"Má Educação" mostra a escola do escândalo

Bob Strauss
Los Angeles Daily News

Pedro Almodóvar já lidou com sexo, comoção e sentidos lúdicos de rebelião social.

Mas o maior cineasta vivo da Espanha, que chegou à maturidade ao fim da ditadura fascista de Francisco Franco, nunca fez anteriormente um filme tão transgressor quanto "Má Educação", e tampouco tão intricado, imaginativo e, ao final, estranhamente humanista.

Almodóvar observará também que "Má Educação" é o seu filme mais pessoal. Com cautelas, porém.

"Estive trabalhando nele, intermitentemente, por uma década", diz o roteirista e diretor dos filmes premiados pela academia "Fale com Ela" e "Tudo Sobre Minha Mãe". "Fiz quatro ou cinco filmes durante esse período. A maior parte dos elementos que me interessam estão no primeiro rascunho. Mas houve momentos nos quais eu não sabia se chegaria a fazer o filme, porque havia problemas demasiados no roteiro. A coisa mais importante que adquiri no decorrer desses dez anos foi o distanciamento do material", diz Almodóvar, utilizando um intérprete. "Isso permitiu que eu tratasse a obra como se ela não fosse parte da minha vida, como se não pertencesse ao meu mundo, de forma que eu pudesse abordá-la integralmente como ficção".

E que ficção ele conseguiu fazer. Na verdade, várias ficções.

No filme, ambientado em sua maior parte nos anos 80, o galã Gael Garcia Bernal ("Diários de Motocicleta", "E Sua Mãe Também") interpreta Ignacio, um jovem que faz uma visita surpresa ao amigo de infância, Enrique (Fele Martinez), um cineasta madrilense de sucesso. Ignácio e Enrique foram separados no internato católico por um padre ciumento, e Ignacio, agora ator e escritor, traz para Enrique um enredo vingativo e fantasioso para um filme que quer que o velho amigo dirija, e no qual deseja atuar como ator principal.

Mas, à medida que vemos a história se desenrolar nos escritos de Ignacio e nas filmagens de Enrique e a partir de várias outras perspectivas, descobrimos que Ignacio pode ser uma pessoa diferente daquela como se apresenta. Os motivos de Enrique para fazer o filme (e para fazer de Ignacio o seu amante) vão ficando também, da mesma maneira, nebulosos, e o odiado padre Manolo acaba demonstrando ser também um personagem de imensa complexidade.

A filmagem de "Má Educação" tem, obviamente, algo a ver com a recente onda de escândalos envolvendo abusos sexuais na Igreja Católica. O filme também leva a novos extremos desenfreados a mudança de gênero, o abuso de drogas, e o erotismo gay que são ingredientes básicos dos filmes de Almodóvar desde sucessos iniciais como "Labirinto da Paixão", "Matador", "A Lei do Desejo" e "Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos".

O filme foi censurado para menores de 18 anos pela Motion Picture Association of America. Mas tanto Almodóvar quanto Garcia Bernal, que tem o seu próprio currículo de trabalhos provocativos ("Amores Perros", "O Crime do Padre Amaro"), dizem que o seu objetivo principal não foi perturbar as pessoas com esses temas.

"Não quero jamais abrir mão dos meus pontos de vista, e não creio que filmes como esse façam com que isso aconteça", diz Garcia Bernal, que fez 26 anos na terça-feira, em um inglês quase sem sotaque. "Tampouco quero magoar deliberadamente as pessoas, mas, ao mesmo tempo, se ficarmos nos preocupando em agradar a todos, não haverá motivação para fazermos qualquer coisa".

"Realmente não gosto de filmes dotados de mensagens", acrescenta Garcia Bernal. "Creio que isso expõe uma situação que é de fato real, mas que é na verdade bem menos intensa que a realidade. 'O Crime do Padre Amaro' foi algo semelhante. Ele simplesmente expõe uma situação na qual as pessoas utilizam a fé para abusarem de outras pessoas".

Almodóvar encara a ótica do seu filme sobre abusos cometidos por padres de forma bastante natural e mais pessoal.

"Não procurei fazer do padre Manolo o pior personagem do filme", diz o diretor. "Na verdade tentei explicá-lo mais tarde. Ele é uma combinação de dois padres que conheci. Atualmente eles provavelmente têm cerca de 80 anos. Não gostaria que vissem o filme nem de presenciar o sofrimento que este poderia causar a eles. Não quero que dois idosos sofram por minha causa. Não tenho nenhum desejo de vingança nem nada parecido com relação a dois velhos de passado sombrio".

