'Desperate Housewives' mostra sexo no subúrbio

David Kronke
Los Angeles Daily News

Em um recente fórum em Beverly Hills, patrocinado pelo Conselho Nacional das Famílias e Televisão, foi exibida uma filmagem divertida de um pequeno garoto explicando, da melhor forma que podia, o conteúdo da "dramédia" de sucesso da rede ABC, "Desperate Housewives" (Donas de Casa Desesperadas).

"É sobre estas esposas... um dia, elas amam estas pessoas e alguns dias depois elas matam elas. Eu não acho que pais deviam assistir isto", ele alertou com preocupação. "Não faz bem para eles."

Muitos estão se recusando a seguir o conselho do garoto. "Desperate Housewives" é o maior sucesso da rede em anos, revivendo a boa fortuna da ABC, que derrubou a antiga titã da audiência, a NBC, para o terceiro lugar entre a importante faixa demográfica para a publicidade de 18 a 49 anos durante o mês de novembro.

O episódio mais recente (28 de novembro), no qual a intrometida do bairro foi despachada pela lâmina do liquidificador, atingiu a maior audiência da série até o momento, 27 milhões de espectadores, derrotando "CSI: Crime Scene Investigation" e se transformando no programa de maior audiência da semana.

De fato, a audiência na faixa demográfica do programa, a idade entre 18 a 49 anos, naquela noite superou as audiências somadas da faixa demográfica das outras redes no mesmo horário das 21 horas.

Sem causar surpresa, a seguindo a noção clássica de Hollywood de que "ninguém sabe nada", o roteiro do piloto da série, de autoria do criador Mark Cherry, foi rejeitado pela CBS, NBC, Fox, HBO, Showtime... e até mesmo pela emissora Lifetime.

Ainda menos surpreendente, assim que a série se tornou sucesso, ela se tornou controversa, como a garota propaganda do recente debate dos "valores morais", Estados vermelhos (republicanos)/Estados azuis (democratas), da eleição presidencial.

A atenção ao programa cresceu exponencialmente depois que Nicollette Sheridan, que interpreta a vadia de plantão da série, exibindo (ou deixando de exibir) trajes geralmente reservados para comerciais de produtos de banho, ofereceu seus talentos particulares ao astro do Philadelphia Eagles, o jogador Terrell Owens, durante a apresentação do "Monday Night Football". Após uma campanha de cartas negativas, a série desfrutou de suas maiores audiências.

Cherry, não disposto a filosofar sobre o "zeitgeist" [espírito do tempo], recusou-se a fazer comentários para este artigo. Mas Stephen McPherson, presidente da ABC Entertainment, comentou sobre a entrada triunfal da série nas guerras culturais: "Estão fazendo muito barulho em torno disto. É um programa incrivelmente divertido. Apresenta grande comédia, grande drama, grande mistério e grande intriga. Qualquer idéia de que esta é uma série controversa presta um tremendo desserviço a este programa divertido".

Cynthia Willman dirige seu negócio de cestas de presentes/livros de sua casa em Eagle Rock para permanecer perto de sua filha pequena, mas ela faz seu marido colocar a filha na cama aos domingos para que possa assistir a série.

"É um pouco embaraçoso admitir que 'Desperate Housewives' é um horário obrigatório de TV para mim. Há pessoas bonitas de se olhar. Há uma espécie de aspecto trapalhão, e há também um aspecto sombrio, e ambos me tocam. Estas podem ser as palavras que me definem, e a justaposição destes elementos torna a série enormemente divertida."

Suzanne Lauer, uma executiva de pós-produção solteira que vive em Valley Village, concorda, sugerindo que a série mistura os melhores elementos de "Sex and the City" e "Twin Peaks".

"Há um mistério divertido e grandes personagens. Eu adorava 'Twin Peaks'. Era inteligente e cheio de estilo, diferente de tudo que tínhamos visto. 'Desperate Housewives' preenche tal vazio e, em termos de personagens femininas, o vazio deixado por 'Sex and the City'. É ótimo assistir estas mulheres interagindo... eu sinto falta do apoio, amizade e interação que via lá."

Jessica Morgan, de Santa Monica, que escreve resumos semanais espirituosos de cada episódio para o site www.televisionwithoutpity.com, atribui seu sucesso a uma confluência fortuita de fatores.

"Ela estreou bem no início do outono, enquanto não havia nada na HBO, de forma que conseguiu atrair muitos espectadores que caso contrário a teriam ignorado. Também acho que os gostos são cíclicos, e ela apareceu no momento certo. As pessoas estão abertas novamente para novelões. Os espectadores apreciam os diálogos ágeis e espertos; as atuações são muito boas e possui valores de produção fantásticos."

