Queda do dólar prejudica ou beneficia quase todo mundo

Aldo Svaldi*
The Denver Post

As flutuações da moeda podem parecer assunto para negociantes internacionais e banqueiros centrais, mas a turbulência nas taxas de câmbio tem efeitos importantes sobre muitas empresas e consumidores.

O dólar americano caiu cerca de 30% desde seu pico no início de 2002 contra uma série de moedas mundiais importantes como o euro, o iene e a libra. O motivo é que a crescente dívida pública e o considerável déficit comercial dos Estados Unidos deixaram alguns investidores estrangeiros nervosos e menos inclinados a possuir dólares.

Enquanto as notas verdes tiveram algum progresso na semana passada em relação ao euro e ao iene, especialistas dizem que a previsão para os próximos meses é um declínio continuado. Veja como está a coisa:

Importadores de vinho francês estão pagando mais porque os preços subiram. As estações de esqui estão lucrando com o influxo de turistas estrangeiros. Corretores imobiliários estão nervosos porque o dólar fraco poderá causar um aumento das taxas de juros. As companhias de metais preciosos estão brilhando enquanto os investidores fazem estoque como proteção contra o dólar fraco.

Por estranho que possa parecer, esse enfraquecimento pode gerar lucros e prejuízos na mesma companhia.

Para a Shotcrete Technologies, fabricante de equipamentos para túneis e minas em Idaho Springs, Colorado, as peças importadas da Itália aumentaram 20%, disse sua vice-presidente, Mary Jane Loevlie. Mas a empresa espera um aumento ainda maior em encomendas de equipamentos, que os compradores estrangeiros acham mais acessíveis em seu ímpeto para procurar minérios, incluindo ouro.

Veja aqui alguns dos vencedores e perdedores.

OS VENCEDORES

Exportadores

Os exportadores, especialmente os pequenos fabricantes, lucraram com o dólar fraco porque seus produtos ficaram mais acessíveis no exterior. A Kisan Technologies, de Colorado Springs, Colorado, fabrica equipamento de segurança eletrônico para motocicletas e aumentou as exportações para a Europa em 200% no ano passado, enquanto o crescimento das empresas americanas foi de apenas 15%.

Mas seu principal executivo, Shrikant Gandhi, hesita em creditar isso somente ao declínio do dólar. "Tenho certeza de que está ajudando", disse Gandhi. "Mas é muito difícil quantificar."

O dólar fraco permitiu que uma empresa de suplementos dietéticos de Colorado Springs duplicasse suas vendas para um cliente da Holanda, oferecendo um preço inferior ao dos suplementos fabricados no país. "Estamos felizes com isso", disse Amy Mitchell, vice-presidente de vendas da The Chemins Co.

Turismo e esqui

Com o enfraquecimento do dólar, mais viajantes internacionais procuram os Estados Unidos, e as estações de esqui estão colhendo as recompensas. Os visitantes britânicos aumentaram 13% nos primeiros oito meses de 2004 em relação ao mesmo período de 2003, segundo o Departamento do Comércio. Os visitantes da Europa ocidental aumentaram 17%.

Muitos estrangeiros estão encontrando pechinchas nas pistas de esqui. As estações deverão receber mais de 800 mil esquiadores internacionais nesta temporada, contra 740 mil no ano passado, segundo o grupo setorial Colorado Ski Country. "Estamos esperando um crescimento de dois dígitos este ano no turismo internacional", disse Sue Baldwin, vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Colorado Ski Country.

O dólar mais fraco também conteve o fluxo de esquiadores americanos para resorts canadenses. Menos de três anos atrás, um dólar canadense valia US$ 0,62. Nas taxas de câmbio atuais vale US$ 0,82.

Ouro

As companhias mineradoras de ouro estão tendo lucros reluzentes e podem agradecer à queda do dólar. Analistas de ouro dizem que o declínio das verdes foi o principal motivo do desempenho positivo do ouro nos últimos anos. Assim como o petróleo e outras commodities importantes, o ouro é apreçado em dólares. Quando o dólar cai, o valor da commodity aumenta.

O ouro atingiu recentemente seu pico de 16 anos, a US$ 459 por onça - um belo aumento de 81% desde seu piso na era moderna, de US$ 253 em 1999.

"A importância do dólar para o ouro é conhecida", disse Martin Murenbeeld, economista chefe do Dundee Wealth Management Group, em Toronto, Canadá. "O dólar atua como um medidor. Se ele encolher, qualquer coisa que você estiver medindo em relação a ele - especialmente o ouro - tende a aumentar."

