tendências americanas. O HIV é uma doença de pobreza, de falta de outras opções, de falta de educação. E estes são os problemas que atingem a comunidade afro-americana em um índice maior do que outras comunidades nos Estados Unidos", disse a dra. Cathy Troisi, chefe de prevenção de HIV/DST (doenças sexualmente transmissíveis) da cidade.

"Nós não resolveremos o problema do HIV até darmos mais poder para as mulheres. Nós podemos falar sobre o uso da camisinha, mas freqüentemente a mulher não tem a palavra final nisto."

As mulheres são mais suscetíveis fisicamente à infecção por HIV do que os homens, segundo a agência de saúde da ONU, e a chance de transmissão homem para mulher durante o sexo é duas vezes maior do que a transmissão mulher para homem.

Após o anúncio de Brown em 1999, a cidade criou uma força-tarefa especial com orçamento de US$ 100 mil para promover a prevenção do HIV na comunidade negra. O prefeito Bill White aumentou recentemente o orçamento da força-tarefa para US$ 200 mil.

Troisi disse que a meta do departamento de saúde é aumentar os exames de HIV em 10% neste ano. Os Centros para Controle e Prevenção de Doenças (CDC) estimam que apenas 75% das pessoas que são soropositivas estão cientes do seu estado. Com os testes, acreditam os especialistas, mais pessoas poderão tomar medidas para prevenir a infecção de outras pessoas.

Entrevistas com mulheres soropositivas revelam como tomar conhecimento de tal condição pode se tornar um campo minado de problemas emocionais e interpessoais. Depressão grande o bastante para exigir tratamento é comum. O medo de abandono e rejeição freqüentemente paira nos relacionamentos. Mesmo em relacionamentos estáveis, os parceiros às vezes se arriscam.

Histórias de vida

Quando Joyce Austin, que é negra, soube que era soropositiva, ela telefonou para o homem que a infectou e lhe perguntou o motivo. "Se eu tivesse dito", disse ele, "você não ia me querer mais".

Ela também foi tomada pelo terror de ser abandonada por sua família. Certa noite, ela caminhava por uma rua escura, pensando em suicídio.

Atualmente, Joyce, 47 anos, atribui sua boa saúde ao apoio de sua família e da comunidade da Thomas Street Clinic, e ao centro de tratamento de HIV do Harris County Hospital District. Na clínica, ela e outras pacientes compartilham detalhes íntimos de suas vidas e exibem um conhecimento impressionantemente profundo sobre o vírus, sua transmissão e tratamento.

"Ter consciência representa permanecer viva", disse Joyce.

Twanashia Clark tinha 18 anos e estava grávida de oito meses quando foi ao médico para uma consulta pré-natal. Um exame de sangue revelou pela primeira vez que Twanashia, que é negra, era soropositiva. O médico dela a informou duramente que não tinha experiência com tais pacientes. "Procure outro médico", disse ele.

Arrasada, ela voltou para casa em prantos --e contou tudo para sua família. A família a apoiou. Um mês depois, ela deu à luz a um menino de 4,5 quilos. Durante o parto, ela recebeu AZT intravenoso, uma droga antiviral --um protocolo que reduz as chances de transmissão da mãe para a criança para menos de 1%.

O filho dela, atualmente com 4 anos, não está infectado. Twanashia, que disse que ela e seu parceiro normalmente usam camisinha, recentemente soube que está grávida de novo.

"Eu decidi que não iria viver com HIV --o HIV vai viver comigo. Porque eu cheguei primeiro", disse Twanashia, 22 anos. "Minha família é a melhor do mundo. Eu não me escondo mais. Se você não puder dizer para as pessoas o que está acontecendo, quem apoiará você?"

Erin Sigler, 21 anos, disse que foi infectada aos 13 anos pelo traficante de crack de sua mãe. Erin, que é branca, chorou enquanto contava a história de uma infância arruinada por adultos drogados. Erin, que disse ter sido alimentada com crack em vez de comida, terminou vendendo drogas. Ela foi presa e posteriormente colocada em condicional.

Enquanto participava de um programa de dependência química obrigatório, ela soube que era soropositiva. Proibida de dar um telefonema, ela teve que escrever uma carta para o namorado para lhe contar. Ele não está infectado.

"Ele é meu primeiro namorado de verdade", disse Erin. "Ele ainda está comigo, e não está contaminado."

Para Erin, muitas coisas se encaixaram quando ela soube que era soropositiva. Na Thomas Street, um mural listava nomes dos medicamentos para Aids que soavam estranhamente familiares. Até aquele momento, ela achava que Viramune e Combivir eram anabolizantes. O padrasto dela freqüentemente a mandava até a farmácia para pegar os medicamentos prescritos.

"Ele trouxe o inferno para nossas vidas", disse ela. Marginalização social e incidência do HIV coincidem, diz estatística George El Khouri Andolfato

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