Para o governador Owens, do Colorado, a festa parece ter acabado

Susan Greene
Do Denver Post

Dois anos atrás, o futuro parecia ilimitado para Bill Owens. O 40º governador do Colorado obtivera o seu segundo mandato com o maior número de votos da história do Estado. A "National Review" alcunhou-o de "O Melhor Governador nos Estados Unidos". E republicanos de todo o país suplicaram a ele que disputasse a presidência.

Mas, a seguir, o valor de Owens no mercado político começou a despencar. Após a notícia, em 2003, que o defensor dos "valores familiares" estava se separando da sua mulher após um casamento de 28 anos, veio a derrota no referendo estadual sobre a água. Depois foi a vez de uma série de derrotas mais perturbadoras em 2004 - a mais notável delas sendo a perda do controle dos republicanos sobre a câmara e o senado estaduais no Colorado, um fenômeno na contramão da tendência de vitória do Partido Republicano em outros Estados do país.

"Ele tirou os olhos da bola e pecou ao não prestar atenção ao que se passava no Estado", afirma o senador estadual Ron Teck, republicano de Grand Junction. "A sua carruagem perdeu as rodas".

Owens diz que a sua carreira política, assim como a de todo mundo, possui "altos e baixos".

"Há momentos em que estamos por cima e outros em que ficamos por baixo", afirma. "Os eleitores do Colorado apreciam o trabalho que estou fazendo como governador".

Muitos acreditam que ele conta com uma oportunidade de melhorar a sua imagem na medida em que trabalha com a legislatura democrata no sentido de aliviar os problemas orçamentários do Colorado.

"Creio que ele deu um grande passo adiante com a sua proposta orçamentária", opina Bruce Benson, executivo do setor de petróleo em Denver e ex-presidente estadual do Partido Republicano. "Penso que Owens será um grande líder por muito tempo".

Mas, na metade do caminho rumo ao seu último mandato, alguns dizem que Owens perdeu a energia e a eficácia que outrora o impulsionavam como um dos mais promissores novos líderes do Partido Republicano.

Ninguém mais fala seriamente sobre uma presidência de Owens. Conservadores e moderados atribuem a ele as derrotas republicanas no Estado. E até mesmo os principais aliados de Owens temem que ele esteja tão descomprometido com a função que acabe desperdiçando os seus dois últimos anos no cargo.

Das quase 40 pessoas entrevistadas para este artigo - incluindo importantes líderes republicanos - umas poucas são fãs incondicionais do governador, enquanto que a maioria acredita que a liderança de Owens sofreu um baque nos últimos dois anos.

"A mudança nele foi dramática... É como se ele não fosse mais a mesma pessoa desde a separação", diz a senadora estadual republicana Norma Anderson. "Bill é um amigo. Detesto ver o que aconteceu a ele. Tenho a sensação de que quando o seu mandato acabar ele vai se retirar da política".

Aos 54 anos, Owens ocupou cargos políticos durante a maior parte da sua vida adulta. Este lobista do setor de petróleo e gás foi eleito aos 32 anos para a câmara estadual do Colorado com os votos de um distrito suburbano. Ele integrou o senado estadual e foi secretário do tesouro antes de vencer o democrata Gail Schoettler na eleição para governador aos 48 anos.

O primeiro mandato de Owens foi meteórico. Ele patrocinou uma onda de construção de rodovias, elevou o nível de responsabilidade das escolas e reduziu os impostos em cerca de meio bilhão de dólares por ano.

Ele se tornou ainda um favorito do movimento conservador, discursando pelo país sobre o conservadorismo fiscal e os valores familiares. Programas como "Hardball" e "The O'Reilly Factor" mostravam freqüentemente o articulado governador do Colorado elogiando a linha adotada pelo seu partido.

Os seus sucessos no Estado e no país fizeram com que o analista político George Will passasse a defender a candidatura de Owens à presidência em 2008. E os aliados conservadores financiaram prazerosamente o Centro para o Novo Século Americano, do governador, uma instituição tida como um balão de ensaio para a sua campanha nacional.

Mas a conversa séria sobre uma presidência de Owens terminou com a notícia da sua separação da primeira-dama Francês Owens, anunciada por ele um mês e meio após a morte da sua mãe, em julho de 2003. Já são 18 meses desde a separação.

Quase que imediatamente após o anúncio, os trabalhos na instituição de Owens foram paralisados. Os seus problemas conjugais representaram um forte golpe para os aliados conservadores, que passaram a questionar os seus valores familiares.

"Ele começou como um herói conservador", disse Kendal Unruh, ativista republicano do Colorado. "Mas se um homem alega ser conservador, mas, na sua vida particular, se comporta de forma diferente, a coisa não funciona. Não é possível que se tenha tal duplicidade".

De sua parte, Owens insiste que nunca esteve de olho na Casa Branca, embora não tenha dissuadido outros de alimentarem esse plano.