O efeito do dólar fraco sobre os preços do ouro e os lucros corporativos foi bem ilustrado no relatório financeiro do terceiro trimestre da Newmont Mining. A maior produtora mundial de ouro, baseada em Denver, disse que as vendas trimestrais caíram 16% em comparação com o ano passado. Apesar da queda, o faturamento líquido da Newmont, de US$ 128,7 milhões, foi um recorde para o terceiro trimestre. A companhia vendeu ouro a um preço médio de US$ 404 a onça, mais que suficiente para superar o menor volume de vendas.

OS PERDEDORES

Importadores

Os importadores de vinhos estrangeiros não estão fazendo brindes ao dólar. Tampouco está um vendedor de cashmere ou um vendedor de esquis suíços feitos à mão em Denver.

Diana Maxwell, diretora da Maxwell Wine Co., uma atacadista de vinhos em Louisville, Colorado, disse que o custo da importação de vinhos da Itália, França e Espanha está aumentando. "Estamos tendo um aumento em todas as nossas compras mais recentes por causa do euro", ela disse. "É de aproximadamente US$ 1 em média [por caixa]."

Com cerca de 30% de seu estoque vindo de importações, a Maxwell está de olho na taxa de câmbio, mas ainda lucra com a venda de vinhos estrangeiros. Maxwell disse que já conversou com alguns clientes sobre aumentar os preços e "eles não gostaram".

Tobias Munk, dono da Munk Cashmere nas estações de esqui de Breckenridge e Vail, no Colorado, disse que espera colher os benefícios de um maior número de turistas europeus, mas está vendo os lucros encolherem, porque importa artigos da Itália.

"Nós compramos em euros e vendemos em dólares. Isso está afetando o custo dos produtos", ele disse. "E não queremos aumentar os preços, então temos de agüentar margens cada vez menores."

Dois anos atrás, a Stockli Skis, em Denver, distribuidora de esquis feitos à mão importados da Suíça, tinha preços a partir de US$ 599 o par. Mas o dólar depreciou significativamente contra o franco suíço, levando os preços iniciais a US$ 799 importantes.

Imóveis

O turbilhão no mercado global de câmbio poderia significar prestações de hipotecas maiores para os donos de casas em todo o país. "O temor básico é que se o dólar depreciar em um valor considerável, ao mesmo tempo que os Estados Unidos têm déficits público e comercial maciços, as taxas de juros subam, o que poderá ter um efeito negativo nos mercados imobiliários", disse Ashok Bardhan, um pesquisador associado na Universidade da Califórnia em Berkeley. Os juros maiores poderão dificultar para as pessoas comprar, vender ou manter casas.

Gary Bauer, um consultor imobiliário autônomo em Denver, disse que para cada aumento de 1% na taxa hipotecária os potenciais compradores perdem cerca de US$ 20 mil em poder aquisitivo. Isso significa que alguém que está considerando uma casa de US$ 250 mil num ano poderia comprar uma casa de US$ 230 mil no ano seguinte com a mesma prestação mensal de hipoteca.

Os proprietários com hipotecas com taxas ajustáveis (ARM) poderão enfrentar um percurso especialmente difícil se o dólar continuar fraco. As ARM representam 35% de todos os empréstimos feitos e 50% do valor em dólares das hipotecas.

As taxas de hipotecas são determinadas em parte pelos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que são basicamente empréstimos que os investidores fazem ao governo federal. Hoje estrangeiros detêm mais de 41% dos Tesouros públicos dos Estados Unidos. Com o enfraquecimento do dólar, muitos desses investidores poderão achar os ativos americanos menos atraentes.

Se os estrangeiros venderem seus ativos de maneira agressiva, o mercado poderia ficar sobrecarregado por uma oferta de Tesouros maior que a demanda. Isso provavelmente faria os preços caírem e aumentaria as taxas de juros para tornar os títulos mais atraentes para os investidores.

Ações e títulos americanos

Quanto mais o dólar cai, menos atraentes são as ações e títulos americanos para os investidores estrangeiros, que perdem quando convertem seus lucros em moedas mais fortes em seus países. "Se eu estivesse colocando dinheiro num país que tem déficits orçamentário e comercial, eu exigiria um retorno maior para compensar o risco", disse Bryan Petersen, um corretor de moedas no Wells Fargo em Denver.

A teoria do dólar fraco poderia prejudicar os fundos mútuos, tornando os investimentos nos Estados Unidos menos atraentes para estrangeiros. Mas também torna as ações estrangeiras mais atraentes para os investidores americanos.

Os novos fluxos para fundos americanos que investem no exterior foram de aproximadamente US$ 49 bilhões em outubro, segundo a Lipper Inc., de Denver. Isso é mais que 2,5 vezes os US$ 18,2 bilhões que esses fundos captaram no ano passado.

* Colaboraram Ross Wehner, Kimberly Johnson, Julie Dunn, Christine Tatum e Steve Raabe Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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