TVs lutam pela glória na cobertura do tsunami

Jaques Steinberg
New York Times News Service

Os executivos dos noticiários de televisão há muito encaram os desastres naturais como um rico pano de fundo contra o qual possam demonstrar as suas habilidades e talentos superiores, e como oportunidade para melhorarem os seus currículos.

Mas a legião de jornalistas televisivos - os bem conhecidos e os promissores - que foi despachada ao sul da Ásia nas últimas duas semanas para cobrir a tragédia causada pelo maremoto representa mais que uma resposta extraordinária a uma catástrofe incomensurável ocorrida do outro lado do mundo. O tsunami ocorreu também em um momento de importância crítica para a carreira de três âncoras famosos - Brian Williams, da NBC; Dan Rather, da CBS, e Anderson Cooper, da CNN -, que viajaram para a região a fim de gerenciar as horas de cobertura na semana passada.

O tsunami também ocorreu em um momento de transição e grande competitividade para as organizações de notícias desses âncoras, e cada um deles procurou capitalizar a história para conseguir uma vantagem estratégica e, ao mesmo tempo, ganhar novos telespectadores.

Embora nenhum deles tenha sido enviado imediatamente após o desastre - o mundo televisivo, assim como o mundo em geral, demorou a compreender a enormidade da perda de vidas -, as redes de televisão logo começaram a competir entre si para atrair atenção para as suas respectivas coberturas. Em comunicados à imprensa e ligações telefônicas a jornalistas que cobrem a indústria televisiva, executivos das redes de TV alardeavam qual âncora era o primeiro em determinado local, fosse o primeiro âncora de telejornal noturno na Ásia ou o primeiro a entrevistar o secretário de Estado Colin L. Powell para um programa matinal (Diane Sawyer, do programa da ABC "Good Morning America").

Ao elaborarem as suas campanhas de relações públicas, por mais discretas que fossem, as redes tiveram em mente que qualquer que tenha sido a queda de audiência nos últimos anos, os telespectadores tendem a retornar em momentos de crise. E essa história, assim como os ataques do 11 de setembro ou a captura de Saddam Hussein, proporcionaram oportunidades raras para que se tentasse reconquistar tal interesse do público.

"As imagens horríveis nesta edição lembram a vocês que não existe nenhum regozijo da nossa parte por tal matéria ter sido possível", disse Neal Shapiro, presidente da NBC News. "Mas, devido a todo o interesse que existe, essa história faz com que nos lembremos da nossa terrível responsabilidade de cobri-la. Não estaríamos cumprindo o nosso dever para com os telespectadores caso não cobríssemos todas as regiões necessárias".

Para Williams, 45, que apresentou da Ásia o "NBC Nightly News" ao vivo durante quatro noites consecutivas - incluindo Banda Aceh, na Indonésia, onde o número de mortes foi o maior -, a tarefa representou uma chance dramática sair da grande sombra projetada pelo seu antecessor, Tom Brokaw. Brokaw, 64, deixou de ser o âncora do noticiário noturno em 1º de dezembro, menos de um mês antes do maremoto.

Para a CNN, que designou Jonathan Klein para o cargo de presidente da sua rede doméstica em 22 de novembro, o desastre na Ásia foi uma chance para tentar estabelecer um novo plano estratégico. Conforme ficou evidenciado pela cobertura da CNN durante a semana passada, esse plano inclui Cooper, 37, como o âncora principal e enfatiza as reportagens ricas em detrimento dos programas de debates políticos ocasionalmente acalorados que estavam se tornando uma marca registrada da rede, cujas índices de audiência têm sido inferiores ao da Fox News durante três anos seguidos.

E, quanto a Rather, 73, que na semana passada percorreu centenas de quilômetros em vários países afetados, por vezes em um helicóptero enviado de um porta-aviões, a tarefa veio em um momento profissional e pessoal especialmente difícil. Dentro de alguns dias a CBS deverá divulgar a conclusão de um comitê independente de investigação de um noticiário, dirigido por Rather antes da eleição presidencial, que levanta dúvidas quanto à atuação do presidente Bush na Guarda Nacional, usando documentos que a rede mais tarde determinou não terem fundamento. Ele mais tarde anunciou que em 9 de março deixaria de ser o âncora do programa "The CBS Evening News", após 24 anos no cargo.

