John Travolta se delicia no papel de cinqüentão

Bob Strauss
Los Angeles Daily News
Em Los Angeles

John Travolta, que já ostenta cabelos brancos, fez 50 anos em fevereiro passado de 2004. E está com péssima aparência, barba por fazer, fora de forma e mancando. É claro, estamos falando do ator como ele aparece em seu último filme, "A Love Song for Bobby Long" [Uma canção de amor para Bobby Long].

Na vida real, o cabelo de Travolta continua escuro, seu peso às vezes oscilante está do lado equilibrado, e até onde podemos dizer todos os seus membros estão saudáveis. Mas o antigo destruidor de corações de "Embalos de Sábado à Noite", "Grease - Nos Tempos da Brilhantina" e "Welcome Back, Kotter" (na TV) admite que o aniversário foi mais que um pouco traumático.

"Falando francamente, não foi fácil para mim", disse Travolta. "Eu tive uma festa magnífica e ouvi muitos elogios, mas também poderiam ser considerados como 'Eles estão achando que eu vou partir?' (risos). Veja, aos 40 eu podia fingir que era um velho, sabendo que na verdade não era. Como ao dizer: 'Oh, você não quer beijar um velho', fazer essas coisas que refletiam de maneira charmosa num quarentão. Mas então cheguei aos 50 e não posso mais brincar com isso! Tenho de admitir uma certa idade real que eu nunca quis atingir. Então não foi a coisa mais fácil, mas estou superando."

Uma coisa boa de envelhecer, diz Travolta, é poder fazer papéis de sua própria idade, ou mesmo um pouco além dela.

É claro que Travolta sempre fez o que quis. Sua chegada ao superestrelato no final da década de 70, embora tenha sido alimentada por musicais que agradavam principalmente às mulheres, também incluiu os filmes de suspense de Brian De Palma ("Carrie, a Estranha", "Um Tiro na Noite").

Seu retorno à credibilidade com "Pulp Fiction - Tempo de Violência", depois de uma década de filmes de bebês falantes ou coisa pior, se equilibrou nos últimos dez anos entre projetos comerciais bacanas ("O Nome do Jogo"; "Broken Arrow - A Última Ameaça" e "A Outra Face", de John Woo), produtos populares medianos ("Fenômeno", "Michael - Anjo E Sedutor", "A Filha do General", "A Senha - Swordfish"), trabalhos prestigiosos/artísticos ("A Qualquer Preço", "Segredos do Poder", "Loucos de Amor") e fracassos (ainda não conseguimos entender um astro da magnitude de Travolta se dispondo a fazer "Bilhete Premiado", "Inimigo em Casa" e o horrível "A Reconquista", um tributo a seu amado L. Ron Hubbard, fundador de sua fé, a cientologia).

Mas Travolta gosta de salientar que, em seus últimos quatro trabalhos, fez um vilão de história em quadrinhos em "O Justiceiro", um corajoso chefe de bombeiros em "Brigada 49", um urubu da cultura sulina em "Love Song" e novamente o gângster hollywoodiano Chili Palmer de "O Nome do Jogo", na seqüência "Be Cool", com lançamento marcado para março.

"Tenho muito mais experiência de vida para dar", diz o ator. "São quatro personagens diferentes que eu não poderia ter feito se fosse mais jovem. Preciso ter a idade que tenho para fazer esses papéis. A idade dá uma grande liberdade de escolha."

Bobby Long

Desse quarteto, Bobby Long é claramente o mais próximo do coração de Travolta. Baseado no romance "Off Magazine Street", de R.E. Capps, com roteiro e direção do estreante em longa-metragem Shainee Gabel, "Love Song" mostra a lenta e mal-humorada redenção do ex-professor de literatura Long, que está numa antiga bebedeira com seu "biógrafo", Lawson Pines (Gabriel Macht), em um hotel decadente de Nova Orleans que já foi propriedade de uma cantora morta recentemente, compaheira de bebida e talvez namorada de Bobby.

Mas quando a filha adolescente e distante dela, Purslane (Scarlett Johansson), aparece e reivindica a propriedade, tem um efeito profundo sobre os dois velhos bêbados. Infelizmente no início, mas talvez exatamente do que eles precisavam para colocar suas vidas em ordem antes que fosse tarde demais.

