Bush quer aumentar taxas de contribuição para previdência

Carolyn Lochhead

WASHINGTON - O presidente Bush abriu o caminho para aumentar a arrecadação para a previdência social sobre as pessoas que fazem mais de US$ 90 mil (em torno de R$ 225 mil) por ano. Enquanto isso, o diretor do Federal Reserve, banco central americano, fez um endosso qualificado na quarta-feira (16) à idéia do presidente de acrescentar contas privadas aos planos de aposentadoria.

Os assessores de Bush indicaram, recentemente, que o presidente poderá aceitar que os contribuintes de alta renda recolham mais ao sistema de previdência social. O próprio Bush citou essa possibilidade em uma entrevista publicada na quarta-feira, em New Haven, Connecticut.

Os assalariados atualmente pagam taxa de previdência social somente sobre seus primeiros US$ 90 mil de renda por ano. Bush não descartou a hipótese de aumentar esse limite.

"A única coisa que não estou aberto a fazer é aumentar índice de desconto na folha de pagamento", disse o presidente. "Todas as outras questões estão na mesa."

Pesquisas recentes mostraram apoio do público para aumentar o limite. Uma pesquisa de opinião da CNN/USA Today/Gallup, na semana passada, mostrou que mais de dois terços dos pesquisados favoreciam taxar todo o salário, não apenas os primeiros US$ 90 mil.

Taxar uma proporção maior dos ganhos colocaria mais dinheiro na previdência social, o que ajudaria a colocar o sistema em solvência de longo prazo e facilitaria o financiamento dos enormes custos de transição para as contas pessoais de poupança promovida por Bush.

O presidente recebeu o reforço de Greenspan, que defendeu uma estratégia gradual de criação das novas contas e advertiu: O atual sistema "não está funcionando, e temos que mudá-lo".

Mas Greenspan disse que ainda está avaliando como os mercados financeiros reagirão aos trilhões de dólares necessários para financiar a transição para as contas privadas requereria. Ele estimou que o empréstimo será de, no máximo, US$ 1 trilhão (em torno de R$ 2,5 trilhões), nos próximos 10 anos, número próximo ao de Bush.

"Se vamos mudar para as contas privadas, que eu aprovo, temos que fazê-lo de forma gradual e cuidadosa", disse Greenspan ao Comitê Bancário do Senado. Sua avaliação cor de rosa da economia foi encoberta por suas respostas às perguntas dos senadores sobre a previdência social.

O endosso de Greenspan às contas privadas não é novo, mas seus comentários foram feitos em um momento crítico na luta para formar a opinião pública em torno do assunto, uma luta que assumiu os contornos de uma verdadeira campanha política.

Bush está viajando pelo país para promover o plano, parando em New Hampshire na quarta-feira. Enquanto isso, os Democratas combatem todos os dias do Capitólio. Tiveram uma conversa com Greenspan e uma teleconferência com o economista e Prêmio Nobel Joseph Stiglitz. Stiglitz disse que as taxas de retorno em contas privadas estão sendo exageradas e que um crescimento econômico maior poderia ajudar a custear o programa.

Os dois lados estão amparados por institutos acadêmicos, grupos de interesse e operações de relações públicas multimilionárias, que estão conduzindo campanhas nacionais de propaganda.

Dada a estatura quase icônica de Greenspan nos mercados financeiros, Democratas do comitê demonstraram deferência, muitas vezes enfrentando dificuldades para emitir suas opiniões sem parecer contradizê-lo.

Os dezoito anos de Greenspan no cargo cobriram quatro presidências, uma crise financeira global, uma expansão e uma explosão do mercado de ações. Em 1983, ele liderou uma comissão bi-partidária que evitou uma crise na previdência social. O índice recolhido nas folhas de pagamento foi aumentado, assim como a idade para aposentadoria, produzindo um excedente de US$ 1,5 trilhão (em torno de R$ 3,75 trilhões) utilizado pelo Congresso nos anos seguintes.

Ao assumir ser a favor das contas privadas, Greenspan deu argumentos para os dois lados. Ele admitiu que as contas privadas não restaurarão a solvência do sistema, mas insistiu que podem criar uma forma de patrocinar uma parte dos benefícios da previdência no futuro.

Greenspan, entretanto, fez questão de esclarecer um ponto geralmente ignorado pelos políticos: para impedir uma queda do padrão de vida, quando 76 milhões de pessoas da geração do "baby-boom" começarem a se aposentar, em três anos, será essencial aumentar a poupança nacional. Isso requer uma redução do consumo hoje por indivíduos e pelo governo federal.