É natural que Rather, um jornalista extremamente competitivo, e que não quer que o caso da Guarda Nacional seja o seu epitáfio profissional, tenha pedido incessantemente aos seus chefes que o mandassem à Ásia.

Em uma entrevista dada no Sri Lanka, por telefone, na semana passada, Rather falou sobre aquilo que descreve como sendo as suas emoções contraditórias: repulsa e pesar devido à perda de dezenas de milhares de vidas, aliados à alegria por estar entre aqueles observadores que receberam a missão de transmitir tal informação para casa.

"É muito difícil, talvez impossível, para o mundo exterior entender os sentimentos contraditórios com o qual nos deparamos como jornalistas", disse ele. "Eu digo a mim mesmo que estou falando de um número de mortes que é praticamente impossível de se imaginar. Ao mesmo tempo, me dou conta de que é uma grande história".

"Não há outro lugar onde gostaria de estar", acrescentou. "Eu literalmente rezo todos os dias agradecendo por estar fazendo este trabalho. É uma história como esta que faz a sua carreira".

Os comentários de Rather foram ecoados por Williams, que ligou de um táxi que vinha do Aeroporto Internacional Kennedy menos de quatro horas antes do momento em que atuaria como âncora do programa "Nightly News", na última sexta-feira. Eles haviam sido o apresentador do mesmo programa em Cingapura no dia anterior.

"É para isso que somos pagos", afirmou. "E, infelizmente, a grandeza na nossa área, no jornalismo, freqüentemente é acompanhada de grande desgraça para os outros".

O fato de William lembrar que o noticiário televisivo é realmente um negócio deixa bem claro que a aposta é especialmente alta para as divisões de notícia das redes televisivas, cada uma das quais gastou centenas de milhares de dólares, e, em alguns casos, vários milhões, para cobrir a destruição causada pelo maremoto.

É comum que as redes apresentem em termos militares as suas campanhas de cobertura da história.

A CNN, que experimentou um aumento substancial do índice de audiência nas últimas duas semanas, comparado ao mesmo período do ano passado, anunciou em um comunicado à imprensa: "CNN Demonstra Força Global com Cobertura do Tsunami". A seguir, a empresa explicou detalhadamente como uma equipe de 80 jornalistas, operadores de câmeras, técnicos em comunicação por satélite e outros foi mobilizada na área.

Na última segunda-feira, a NBC estava tão ansiosa para divulgar a chegada de Williams que o descreveu na sua manchete como "o primeiro âncora de um noticiário noturno a viajar ao sudeste da Ásia para cobrir o tsunami".

Na verdade, Rather, que chegou em Bancoc na noite da sexta-feira, ganhou de Williams por uma diferença de mais de um dia.

Não se sabe ao certo se os esforços das redes de televisão no sentido de mobilizar suas equipes na semana passada tiveram resultados em termos de aumento do índice de audiência.

Os índices relativos à semana passada só serão divulgados pela Nielsen Media Research na terça-feira. Na semana que se seguiu ao maremoto, os índices de audiência dos telejornais noturnos da NBC e CBS foram menores, em média, do que os da mesma semana no anterior; só a ABC ganhou pontos de audiência.

Na segunda semana após o desastre, Com Rather e Williams na Ásia, Peter Jennings, o antigo âncora do "World News Tonight", da ABC, estava preso à sua mesa de trabalho em Nova York, impossibilitado de viajar devido a um problema respiratório. Para Jennings - e para a ABC, que investiu dezenas de milhares de dólares nas últimas semanas em uma campanha promocional cujo objetivo era, em parte, enfatizar a sua experiência como correspondente internacional - a situação era torturante.

"Não dá para dizer a vocês o quanto ele desejava ir para lá", disse Paul Slavin, vice-presidente da ABC News.

Na ausência de Jennings, Slavin e outros executivos da ABC trabalharam agressivamente para ressaltar as contribuições de Sawyer em particular. Ela chegou à região no fim de semana do Ano Novo e passou a dormir de forma intermitente, já que foi co-apresentadora do "Good Morning America" e colaborou com reportagens para o programa de Jennings. Um dos segmentos mais pungentes foi aquele em que ela mostrou uma equipe a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, estacionado no Oceano Índico, fazendo uma quantidade extra de pães para os sobreviventes do maremoto.