Mas temos que nos perguntar: até que ponto esse aspecto do filme é pessoal?

"Nunca passei por abusos do meu próprio corpo", diz Almodóvar, referindo-se aos seus próprios tempos de estudante. "Mas havia sempre esse tipo de violência sexual no ar. E, na verdade, sei de quase 20 crianças da minha sala que sofreram abusos".

O outro paralelo aparente com a própria experiência de Almodóvar ocorre, com certeza, com relação ao personagem do filme, Enrique. O que é e o que não é autobiográfico em relação a ele?

"Somos idênticos em um aspecto: ambos temos a mesma paixão por fazer filmes", afirma Almodóvar. "E começamos a filmar na mesma época". "Mas diferimos quanto ao fato de eu assumir riscos quando faço filmes, mas não vivencio esse perigo emocional como parte da minha vida. Nunca tive qualquer espécie de relacionamento físico com um ator ou atriz, ou com qualquer membro de equipes dos meus filmes. O fato de trabalharmos juntos acabou fazendo com que, para mim, eles perdessem o caráter erótico".

Mas não há nada que tenha perdido o erotismo quanto a Ignacio, interpretado por Garcia Bernal, quer ele esteja ou não tomado pela sua persona drag-queen, Zahara. Essa é uma das várias personalidades adotadas pelo personagem, e a maior parte das pessoas, independentemente da sua orientação sexual, acharão que o ator representa uma mulher bastante atraente.

"Muito obrigado. Não precisam fazer rodeios!", diz Garcia Bernal rindo ao ouvir elogios ao seu lado sedutor feminino. "Foi algo que exigiu quatro meses de preparação, com tentativas de descobrir as pequenas peculiaridades do personagem. Eu saía e conversava com muitos travestis, imitava mulheres que via na rua; passei também muito tempo treinando em frente ao espelho".

Almodóvar diz que Garcia Bernal chegou a se surpreender com a beleza do travesti que interpretou. O cineasta também sentiu um pouco de desconforto por parte do ator em algumas das cenas mais tórridas de sexo.

"Gael disse que não era capaz de fazer tudo", lembra Almodóvar. "Mas ele fez, e precisou ser corajoso, caso contrário, não teria o papel. Mas tenho certeza que foi mais difícil do que ele me disse, e isso é natural".

Garcia Bernal nega.

"Não, nunca senti desconforto", insiste o ator. "Cenas de sexo te deixam preocupado, sejam com um homem ou com uma mulher. Na verdade, as mais preocupantes são aquelas com mulheres, sabia? Elas fazem com que você se sinta muito nervoso".

A parte realmente difícil foi interpretar um personagem cujas camadas múltiplas de disfarces e engodos transformavam até mesmo o comportamento trivial em um processo surpreendente. Mas isso também tornou o trabalho estimulante.

"A satisfação está no desafio provocado pela natureza imprevisível desse personagem", afirma Garcia Bernal. "Trata-se ainda de uma transformação bastante única que ocorre em vários níveis. Geralmente, quando um ator interpreta vários personagens, isso se dá por algum motivo arbitrário, ou como uma experiência, ou alguma gozação. Neste caso, o personagem faz o que faz para conseguir o que quer. Ele sabe que é um objeto de desejo, e age de acordo com isso".

Garcia Bernal acrescenta que acha Ignacio completamente amoral, mas, para desempenhar o papel, não se permitiu julgar o personagem. E algo como isso foi a chave que Almodóvar finalmente encontrou para contar "Má Educação", a sua história incrivelmente complicada, após dez confusos anos de escrita, e muitos outros para aperfeiçoar o trabalho.

"No princípio, os personagens eram ou bons ou ruins", diz Almodóvar, referindo-se aos primeiros esboços do roteiro. "Mas o tempo me proporcionou uma perspectiva suficiente para não fazer com que um personagem fosse melhor do que outro, sob o ponto de vista moral. Aquilo que mais despertou o meu interesse foi o lado humano dos personagens; explicar por que essas pessoas peculiares e corruptas agiam dessa forma, sem qualquer tipo de julgamento. Não estou as justificando, não, não, não", esclarece Almodóvar. "Mas, se houvesse um personagem que eu não soubesse como entender, não poderia ter feito o filme". Filme é o mais transgressor do grande cineasta Pedro Almodóvar Danilo Fonseca

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