Senadora democrata se destaca como líder da ala "radical"

David Whitney
Em Washington

Com apenas algumas semanas da nova sessão do Congresso, muitos começam a pensar em voz alta: "O que está acontecendo com Barbara Boxer?" Na primeira semana da sessão, Boxer liderou a interpelação do Senado sobre a autenticação da eleição presidencial em Ohio, citando irregularidades.

Afinal foi ela sozinha contra a autenticação, enquanto 74 de seus colegas -- incluindo o senador Ted Kennedy de Massachusetts, a senadora Hillary Rodham Clinton de Nova York e outros 33 democratas -- aprovaram a contagem de votos.

E na semana passada Boxer atacou Condoleezza Rice em sua audiência de confirmação como nova secretária de Estado do presidente Bush. Boxer só faltou chamar Rice de mentirosa por causa de suas declarações antes da guerra do Iraque, quando era assessora de Segurança Nacional do presidente.

Diversas vezes Rice pediu para Boxer baixar o tom. "Podemos ter essa discussão de qualquer maneira que você preferir", disse Rice. "Mas realmente espero que você se abstenha de impugnar minha integridade."

Mas Boxer não descansou, e ela e o senador John Kerry, o candidato democrata que disputou com Bush em novembro, deram os únicos votos contra o envio da nomeação de Rice para aprovação no plenário do Senado.

Boxer disse em entrevista na semana passada que não é a nova diva da demagogia. "Eu estava apenas fazendo meu trabalho, como sempre fiz." Mas raramente ela ganhou tantas manchetes tão rapidamente em uma sessão do Congresso e em lutas com tantas probabilidades contra.

Muitos vêem aí uma política tarimbada, temporariamente livre das preocupações eleitorais, erguendo-se como uma voz de liderança dos democratas que acreditam que Bush deveria ser contestado em todos os passos de seu segundo mandato na presidência.

Boxer foi eleita em novembro com 57,8% dos votos, recebendo um milhão de votos a mais do que a democrata Dianne Feinstein obteve em sua reeleição em 2000 como senadora da Califórnia. O gabinete de Boxer disse que os 6,9 milhões de votos dados a ela são o máximo que qualquer senador de qualquer Estado já recebeu.

Feinstein era amplamente considerada a mais popular das duas democratas da Área da Baía de São Francisco, e uma trabalhadora incansável pela Califórnia, muito atenta aos detalhes. Mas num Estado que apoiou fortemente Kerry em novembro, agora Boxer está crescendo constantemente como a voz da oposição democrática inflexível, um papel singular que Feinstein, mais moderada e conciliadora, não pode preencher.

"Isso permite que Barbara Boxer crie um fórum para si mesma entre os liberais do Senado", disse a cientista política Sherry Bebitch Jeffe, do Claremont College. "Será que ela está se posicionando para ser o que Ted Kennedy é hoje -- a voz da ala liberal do Partido Democrata?", perguntou Jeffe. "Ela tem muito tempo. Tem mais seis anos para desenvolver isso."

Bruce Cain, diretor do Instituto de Estudos Governamentais na Universidade da Califórnia em Berkeley, disse que os democratas do Estado têm um tremendo apetite para o que Boxer pode oferecer no cenário nacional.

"Existem muitos democratas que pensam que Ohio foi uma fraude", ele disse. "Não há evidências científicas até agora, mas eles apenas acreditam nisso em seus corações. Vimos que essas pessoas têm dinheiro e se organizam, e por isso você não pode simplesmente ignorar a ala progressista do partido."

É um papel para o qual Boxer é adequada e que ela já exerceu várias vezes, disse Cain. Mas essa parte da personalidade de Boxer não esteve em evidência nos últimos anos por causa das exigências da política eleitoral.

"Depois de sua primeira eleição em 1992, houve muita especulação sobre se ela seria uma senadora de um único mandato", disse Cain. Mas, ao se afastar das principais controvérsias, especialmente nos últimos dois anos, "Boxer não estava dando nada para os republicanos atacarem".

De fato, desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, Boxer foi uma voz forte pelo aperfeiçoamento da segurança nacional e da obtenção de informações. Ela foi uma das principais defensoras de se equipar os aviões civis para iludir mísseis disparados do ombro e votou a favor do Ato Patriótico. Sobre questões da Califórnia, ela trabalhou para aprovar um decreto estadual sobre áreas naturais, partes do qual tramitaram separadamente, e foi um dos líderes da legislação para captar verbas federais para restaurar as missões históricas da Califórnia.

Isso levou a uma fácil reeleição em novembro contra o republicano Bill Jones, e agora à liberdade, em um período crucial para os liberais desanimados, para ocupar o palco. Cain a vê exercendo um papel de destaque como a voz da ala liberal do partido durante algum tempo, "certamente enquanto durar a guerra no Iraque".

Alguns republicanos vêem perigo nisso para os democratas da Califórnia. O consultor republicano Allan Hoffenblum disse que a proeminência crescente de Boxer poderá aumentar a impressão, que na opinião dele já está quase fervendo na capital, Sacramento, de que todos os democratas são obstrucionistas, "dizendo não para tudo". "Isso poderá ter um impacto em Sacramento, fazendo parecer que é o Partido Democrata inteiro", ele disse.

Mas Barbara Sinclair, uma cientista política da Universidade da Califórnia em Los Angeles, disse que enquanto o Partido Democrata dominar as eleições na Califórnia, Boxer será adequada para servir como contraponto político para uma enorme fatia deles.

"Existe a sensação entre muitos democratas de que é muito importante não facilitar o governo para Bush, de modo algum", ela disse. "Dianne Feinstein é mais inclinada a não balançar o barco e a se expor menos nessas questões altamente partidárias. Esse é um papel mais confiante, de porta-voz."

Na entrevista, Boxer disse que não vê seu papel nesses termos. Ela não acredita que sua margem de eleição em novembro mude alguma coisa, exceto para lhe dar mais um mandato no Senado que, aliás, só terminará dois anos depois que Bush deixar o cargo.

"Não acredito em mandatos", ela disse. "Mas acredito em manter as promessas feitas à população", ela disse. "Eu disse a eles na noite da eleição -- e não sabia como isso era profético -- que se eu tivesse de me erguer sozinha, o faria. Não tenho medo." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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