A Fox News não enviou nenhum dos seus âncoras - a empresa manteve o seu principal apresentador, Shepard Smith, em Nova York -, por opção, e não devido às circunstâncias. Das três principais redes de televisão e das duas de TV a cabo, ela talvez seja a que apresente a operação mais enxuta, com uma equipe de cerca de 25 funcionários na Ásia.

"Creio que existe uma reação reflexa no sentido de se enviar os profissionais mais famosos para lá", opina William Shine, vice-presidente de produção da Fox News. "Nós tentamos fazer as coisas de forma diferente por aqui".

A Fox não pareceu ter sido especialmente prejudicada por essa decisão no que diz respeito aos índices de audiência. Durante o horário nobre, nas dez noites consecutivas até a última quarta-feira, a rede atraiu em média 1,5 milhão de telespectadores, um aumento de cerca de 17% com relação ao mesmo período no ano passado, segundo a Nielsen.

Mas a CNN, embora estando em um distante segundo lugar em relação à Fox, melhorou bastante, conseguindo uma média de 935 mil telespectadores por noite, um aumento de 64%, segundo a Nielsen.

Os executivos da CNN sugerem que entre os motivos para esse fato está a visibilidade crescente de Cooper, um ex-correspondente da ABC. Embora ele seja tipicamente o apresentador do programa de uma hora, em horário nobre, chamado "Anderson Cooper 360º", Cooper foi também o âncora durante várias horas adicionais ao vivo todas as noites da semana passada no Sri Lanka.

Em uma entrevista por telefone a partir da região na semana passada, Cooper disse que passou a maior parte do tempo visitando vilas costeiras devastadas ao longo da costa ocidental do país, na companhia de uma equipe de filmagem, mas que também gravou, ele próprio, imagens digitais de vídeo. Em um desses segmentos, Cooper, por meio das suas próprias imagens e palavras, fala sobre um garoto de 13 anos que perdeu um irmão e uma irmã.

"Sozinho em uma praia, um garotinho triste atingido pela agia toca um tambor, e a dor no seu coração é demasiado profunda para ser expressa", diz Cooper em sua narrativa.

Em uma entrevista, Williams, que é pai de uma menina de 16 anos e de um menino de 13, disse que o fato de testemunhar cenas intermináveis de crianças abandonadas às vezes tornou particularmente difícil para ele fazer o seu trabalho.

No caso de Rather, já no final de semana do Ano Novo, pareceu que o seu papel na CBS pode ter sido bem mais limitado do que o dos seus concorrentes. Ele viajou à Ásia como correspondente da edição de quarta-feira do programa "60 Minutes", aquele onde foi divulgada a sua reportagem sobre a atuação do presidente na Guarda Nacional, com a missão de fazer uma matéria no Abraham Lincoln, mas sem contar com a promessa de que seria o âncora do seu noticiário.

Mas na segunda-feira da semana passada, quando a enormidade da tragédia começou a ser mais bem compreendida, e quando aumentaram as contribuições financeiras de todo o mundo, o papel de Rather cresceu. Ele acabou sendo o co-apresentador do "Evening News" (o outro apresentador foi John Roberts) a partir da região durante quatro noites, e recebeu ordens para retornar a Nova York no fim de semana.

Antes da partida, perguntaram a Rather em uma entrevista se ele havia refletido enquanto esteve na Ásia sobre os poucos dias em que se sentará na cadeira de âncora, após os quais se tornará correspondente do "60 Minutes".

"Não estaria sendo sincero se dissesse que não pensei sobre a mudança em minha carreira desde que aqui cheguei", afirmou. "Uma vez ou outra, quando me encontrava com um dos nossos operadores de câmera veteranos, ele me dizia discretamente algo como, 'Espero que tudo corra bem'".

"Isso é algo que certamente coloca as coisas em perspectiva", acrescentou. Catástrofe é oportunidade para jornalistas das grandes redes Danilo Fonseca

UOL Cursos Online

Todos os cursos