"Não me importei com o fato de as pessoas pensarem nessa possibilidade, já que isso era bom para o Colorado e para o avanço das minhas idéias", afirma.

Após o senador republicano Bem Nighthorse Campbell decidir buscar a reeleição na primavera passada, Owens se reuniu com seus principais assessores para estabelecer a plataforma da sua própria campanha pelo cargo. Mas a seguir ele surpreendeu até mesmo os seus assessores próximos ao citar "preocupações familiares" ao anunciar que, em vez disso, estaria apoiando o empresário do setor de cervejaria Pete Coors.

Sabendo que o senado era uma das suas principais metas, algumas pessoas próximas ao governador viram na decisão um sinal de que a sua carreira política perdera o rumo.

"Quando ele não quis subir no palanque, isso para mim foi uma indicação clara de que algo mudou em Bill Owens", afirma Teck.

"Parece razoável inferir que difíceis circunstâncias familiares para os Owens têm muita a ver com a reformulação dos seus objetivos políticos", opina o ex-presidente do senado, John Andrews, um republicano conservador.

A decisão de Owens de não concorrer ao senado também teve efeitos políticos mais amplos. Ele enfureceu a direita ao endossar Coors, após ter prometido dar o seu apoio ao mais conservador Bob Schaffer.

Observadores políticos passaram a questionar a perspicácia política de Owens meses atrás, devido à forma como administrou o Referendo A, um programa de empréstimo de US$ 2 bilhões ao Estado para projetos relativos à água. Apesar da seca que atingiu o Colorado naquele ano, a medida pelo armazenamento de água em novembro de 2003 foi derrotada nas urnas de todos os condados do Estado. Segundo especialistas, isso foi o resultado de uma campanha sem foco definido.

"A campanha não foi bem concebida", afirma Benson. "Simplesmente não se sai em público para pedir dinheiro sem fornecer maiores detalhes".

O trabalho de Owens relativos à eleição de 2004 gerou críticas ainda mais duras.

Ele se opôs a um plano de expansão do sistema de transporte de massas no valor de US$ 4,7 bilhões, provocando a ira dos seus aliados na comunidade empresarial e das autoridades municipais que fizeram campanha a favor da medida. Os eleitores aprovaram o plano por uma ampla margem de votos.

"Todos estavam sentados à mesa. Politicamente, fico me perguntando no que ele estava pensando. Era como se não fosse ele", afirma Anderson.

Outros criticam Owens por exercer pressões muito intensas para a aprovação da sua agenda de governo limitado.

"Os eleitores perceberam que se levassem longe demais essa agenda antigoverno e antiimpostos, correriam o risco de ver o Estado descarrilar", opina o professor de ciência política da Universidade Estadual do Colorado, John Straayer.

Owens argumenta que merece crédito por agir por convicção, e não em resposta às pesquisas de opinião.

"Um governador tem a responsabilidade de fazer aquilo que acha certo, ainda que se alie ao lado perdedor", afirma.

E a posição de Owens encontra muitos defensores.

"Ele traçou na areia uma linha delimitando os seus princípios, mas também os priorizou", diz o deputado estadual republicano Matt Knoedler. "Ele se dispõe a se inclinar para cada lado dessa linha de vez em quando, a fim que alcançar o bem maior".

Em um fato que tornou mais extensa a sua lista de derrotas políticas, Owens se opôs a um imposto estadual sobre o tabaco que foi aprovado em novembro. E ele perdeu o seu plebiscito pela reforma do funcionalismo estadual - uma derrota fragorosa, considerando que o prefeito de Denver, John Hickenlooper, conquistou uma grande vitória em uma iniciativa similar um ano antes.

A equipe de Owens encarregada de fazer campanha pela reforma do serviço público desistiu de tentar obter verbas após decidir concentrar os seus esforços na derrota da Emenda 36, que procura dividir os votos eleitorais do Colorado. A medida foi facilmente derrotada nas urnas.

Os republicanos acabaram perdendo a cadeira de Campbell no senado. O republicano Greg Walcher - ex-secretário de Recursos Naturais de Owens - perdeu no 3º Distrito Congressual para o democrata John Salazar. E os republicanos perderam o controle das duas casas legislativas do Colorado pela primeira vez em 44 anos.

Alguns republicanos se queixam de que Owens - o líder estadual do partido - os deixou sem estratégias. Enquanto se concentrava de forma tão intensa na política nacional, dizem os críticos, ele não designou um substituto para supervisionar as campanhas legislativas congressuais e estaduais.

"O governador estava extremamente concentrado na campanha presidencial. Havia algumas pessoas à sua volta que talvez não tenham o servido bem e que podem ter abaixado a guarda", acrescenta o presidente da Universidade de Denver e possível candidato do Partido Republicano ao governo do Estado, Marc Holtzman, ex-secretário de tecnologia de Owens.

"Todo mundo comete erros - o problema dele foi ter cometido dois ou três em série", diz Benson, em defesa de Owens. Danilo Fonseca

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