"Nosso problema com respeito à aposentadoria não tem nada a ver com finanças", disse Greenspan. "Tem a ver com bens de fato, recursos físicos de fato e bens e serviços que as pessoas consomem". O teste, disse ele, é saber se o sistema de aposentadoria está gerando poupança, "ou seja, se é totalmente financiado ou não".

O atual sistema de previdência social, em que os trabalhadores na ativa pagam os benefícios dos aposentados, funcionou muito bem por décadas, disse ele, ao menos enquanto os trabalhadores eram muito mais numerosos do que os aposentados.

Mas quando houver apenas dois trabalhadores para cada aposentado, como acontecerá nas próximas décadas, haverá "um problema muito grande para o sistema atual, essencialmente por causa de sua natureza... ela não cria poupança; meramente transfere recursos dos contribuintes aos beneficiários", disse Greenspan.

Um modelo de conta privada "tem em si as sementes para desenvolver o custeio total, por sua própria natureza", criando uma poupança forçada, disse Greenspan.

No entanto, sua grande questão é como os mercados financeiros reagirão ao empréstimo de transição necessário para pagar os atuais benefícios, se os atuais trabalhadores começarem a transferir parte do que recolhiam na folha de pagamento para suas próprias contas.

Teoricamente, se o governo pegar dinheiro emprestado para colocar em contas privadas de poupança, não haverá mudança líquida na poupança nacional. "Esse é um dos casos muito raros nos quais você pode aumentar o déficit, mas não diminuir as poupanças nacionais, se você tiver contas de poupança forçadas", disse Greenspan.

No entanto, ele advertiu: "Uma coisa é dizer isso como economista. Outra coisa é dizer como os mercados vão responder."

Se os mercados de bônus reagirem ao empréstimo como nova dívida, isso poderá levar a um aumento nas taxas de juros, advertiu Greenspan. "Nesse caso, se vamos nos mover nessa direção, ficaria contente se o fizéssemos muito lentamente. Testemos as águas, porque acredito que é uma coisa boa a se fazer no longo prazo", disse Greenspan. "Eventualmente, a meu ver, o sistema atual será muito difícil de administrar, vamos precisar de uma alternativa."

Greenspan disse que a forma de criar as contas privadas sem contrair empréstimos seria aumentar as taxas recolhidas ou reduzir os benefícios. Bush descartou a hipótese de aumentar os recolhimentos em folha, mas sugeriu reduções no crescimento dos benefícios. Greenspan disse que a principal idéia sugerida pela Comissão de Previdência Social de Bush em 2001 -de indexar futuros benefícios a preços em vez de salários, que aumentam mais rápido que os preços- acabaria com quase toda a dívida de US$ 10 trilhões (em torno de R$ 25 trilhões) do programa.

Mudar a indexação é "uma das formas mais eficazes de acabar com o... desnível entre a receita e os benefícios esperados", disse Greenspan.

Ele admitiu, entretanto, que isso reduziria fortemente os benefícios prometidos para os jovens trabalhadores -argumento utilizado frequentemente pelos Democratas contra o plano de Bush.

Qualquer sistema, inclusive o atual, requererá um "enorme custo de transição" até que se torne totalmente financiado, advertiu Greenspan: "Nenhuma estratégia acaba com o fato de que existe um enorme buraco no sistema e que não temos escolha se não tentar enchê-lo".

Greenspan também ecoou os argumentos de Bush que contas privadas são "altamente desejáveis" porque ajudam os trabalhadores de baixa e média renda a ficarem mais ricos e acredita que se tornarão "extraordinariamente populares".

Os Democratas procuraram minimizar a importância dos comentários de Greenspan, dizendo que o atual empréstimo na proposta de Bush -que o governo calcula em US$ 754 bilhões (em torno de R$ 1,9 trilhão) nos próximos 10 anos -de fato seria mais próximo de US$ 1,4 trilhão (aproximadamente R$ 3,5 trilhões) quando a fase de três anos estiver completa, mais que a estimativa de US$ 1 trilhão de Greenspan.

"Não ouvi nada de novo do Diretor Greenspan sobre seu apoio às contas privadas", disse o deputado Sander Levin, Democrata de Michigan, que está coordenando a oposição Democrata da Câmara ao projeto de Bush. Greenspan endossa cautelosamente projeto de contas privadas Deborah Weinberg

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