Atleta foge do violento Brasil e dá certo no Texas

Damien Pierce
Fort Worth Star-Telegram
Em Fort Worth, Texas

Vanessa Clementino estava sentada na estrada, na parte ruim da cidade, há sete anos, quando fez uma promessa. Era tarde, e ela tinha sorte de estar viva.

Dois homens, que não deviam ter mais que 18 ou 19 anos, tinham roubado o carro de seu ex-namorado em Araçatuba, no Brasil, e partido com ela apertada no banco de trás. Conhecendo centenas de histórias de outros na mesma situação que não viveram para contar, ela tinha quase certeza que não sobreviveria.

Mas, sem explicações ou ameaças, os dois homens pararam o carro e mandaram-na descer. Quando o carro partiu, Clementino prometeu que não ia parar na mesma situação novamente. "É um lugar maluco", disse Clementino de sua cidade de origem. "Tem tanto crime e coisas ruins que acontecem todos os dias. Sempre tive grandes sonhos. Disse a mim mesma que ia seguir meus sonhos, porque tinha recebido uma segunda chance."

Depois de mais quatro anos no Brasil e duas temporadas jogando em uma escola nos EUA, ela encontrou seu santuário em Fort Worth.

Clementino tornou-se capitã do time de basquete feminino da TCU (Texas Christian University - Universidade Cristã do Texas). Em sua primeira temporada, liderou a equipe no jogo de abertura do Conference USA, nesta sexta-feira (7/1) à noite, no sul do Mississippi. Mesmo com a famosa Sandora Irvin no time, Clementino, 24, é uma líder expressiva e não questionada da TCU. Além disso, ela dá ao time um corpo forte para complementar o de Irvin. Em média, Clementino faz 7 pontos e 3,1 rebotes por jogo.

Ela chegou a Fort Worth neste verão, depois de duas temporadas no Trinity Valley Community College, em East Texas. No entanto, antes disso, essa mulher de 1,88m deixou para trás um ambiente que não achava seguro --o bairro de baixa renda no qual cresceu, afligido por roubos e outros crimes.

O técnico da TCU, Jeff Mittie, disse que Clementino não cita frequentemente seu passado, mas ele sabe que faz parte de sua motivação.

"Ela não fala muito sobre isso", disse Mittie. "Mas vir aos EUA foi uma oportunidade para ela, por causa da violência da sua região. É uma bênção vir jogar aqui."

Clementino descobriu no basquete uma via de saída do seu ambiente. Quando tinha 12 anos, ela se mudou para longe da mãe, Verônica, em Piracaba, Brasil, para perseguir seus sonhos de basquete em Araçatuba. Clementino disse que foi difícil ficar sem sua mãe, mas que acreditava que era a única forma de atingir seu sonho de jogar na WNBA.

Araçatuba tinha um treinador e mais oportunidades de jogo. Nos seis anos seguintes, ela se tornou uma jogadora de talento.

Foi no final desse período que ela foi envolvida no seqüestro.

"Cheguei a considerar jogar basquete profissional no Brasil, mas, depois daquilo, quis vir para os EUA", disse Clementino do episódio de 1998. "Tenho medo de morrer. Não me incomodo em dizer isso. É duro estar num lugar em que você não se sente segura."

No entanto, seu bilhete de partida não chegou imediatamente, e ela explorou outras vias nos três anos após terminar o ensino médio, como a dança do ventre, a carreira de modelo e de técnica. Ela teve a chance de trabalhar como modelo na Espanha, mas abdicou dela para seguir seus sonhos esportivos.

Pouco depois de completar 21 anos, o técnico da escola de ensino médio de Clementino encontrou um recrutador interessado --o técnico de Trinity Valley, Michael Landers. Clementino, que não falava inglês na época, não deixou passar essa oportunidade e ajudou o Trinity Valley a vencer o campeonato da Associação Atlética Escolar Nacional dos EUA de 2004.

"Ela ficou agradecida com a oportunidade de vir aos EUA. A barreira da língua era difícil para ela, mas não acho que tenha sido duro vir para cá, porque mostrava tamanha satisfação em estar aqui", disse a assistente da TCU Yolanda Wells-Broughton, que era técnica do Trinity Valley.

O desempenho de Clementino atraiu interesse de várias escolas, inclusive a TCU. "Ela era muito atlética e precisávamos de um motor para frente", disse Mittie. "Achávamos que ia se encaixar bem em nosso sistema, por causa de sua habilidade em correr."

Clementino demonstrou sua habilidade em lançamentos e passes, mas ainda está se adaptando a seu novo ambiente. Ela encontrou alguns problemas de comunicação com sua equipe, mas Mittie disse que, quando ela compreender o que ele precisa, será excelente.

Enquanto trabalha nisso, confere à equipe uma líder madura.

"O técnico sempre nos diz que ela é a jogadora mais trabalhadora que já teve. Ela tem uma personalidade muito alegre e viva, o que a torna uma líder natural", disse a colega Ashley Davis.

Clementino acha que desenvolveu essas qualidades em sua vida no Brasil. Ela tornou-se forte e determinada porque não tinha muita escolha. Ela aprendeu a sobreviver sozinha e manteve seus sonhos, apesar dos obstáculos.

Ela também aprendeu a cumprir suas promessas.

"Não odeio meu país, mas a verdade é que há situações ruins lá", disse Clementino. "Sinto falta da minha família, mas não quero voltar. É meu sonho estar aqui." Jogadora de basquete Vanessa Clementino deixa o medo para trás Deborah Weinberg

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