"Valores morais"

Há um debate consideravelmente menor sobre as contribuições sociais da série, apesar de isto ter se tornado o tema favorito dos críticos, particularmente quando se trata da atividade sexual dos personagens. (A ansiedade-depressão dos personagens infelizes no casamento raramente é mencionada em tais discussões.)

"Nesta última eleição, a sexualidade se apossou de toda a noção do que 'valores morais' representam", notou Bob Thompson, diretor fundador do Centro para o Estudo da Televisão Popular da Universidade de Syracuse. "Apesar de a maioria dos pensadores filosóficos concordar que há coisas mais importantes a serem discutidas, a sexualidade na mídia parece ter se tornado um dublê para os valores morais."

Após a divulgação de que uma parcela considerável dos eleitores considerou "valores morais" como sua maior preocupação na última eleição presidencial, histórias subseqüentes notaram que o comportamento ruim das "Desperate Housewifes" atraía tantos espectadores dos Estados vermelhos quanto dos azuis, se não mais.

Frank Rich do "The New York Times" destacou: "É um sucesso ainda maior em Oklahoma City do que em Los Angeles, maior em Kansas City do que em Nova York" [NY e LA são cidades fortemente democratas; as outras são republicanas --conservadoras].

Isto ocorreu, é claro, antes de Rich --e, mais persuasivamente, Louis Menand da "New Yorker"-- revelar que os pesquisadores se equivocaram na interpretação "valores morais" como sendo uma preocupação entre os eleitores.

"Nós temos todos os pontos de vista, mas basicamente busca-se ter apelo junto a uma ampla audiência", disse McPherson da ABC. "Qualquer idéia que possamos ter --a badalação, a divulgação-- é negada pelo que a América pensa. Os espectadores são os eleitores."

A série, de fato, oferece bastante motivo para discussão. Os diversos murais do site www.televisionwithoutpity.com debatem tudo sobre "Desperate Housewives":

Trama: "Mike no funeral da Mary Alice: por quê? Ninguém conhecia ele. (...) Velórios ruidosos? Não, não, não. Isto não é uma festa de boas-vindas, amigo".

Criação de filhos: "Ter um segundo filho aumenta o nível de barulho/destruição... em três ou quatro vezes. Este é o motivo de minha filha em idade universitária ter dito que só terá um filho. Se a primeira criança for uma menina, ela terá outra, mas se for um menino, ela vai parar!"

Moda: "Todas nós garotas com olhos verdes sabemos que verde é a cor a vestir, mas os figurinistas continuam colocando Bree neste tom específico e fica simplesmente lindo, especialmente aquele suéter de gola careca. Mmm!"

Saiba quem é quem

Para os que desconhecem, "Desperate Housewives" espia atrás das cortinas de cidadãos ricos da suburbana Wisteria Lane (que soa, intencionalmente, como "alameda da histeria"). A série é narrada por Mary Alice Young (Brenda Strong) que, minutos após o início do primeiro episódio, comete suicídio.

Os membros restantes dos encontros sociais do bairro ficam tentando entender sua morte aparentemente sem sentido e se embaraçando em suas próprias existências miseráveis.

Lynette (Felicity Huffman) sacrificou uma carreira de grande poder para servir como uma mãe que fica em casa, oprimida por seus quatro filhos hiperativos; ela recentemente ficou viciada no Ritalin prescrito para eles.

Bree (Marcia Cross), uma mistura de esposa de Stepford e Martha Stewart que é virulentamente viciada em fornecer uma vida ideal anti-séptica para sua família, sofre com a rejeição de sua família ao seu perfeccionismo desenfreado --seu marido quer o divórcio, seu filho adolescente se tornou um sociopata.

Gabrielle (Eva Longoria) alivia a dor de um casamento sem amor com um sujeito bem-sucedido, mas viciado em trabalho, envolvendo-se com seu jardineiro pouco mais que adolescente.

E a mãe solteira e divorciada Susan (Teri Hatcher), aparentemente "vencendo" a feroz concorrência com a promíscua do bairro, Edie (Nicollette Sheridan), recentemente foi para a cama com o viúvo Mike (James Denton), que é novo em Wisteria Lane e que ostenta um enorme armário no quarto cheio de esqueletos. Enquanto isso, os segredos em torno da família de Mary Alice fazem Mike parece um sujeito normal.

DESPERATE HOUSEWIVES

  • O que são: mulheres sensuais se comportando mal na vizinhança.

  • Onde ver: canal Sony às 21h das quintas e às 22h dos domingo. Série seduz o público fazendo comédia em clima de "Twin Peaks" George El Khouri Andolfato
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