"A voz do sul não foi muito explorada desde os anos 60, com Williams, Inge, Faulkner, Capote", disse Travolta. "Foi animador ver uma volta a esse tipo de personagem e de história que lhe permite ser pobre e romântico. Minha frase favorita do filme é quando Scarlett diz: 'Os livros são melhores que a vida. É por isso que eles são livros. Você não sabe disso? Qualquer idiota sabe disso'. Eu adoro, porque é indicativo da maneira como ele viveu a vida. Ele quase sabe demais e leu demais para ter um sentido de sua própria realidade.

"É realmente tudo o que eu quero fazer como um ator que envelhece, mas raramente surge a oportunidade", continua Travolta. "É o tipo de trabalho que Geraldine Page ou Paul Newman tiveram a possibilidade de explorar e que hoje em dia simplesmente não é possível. Não sei por quê, mas parece que a tendência dos textos não foi na direção dos clássicos. Esse é um filme muito importante, na minha opinião, porque convida as pessoas a serem literárias novamente."

Além de muito diálogo suculento e poético, "Love Song" também deu a Travolta a liberdade de imagem que ele não teve desde... bem, desde que encarnou o alienígena maligno em "A Reconquista".

"É divertido porque você tem liberdade para deixar fluir com um personagem", ele diz. "Você não precisa ser vaidoso ou consciente da maneira como aparece ou se comporta. Bobby é um cavalheiro sulino de boas maneiras. Mas ao mesmo tempo é um lascivo e um malicioso. Todas essas coisas entram em jogo, mas principalmente é divertido deixar fluir e relaxar com um personagem e não ter de se preocupar com a aparência.

"Em um grande filme você não poderia fazer isso por motivos óbvios. Você está correndo um risco, mas é melhor corrê-lo com uma coisa bem escrita do que em algo que não vai dar certo".

Travolta ficou tão feliz por conseguir um papel como o de Bobby Long que nem se queixou por ter de filmar em uma casa sem ar-condicionado no auge do verão sufocante da Louisiana. E isso de um sujeito que já foi acusado de recusar projetos quando o salário de seu cozinheiro pessoal ou o combustível para seu jato particular não eram incluídos no orçamento.

"É muito fácil desenvolver uma química com John, porque de muitas maneiras ele é um artista muito generoso", confirma o co-astro Gabriel Macht. "Ele é um desses caras que realmente querem que todo mundo se sinta bem, fique à vontade e sinta que tem algo a dizer para ser livre e espontâneo, e depois ser vulnerável."

Flórida

Como sempre, Travolta credita os aspectos positivos de sua personalidade, como enfrentar melhor os 50 anos, a seus estudos de cientologia. Mas ele também atribui ao fato de viver metade do ano perto da cidade de Ocala, na Flórida, que o mantém feliz e sadio.

Travolta, sua mulher, a atriz Kelly Preston, e seus dois filhos pequenos moram numa comunidade "fly-in" [de pessoas que possuem e se deslocam em aviões], em uma casa que o próprio ator projetou, com rampas de acesso dos dois lados para seus aviões Gulfstream e Qantas 707.

"Em termos de comunidades 'fly-in', são as melhores nesta parte do mundo", explica Travolta, que também possui casas em Maine e Brentwood.

"E é um lugar ideal, porque em Clearwater (a meia hora de vôo) existe muita cientologia, por isso passo muito tempo lá de qualquer maneira. Eu construí essa casa única, onde posso estacionar os aviões bem ao lado."

Quando questionado "por que a Flórida?", Travolta dispara motivos como esportes aquáticos, fãs de aviação, corridas de carro, os parques temáticos, o clima, o mar.

"Não importa quem você é --se você não encontrar algo para fazer na Flórida, não pode encontrar nada para fazer. Eu adoro, porque lá vivo uma vida melhor. Faço outras coisas, não faço apenas show-business e casa."

Não parece alguém que está se sentindo muito velho e cansado. Na verdade, Travolta afirma que quando o encontrarmos na próxima vez, como o esperto e empreendedor Chilly Palmer, "será o oposto de meu visual neste filme; sim, completamente". Astro encarna mestre beberrão em "Uma Canção para Bobby Long" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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